Mudar o nome de uma empresa estatal nunca é uma ação neutra. É uma disputa de projeto de país. Quando marcas de empresas históricas, construídas a partir do esforço coletivo, do investimento público e da luta social, são substituídas por rótulos que não representam o Brasil, a intenção do que tentam fazer, é apagar a identidade nacional dessa empresa, e isso, é proposital. Não se trata de um simples reposicionamento de marca. O que está em jogo é a memória, o sentido público e a própria ideia de soberania.
O anúncio da mudança de Eletrobras para Axia Energia reacende esse debate e confirma uma agenda de desnacionalização simbólica iniciada com a sua privatização em 2022. A troca elimina a referência direta ao Brasil e marca um distanciamento deliberado do passado estatal da companhia. A mudança de nome reprograma o imaginário, troca uma referência nacional por uma designação “global” esvaziada de contexto, que pretende fazer esquecer quem financiou e para quem deve servir a infraestrutura energética de um país.
Esse roteiro já é conhecido. A FUP tem registrado em suas publicações que os anos 1990 marcaram um ciclo de desmonte das empresas públicas, período em que a Petrobrás também foi alvo de uma tentativa de apagamento simbólico, com o objetivo de facilitar sua privatização. Foi nesse contexto que surgiu a proposta de mudança do nome para “Petrobrax”. A iniciativa enfrentou resistência firme e organizada da categoria petroleira e dos movimentos sociais, que mobilizaram a sociedade e o Congresso Nacional até conquistar, em 2000, a decisão formal do Senado de manter o nome original.
A reação dos petroleiros e petroleiras foi também um gesto de linguagem que se tornou uma posição política. A Federação e seus sindicatos filiados passaram a retomar o acento em “Petrobrás” em todos os textos e publicações, reafirmando a brasilidade do nome e a função social da empresa. Assim, ficou provado que língua, memória e soberania caminham juntas e que esse gesto não foi apenas gramatical, foi profundamente político.
A história econômica do país mostra que estatais como Petrobrás e Eletrobras foram criadas como instrumentos de integração nacional, indução tecnológica e segurança energética. Uma autora do pensamento desenvolvimentista brasileiro, Maria da Conceição Tavares, defende que a soberania supõe a capacidade do Estado de planejar o desenvolvimento e preservar o controle sobre setores estratégicos como energia, petróleo e infraestrutura. O nome dessas empresas não é detalhe cosmético: ele comunica de quem é o projeto.
Quando se apaga “Brasil” de uma marca como Eletrobras, sinaliza-se, para dentro e para fora, que a energia deixa de ser um bem público estruturante para virar apenas um ativo financeiro diretamente ligado ao interesse dos acionistas da empresa. Essa leitura está presente nas críticas do movimento eletricitário e na reação social à privatização e às medidas subsequentes da companhia.
Entidades do setor ligadas ao Coletivo Nacional dos Eletricitários (CNE) vêm denunciando, desde a privatização, os efeitos sociais e setoriais desse processo e cobrando diálogo. Sindicatos base do CNE reagiram publicamente ao reposicionamento da marca, sublinhando que trocar o nome não apaga a história. É exatamente esse o ponto, a tentativa de cosmética corporativa não reescreve o papel público desempenhado pela empresa nem dissolverá a memória de quem construiu o sistema elétrico brasileiro.
Como ensinou Eric Hobsbawm, tradições e símbolos nacionais não nascem por acaso. São construídos para perpetuar memória, pertencimento e legitimidade. Nomes como Petrobrás, Eletrobrás incorporam o país e atuam como síntese cultural de uma obra coletiva que construiu pesquisas, refinarias, barragens, plataformas, redes de transmissão, universidades, empregos qualificados, e muita ciência produzida aqui, no Brasil.
Energia e petróleo não são mercadorias quaisquer. São infraestruturas de soberania e direitos da população. O nome, e tudo que ele condensa, protege um compromisso que engloba, tarifa justa, expansão com qualidade, pesquisa local, empregos dignos, segurança industrial e transição energética justa. Quando se tenta desnacionalizar a marca, tenta-se, junto, rebaixar o horizonte público dessas obrigações.
Em 2000, a sociedade brasileira disse não à “Petrobrax”. Em 2025, ao assistir à transformação de Eletrobras em Axia Energia, a direção da FUP e de seus sindicatos filiados reafirma que não aceitará o apagamento simbólico do que é fruto do trabalho coletivo do povo brasileiro. Marcas como Petrobrás e Eletrobras não são modismos de mercado, são patrimônio imaterial da Nação e, como tal, devem seguir nomeando um projeto de desenvolvimento com soberania, justiça social e memória.
Defender as empresas públicas é defender o Brasil e o povo brasileiro.