Reconstrução

Em artigo, coordenador da FUP aborda o papel da Petrobrás no novo projeto industrial do país

Em artigo publicado nesta terça-feira, 30, pelo jornal Correio Braziliense, o coordenador-geral da FUP, Deyvid Bacelar, e o assessor da entidade e economista do Dieese, Cloviomar Cararine, reforçam que a Petrobrás tem papel central no modelo de neoindustrialização e que o governo federal deve levar em consideração os novos desafios do nosso parque industrial, como a proteção ao meio ambiente, a redução das emissões de gases de efeito estufa e a geração de empregos

Leia a íntegra:

O papel da Petrobras no novo projeto industrial do país

Por DEYVID BACELAR, coordenador-geral da Federação Única dos Petroleiros (FUP) e CLOVIOMAR CARARINE, economista do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese/subseção FUP)

O programa Nova Indústria Brasil, lançado pelo governo federal no último dia 22, é mais um importante esforço para o país se desenvolver, voltar a ter um setor industrial forte e gerar empregos de qualidade. O programa apresenta uma visão política e programática do que seria um modelo de neoindustrialização, levando em consideração os novos desafios do nosso parque industrial, como a proteção ao meio ambiente, a redução das emissões de gases de efeito estufa e a geração de empregos dignos, entre outros. A política prevê aporte de R$ 300 bilhões até 2026 provenientes de diversas fontes, principalmente financiamentos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

O programa parte de três premissas e desafios há muito tempo discutidos pela sociedade brasileira: a) o fortalecimento da indústria brasileira é chave para o desenvolvimento sustentável do Brasil, dos pontos de vista social, econômico e ambiental; b) o Brasil passou a enfrentar um processo de desindustrialização precoce e acelerado, a partir dos anos 1980, com primarização da estrutura produtiva e fragilização dos elos das cadeias; e c) as exportações do país estão concentradas em produtos de baixa complexidade tecnológica, limitando os ganhos comerciais.

Contudo, para o movimento sindical petroleiro, cabe questionar qual o papel que a Petrobras poderá desempenhar no novo projeto industrial. Segundo estudo da Confederação Nacional da Indústria, o setor de óleo e gás representa 10% do Produto Interno Bruto (PIB) industrial do país e contribui muito com o crescimento econômico, por meio de investimentos previstos em exploração e produção da ordem de US$ 180 bilhões entre 2022 e 2031. Somente da Petrobras, estão planejados US$ 102 bilhões entre 2024 e 2028.

Entre as seis missões apresentadas pelo novo programa, a quinta delas tem relação direta com o setor de óleo e gás natural, pois trata da “bioeconomia, descarbonização, transição e segurança energética para garantir os recursos para as gerações futuras”. Nesse eixo, a Petrobras tem papel central a contribuir para a transição energética justa por meio de algumas frentes: produção de petróleo e gás a baixo custo e com baixa pegada de carbono; assegurando o abastecimento de biocombustíveis, como diesel renovável, combustível sustentável para aviação e outros combustíveis verdes produzidos numa refinaria 100% verde; desenvolvendo tecnologias de captura, armazenamento e utilização de carbono; e contribuindo no avanço de novos segmentos econômicos, como o da produção de hidrogênio verde/azul e o da eólica onshore e offshore.

Outra importante frente de atuação da Petrobras deve ser o fortalecimento da política de conteúdo local, com a utilização estratégica do poder de compra estatal, como fazem os países desenvolvidos. Portanto, cabe exercer contínua e crescente pressão para que a Petrobras retome suas compras de máquinas e equipamentos no Brasil.

Cabe ainda ressaltar a capacidade de investimentos em inovação tecnológica e geração de empregos de qualidade. Esses pontos estão nos princípios do programa Nova Indústria Brasil e precisam ser retomados na nova gestão da Petrobras. A empresa investia, em média, R$ 4,1 bilhões (em valores atualizados) em pesquisa, inovação e novas tecnologias, entre 2006 a 2014. Esses investimentos caíram para a média de R$ 3,2 bilhões no governo Bolsonaro. Temas como inclusão econômica; equidade de gênero, cor e etnia; sustentabilidade; promoção do trabalho decente e melhoria da renda das famílias; além da redução das desigualdades, incluindo as regionais, precisam aparecer de forma mais clara nos planos de gestão e negócios da Petrobras.

Depois de um ano de reconstrução da Petrobras, é urgente avançar no retorno da empresa como ferramenta estratégica para o desenvolvimento nacional, para a soberania energética, para a geração de riqueza e redução das desigualdades sociais do Brasil.