Em vez de proteger a população, o governo de Cláudio Castro transforma comunidades inteiras em campos de batalha, onde o direito à vida é sistematicamente violado. Os impactos são profundos, sobretudo para as mulheres, que sofrem a violência cotidiana de um Estado ausente, que lhes nega o acesso a políticas públicas básicas, e que ainda impõe a elas a dor cruel de carregar os corpos dilacerados de filhos, netos, irmãos e companheiros
Por Bárbara Bezerra, diretora da FUP e do Sindipetro Norte Fluminense, coordenadora do Coletivo Nacional de Mulheres Petroleiras
O recente episódio de violência letal no Rio de Janeiro, orquestrado pelo governo de Cláudio Castro, transcende a retórica de uma simples “guerra ao tráfico”. Com um saldo de 121 vidas ceifadas para 118 armas apreendidas, a operação se revela não como uma ação de segurança, mas como um capítulo brutal de uma política de morte deliberada. Sob o pretexto de combater o crime organizado, promove-se o que o filósofo Achille Mbembe definiu como necropolítica: o uso do poder estatal para ditar quem pode viver e quem deve morrer.
A matemática da operação é macabra e autoexplicativa: mais mortes do que armas. Esse dado, por si só, desmantela qualquer argumento de que o objetivo era a pacificação ou a proteção. O que se assiste é a espetacularização da morte como ferramenta de gestão social e marketing político. O governador do Rio desfila sobre corpos com a frieza de quem gerencia estatísticas, não vidas. Trata-se de uma jogada calculada para espalhar medo, reafirmar um controle autoritário e, cinicamente, gerenciar a vida social através da administração da morte.
A cortina de fumaça das contradições políticas
A fragilidade da narrativa oficial fica ainda mais exposta nas contradições do próprio governador. Cláudio Castro primeiro acusa o governo federal de omissão, para depois recuar e admitir a mentira. Essa manobra diversionista esconde uma questão fundamental: sua ferrenha oposição à Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que visa reconfigurar a segurança pública no país. A PEC propõe a constitucionalização do Sistema Único de Segurança Pública (SUSP), a ampliação das competências da Polícia Federal e das guardas municipais, e o fortalecimento do papel da União no planejamento estratégico.
Por que um governador, supostamente empenhado em resolver o problema da criminalidade, se oporia a uma reestruturação que promete mais integração e inteligência? A pergunta que fazemos é, e deve ecoar em nossas fileiras: estaria o governador com medo de que uma investigação séria, conduzida por um sistema mais robusto e integrado, pudesse expor conexões indesejadas entre seus aliados políticos e o próprio crime que ele alega combater?
Uma crise de saúde pública e direitos humanos
É imperativo redefinir o que ocorreu. Não foi um “enfrentamento ao crime”, mas uma tragédia humana que escancara o fracasso das políticas de segurança. Em vez de proteger a vida, o Estado transforma comunidades inteiras em campos de batalha, onde o direito à vida e à saúde é sistematicamente violado. A responsabilidade primária do Estado — garantir a segurança e preservar a vida — é pervertida em seu oposto.
O impacto dessa política vai além da violência física. O medo, a dor, o luto e a perda infligem feridas profundas e duradouras na saúde mental das famílias dessas comunidades. Sobretudo as mulheres, que sofrem com a violência dupla de um Estado que lhes nega o direito a políticas públicas básicas e ainda impõe a elas a dor cruel de carregar os corpos dilacerados de filhos, netos, irmãos e companheiros. Normalizar esse estado de terror é desumanizar a população das favelas, tratando-a como um dano colateral aceitável na busca por uma paz que nunca chega.
O fracasso da guerra e o chamado à ação
A pergunta final é um soco no estômago da lógica higienista: “se algum playboy da zona sul subir o morro para comprar cocaína ele vai conseguir comprar ou não?”. A resposta óbvia revela a farsa. A droga continua a circular, o crime organizado se rearticula, mas as vidas perdidas nas comunidades são irrecuperáveis. A guerra não é contra as drogas; é contra os pobres.
Para nós, militantes da vida e da paz, a tarefa é clara. É preciso denunciar essa necropolítica, desmascarar a retórica da guerra e lutar por um modelo de segurança pública que seja fundamentado na inteligência, na prevenção e, acima de tudo, no respeito incondicional aos direitos humanos. É hora de exigir o fim do massacre e a construção de uma política que proteja todas as vidas, não apenas algumas.
Uma característica do fascismo é a desumanização. Com isso, ele convence que as vidas de determinados grupos de pessoas têm menor valor que outras. Ou nenhum valor. Com isso, o fascismo se autoriza a matar. Um dia, eles convenceram que judeus não eram gente. Deu-se o holocausto. E nos dias atuais, estamos assistindo com severidade o ataque à classe trabalhadora, com recortes de cor, endereço e gênero.
O casamento do fascismo com a necropolítica é a barbárie. A vida tem que ter valor imensurável e único universalmente. Portanto, é democracia ou barbárie.