Venda da unidade de fertilizantes da Petrobrás para os russos

A questão dos fertilizantes para além da fertilização do solo

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Sanções à Rússia e seus aliados podem impactar diretamente na inflação e no preço dos alimentos (Foto: Roberto Parizotti/Fotos Públicas)

A crise na Rússia expôs um grave problema brasileiro: a sua dependência absurda de fertilizantes importados frente a uma produção nacional sucateada e abandonada pelo Estado.

A questão é que, além da produção agrícola, produtos como a ureia são utilizados em outras áreas da produção brasileira. Em 2020, de acordo com a Unigel (empresa dona da Proquigel, arrendatária das fábricas de fertilizantes da Bahia e de Sergipe), o Brasil consumiu 7,5 milhões de toneladas de ureia, sendo que 88% deste volume foi de ureia fertilizante, 4% de ureia industrial, 3% de ureia pecuária, 2% de ureia automotiva e 3% para outros usos.

Com a escassez provocada pela perda de aproximadamente um quinto das importações, o aumento dos preços será sentido tanto na produção de commodities agrícolas quanto na carne bovina e no preço da Arla32, insumo utilizado em caminhões, pressionando ainda mais o preço do frete, que já sofre com a alta do preço do diesel.

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A falta de investimento no setor é um gatilho para a inflação, que poderia ser totalmente contornada pela adoção de uma política de Estado na produção de fertilizantes. A importância na agropecuária é marcante, principalmente, nos períodos de seca, isso porque ela é utilizada na alimentação do gado, pois é uma fonte de nitrogênio não proteico e auxilia na manutenção do peso.

A redução da oferta mundial impactará diretamente na produção brasileira, que, com sua indústria destruída, fica dependente intensamente do agronegócio, que foi responsável por 26,6% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2020.

Ainda segundo a Unigel, os países de origem das importações de ureia foram: Catar (27% do volume importado), Argélia (22%), Rússia (19%), Irã (7%), Nigéria (6%), Arábia Saudita (4%), Omã (4%) e Turcomenistão (3%). Outros países representaram 8% do volume total importado. Desses, o Irã está apoiando as ações de Putin.

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Se as sanções econômicas se estenderem aos aliados, ainda corremos o risco de perder mais 7% da oferta de fertilizantes nitrogenados, o que totalizaria uma redução de 26% das importações e, consequentemente, resultaria em uma alta de preços ainda mais significativa.

O Brasil, por meio da da Petrobrás, tinha planos de reduzir sua dependência externa de fertilizantes, a exemplo da construção da Unidade de Fertilizantes Nitrogenados (UFN3), em Três Lagoas (MS). Além dela, mais duas seriam construídas, uma no Espírito Santo (Linhares) e outra em Minas Gerais (Uberlândia). Projetos que foram interrompidos de maneira irresponsável, sem uma orientação política para a soberania nacional.

Recentemente, foi anunciada a venda da UFN3 para os russos, o que obviamente é um erro estratégico – não faz o menor sentido entregar sua maior fragilidade comercial nas mãos do seu principal vendedor.

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A UFN3 foi projetada para ser a planta com maior eficiência energética pela detentora da tecnologia de produção de amônia e ureia, a KBR. Sua continuidade seria não só uma redução da dependência de fertilizantes importados como também do impacto ambiental na produção dos fertilizantes utilizados em solo nacional.

Qualquer governante que não relacione a questão dos fertilizantes com a soberania nacional, carrega com ele a mensagem que não se importa com segurança alimentar da nação, que ficará entregue às oscilações do mercado e crises externas.

Por Albérico Santos Queiroz Filho, trabalhador da Usina Termelétrica Três Lagoas e diretor do Sindicato Unificado dos Petroleiros do Estado de São Paulo (Sindipetro-SP).