Em artigo de opinião no Estadão, eles atribuem os resultados da empresa às medidas nefastas de desmonte que ajudaram a implementar no passado, afirmando que o desempenho atual é a “colheita do trabalho acumulado” entre 2016 e 2022. Confira a resposta da FUP
[Nota da FUP]
Em artigo de opinião publicado no último sábado (22) no jornal O Estado de S. Paulo, Rafael Chaves e João Henrique Rittershaussen, ex-diretores executivos da Petrobrás na gestão do governo Bolsonaro, defendem o receituário ultraliberal de enxugamento da empresa para maximização dos lucros. Mais do que uma provocação, o texto serve de alerta para os riscos que o país e a população brasileira correm, se o projeto político da extrema direita avançar nas eleições de outubro.
Rafael Chaves ingressou na Petrobrás em 2019 por indicação política de Bolsonaro e ocupou a diretoria de Relacionamento Institucional e Sustentabilidade até março de 2023. Já Rittershaussen foi funcionário de carreira, passou por diversas gerências executivas, atuou como diretor de Desenvolvimento da Produção e chegou a assumir interinamente a presidência da empresa em janeiro de 2023, durante a transição do cargo para Jean Paul Prates. Os dois executivos foram denunciados pela FUP, em janeiro de 2022, por conduta negacionista, após colocarem em risco os trabalhadores do então Gaslub durante um pico da pandemia da Covid-19 no estado do Rio.
Agora, sem o menor pudor, eles tentam tomar para si o mérito pelo lucro e produção recorde da Petrobrás, ao atribuírem os resultados da empresa às medidas nefastas de desmonte que ajudaram a implementar no passado. No texto, chegam a afirmar que o desempenho atual da companhia é a “colheita do trabalho acumulado” entre 2016 e 2022. Criticam a política de fortalecimento e reconstrução do Sistema Petrobrás, como a recomposição de efetivos e a retomada de investimentos em setores estratégicos, e cobram da direção da empresa uma “correção de rota”.
Não precisa ser um especialista para perceber que esses dois expoentes da antiga gestão bolsonarista se utilizam de uma análise rasa a partir de dados enviesados dos resultados da Petrobrás para confundir o leitor com um discurso de planilha. O objetivo é mascarar o viés ideológico de quem privatizou e que de tudo fez para reduzir a maior estatal brasileira a uma empresa focada “no petróleo e no lucro”, como assumem no artigo.
Propositalmente, os ex-diretores ignoram em sua análise que a alta produção da Petrobrás é resultado direto de investimentos que possibilitaram no passado a descoberta e a exploração do pré-sal, os quais foram duramente criticados por seus pares e que, se dependessem deles, jamais teriam ocorrido. Estamos falando de investimentos que saltaram de US$ 6 bilhões, em 2003, para US$ 48 bilhões, em 2014, e que na gestão Bolsonaro, despencaram para US$ 8 bilhões. Portanto, o aumento da produção da empresa tem a ver sim com os investimentos realizados entre 2003 e 2014 e não com o período 2016-2022.
É importante lembrar ainda que foi nos governos Temer e Bolsonaro que a gestão da Petrobrás vendeu campos estratégicos do pré-sal, como Albacora Leste, na Bacia de Campos e áreas próximas aos campos gigantes de Lula e Sapinhoá, entregues às empresas concorrentes. Se essa política de desmonte do pré-sal e de desinvestimentos continuasse, hoje a produção da Petrobrás teria caído muito e a riqueza gerada pela exploração do petróleo brasileiro estaria ainda mais concentrada nas mãos das petrolíferas privadas e estatais estrangeiras.
Além de deixarem de fora essas informações, os ex-dirigentes bolsonaristas também afirmam no artigo que o aumento de efetivos e dos gastos da Petrobrás com pessoal está na “contramão da eficiência”, utilizando, mais uma vez, dados enviesados para avaliar a produtividade dos trabalhadores. A metodologia deles relaciona “caixa operacional” e número de trabalhadores.
Nos governos Temer e Bolsonaro, a empresa de fato lucrou muito com os valores abusivos da venda de combustíveis no mercado interno devido à pratica do PPI (preço de paridade de importação), com as privatizações e com a redução drástica dos custos com os trabalhadores, via enxugamento dos efetivos e a redução e retirada de direitos. Quem mais se beneficiou com essa metodologia foram os acionistas privados, que acumularam vultosos dividendos às custas da exploração dos trabalhadores, do desmonte da empresa e do alto preço imposto aos consumidores.
Apesar dos dividendos pagos atualmente pela Petrobrás terem retornado ao patamar de 30% do lucro líquido (no governo Bolsonaro, os acionistas chegaram a se apropriar de mais de 100% do lucro), o montante ainda é muito elevado. O percentual de dividendos caiu aos patamares pré-golpe, mas o valor distribuído aos acionistas privados ainda é muito alto. Prova disso é que, enquanto a Petrobrás destinou para os trabalhadores cerca de 9% da riqueza gerada nos seis primeiros meses de 2026, os acionistas ficaram com 34%.
Ao defenderem que a eficiência de uma empresa de petróleo passa pelo enxugamento de efetivos e pela redução de custos para aumentar a produtividade dos empregados, os ex-diretores revelam o quanto a vida dos trabalhadores e a segurança operacional da Petrobrás foram negligenciadas pela gestão bolsonarista. Na contramão do que eles defendem no artigo, estudos e pesquisas acadêmicas comprovam que a redução de efetivos impacta profundamente as condições de trabalho, saúde e segurança na indústria de petróleo. O desgaste físico e mental causado pelas políticas de redução de efetivos resultaram no aumento dos adoecimentos e das ocorrências de graves acidentes de trabalho, muitos deles fatais.
Para a FUP e seus sindicatos, a Petrobrás não deveria ter como meta a conquista de lucros extraordinários, mas sim ser uma empresa socialmente responsável, que zele pelo bem-estar dos trabalhadores e das comunidades onde atua e que cumpra o seu papel social no desenvolvimento do Brasil. “Embora seja uma empresa lucrativa, a missão principal da Petrobrás é o abastecimento da população. Portanto, é necessário aprofundar a revisão da política de dividendos e redirecionar os investimentos para a transição energética, o setor de fertilizantes e a diversificação das atividades. É plenamente possível a companhia ser estável, consistente e lucrativa sem ter como único objetivo a obtenção de margens cada vez mais elevadas de lucro, como era defendido pelo projeto de desmonte desenhado anteriormente”, explica a coordenadora-geral da FUP, Cibele Vieira.