[Por Tezeu Bezerra, diretor da FUP e do Sindipetro NF]
“A história do subdesenvolvimento da América Latina integra, como já se disse, a história do desenvolvimento do capitalismo mundial. Nossa derrota esteve sempre implícita na vitória alheia; nossa riqueza gerou sempre nossa pobreza para alimentar a prosperidade dos outros: os impérios e seus agentes nativos. Na alquimia colonial e neocolonial, o ouro se transforma em sucata e os alimentos em veneno.” — Eduardo Galeano, As Veias Abertas da América Latina
A análise crua e atemporal de Eduardo Galeano continua a ecoar com uma pertinência assustadora na paisagem política contemporânea da América Latina. O texto que serve de base para esta reflexão, um mosaico de denúncias sobre a política externa dos Estados Unidos, revela que a lógica imperialista, longe de ser uma relíquia do passado, se reconfigura com novas roupagens, mas com o mesmo objetivo secular: o controle dos recursos naturais estratégicos. A narrativa oficial, que pinta líderes soberanos como “narcotraficantes” e “ditadores”, desmorona ao ser confrontada com um mapa das vastas reservas de petróleo e gás sob o solo dessas mesmas nações.
Venezuela e Colômbia: o narco-estado como pretexto
A estratégia de demonização se desenrola de forma quase idêntica em diferentes contextos. Na Venezuela, o governo de Nicolás Maduro é alvo de um embargo econômico brutal e da constante ameaça de invasão. A justificativa oficial? A acusação de narcotráfico. A realidade não dita? Os 11 bilhões de barris de petróleo que o país detém, uma das maiores reservas do planeta. As sanções impostas pelos EUA, como aponta uma reportagem do The Intercept Brasil, “contribuíram para uma das mais graves contrações econômicas já registradas em tempo de paz”, provocando uma crise migratória sem precedentes. A flexibilização temporária dessas sanções, condicionada a “eleições livres e justas”, revela o uso da economia como arma de coerção política, buscando uma “mudança de regime” favorável aos interesses norte-americanos, como analisam especialistas para a CNN Brasil.
O mesmo roteiro se repete agora na Colômbia. Com a ascensão de Gustavo Petro, um presidente de esquerda em um país historicamente alinhado aos EUA, o discurso muda. Donald Trump, em uma escalada retórica, passa a classificar Petro como “traficante de drogas ilegal”, cortando subsídios e ameaçando com sanções tarifárias. A coincidência, novamente, é a riqueza do subsolo: a Colômbia é o terceiro maior produtor de petróleo da América Latina. A acusação de narcotráfico, portanto, surge como uma ferramenta conveniente para desestabilizar um governo que não se submete docilmente à agenda de Washington e que, inclusive, ousou se juntar a um bloco de nações que visam abandonar os combustíveis fósseis.
Brasil: A soberania do Pré-Sal em disputa
O Brasil não é um espectador passivo neste tabuleiro geopolítico. A descoberta do pré-sal representou uma oportunidade histórica de desenvolvimento autônomo e soberania energética. A Lei da Partilha de 2010, sancionada durante o governo Lula, foi um marco nesse sentido, estabelecendo a Petrobras como operadora única e garantindo uma participação mínima de 30% da União em cada campo. Essa legislação, um pilar da soberania nacional, assegurava que a maior parte da riqueza gerada ficasse no país, financiando áreas estratégicas como saúde e educação.
Contudo, essa visão de desenvolvimento soberano foi sistematicamente atacada. A revogação da obrigatoriedade da participação da Petrobras, mencionada no texto original, abriu as portas, após o golpe parlamentar que derrubou a presidente Dilma, para que a exploração do pré-sal fosse entregue a multinacionais, como a British Petroleum. A cessão de direitos de exploração, por valores irrisórios comparados ao potencial de retorno, representa uma perda incalculável para o povo brasileiro e um retorno à lógica da espoliação que Galeano tão bem descreveu. A soberania energética, conquistada com investimento em tecnologia e prospecção nacional, foi colocada em xeque, beneficiando interesses privados em detrimento do interesse público.
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Pais |
Líder | Acusação | Riqueza |
Ação |
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Venezuela |
Nicolás Maduro | Ditador e Narcotraficante | Reservas de petróleo |
Sanções econômicas, embargo, ameaça de intervenção |
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Colômbia |
Gustavo Petro | Narcotraficante | Terceiro maior produtor de petróleo da América Latina | Ameaça de sanções, corte de ajuda financeira |
| Brasil | Dilma Rousseff | Corrupção (pedaladas) | Pré-Sal |
Golpe parlamentar “impeachment” |
Um padrão histórico de imperialismo
As intervenções atuais não são eventos isolados. Elas se inserem em uma longa história de imperialismo norte-americano na América Latina, fundamentada na Doutrina Monroe e sua premissa de “América para os americanos” — um eufemismo para “América para os Estados Unidos”. Desde o golpe na Guatemala em 1954 para proteger os interesses da United Fruit Company até o apoio a ditaduras militares por todo o continente durante a Guerra Fria, o padrão de intervenção para garantir o controle econômico e político é claro. O petróleo, como sangue vital da economia industrial, sempre foi um dos principais motores dessa política externa agressiva.
O que vemos hoje é a continuação dessa doutrina por outros meios. A “guerra às drogas” a “promoção da democracia” e a “luta conta a corrupção” funcionam como justificativas ideológicas para ações que, em sua essência, visam garantir o acesso a recursos naturais e a manutenção da hegemonia regional. A falta de uma voz uníssona na América Latina, fragiliza a região e facilita essas empreitadas neocoloniais.
Conclui-se, portanto, que a luta pela soberania nacional e pelo controle de seus próprios recursos continua sendo o desafio central para os países da América Latina. A retórica de Washington pode mudar, os presidentes podem alternar, mas os interesses estratégicos do império permanecem. Cabe aos povos da região, em um esforço de integração e resistência, lutar para que suas veias não continuem abertas, jorrando a riqueza que deveria alimentar seu próprio futuro.