FUP lamenta morte de Sílvio Tendler, cineasta que documentou as lutas do povo brasileiro

Foto: Divulgação/Caliban

Considerado um dos maiores documentaristas do Brasil, Tendler registrou os principais acontecimentos do país e do mundo ao longo de cinco décadas de carreira, sempre dando voz e protagonismo ao povo e aos trabalhadores. Sua obra reflete o compromisso com a defesa incondicional da democracia, da soberania e da justiça social

[Da comunicação da FUP]

A FUP e seus sindicatos lamentam profundamente o falecimento do cineasta brasileiro, Sílvio Tendler, que nos deixou nesta sexta-feira, 05, aos 75 anos, em consequência de uma infecção generalizada. Ele estava internado, no Rio de Janeiro, e lutava há dez anos contra uma doença degenerativa.

Considerado um dos maiores documentaristas do Brasil, Tendler registrou os principais acontecimentos do país e do mundo ao longo de cinco décadas de carreira, sempre dando voz e protagonismo ao povo e aos trabalhadores. Sua obra reflete o compromisso com a defesa incondicional da democracia, da soberania e da justiça social.

Por meio de seus documentários, contou a história de políticos brasileiros, como os presidentes da República, João Goulart e Juscelino Kubitsckek, do líder revolucionário Carlos Marighella, dos intelectuais Milton Santos e Josué de Castro, do cineasta e amigo Glauber Rocha, dentre tantas outras personalidades da nossa história.

Utopia e barbárie

Jango, seu documentário mais conhecido, está entre as maiores bilheterias da história do cinema nacional. Já em “Utopia e Barbárie”, que levou cerca de vinte anos para ser finalizado, Tendler traça um panorama da segunda metade do século 20, fazendo uma reconstrução narrativa do Brasil e do mundo através de acontecimentos históricos, como a Segunda Guerra, o Holocausto, as revoluções socialistas, as ditaduras militares, a Operação Condor, os movimentos de 1968, a queda do Muro de Berlim e o avanço do neoliberalismo.

Dedo na ferida e lawfare

Pelas lentes de Sílvio Tendler, também foram registradas mobilizações sociais, como as do povo negro e as do MST, e lutas em defesa do Sistema Único de Saúde e da reforma agrária. Ele abordou ainda os períodos sombrios mais recentes da política brasileira, como o golpe de 2016, que é tratado no documentário “O dedo na ferida”, e os impactos da Operação Lava Jato sobre o Estado Democrático de Direito, cuja instrumentalização do sistema jurídico com fins políticos e eleitorais (lawfare) é retratada no documentário “O Caso Pizzolato: Por uma Questão de Justiça”.

Crítica às privatizações

O cineasta também denunciou o crescente desmonte do Estado brasileiro e as consequências das privatizações, entre elas, o desmantelamento do Sistema Petrobrás. “Privatizações: a distopia do capital” revela os estragos para a nação brasileira dos programas de desestatização dos governos Fernando Collor, Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso, nos anos 90.

Lançado em outubro de 2014, quando a Petrobrás completou 61 anos em meio aos ataques da operação Lava Jato, o documentário fez um alerta na época para os riscos de uma nova leva de privatizações, o que, infelizmente, se concretizou nos governos Temer e Bolsonaro. No filme, Tendler descreve a Petrobras como “a joia da coroa das privatizações brasileiras”. O documentário foi feito em parceria com o Sindicato dos Engenheiros no Estado do Rio de Janeiro (Senge-RJ) e a Federação Interestadual de Sindicatos de Engenheiros (Fisenge), com o apoio da CUT Nacional.

Sonhos interrompidos

Conhecido como o “cineasta dos sonhos interrompidos”, Sílvio Tendler, deixa uma imensa contribuição para a cultura brasileira e, sobretudo, uma linda trajetória em defesa da democracia e da soberania. Seu legado, com mais de 100 obras documentais, é o registro histórico não só das principais lutas do povo brasileiro, como também da importância da utopia. Como ele bem afirmou: “Tem duas formas de lidar com o passado: uma como âncora que te prende e fixa e outra como uma bússula que te orienta e te guia para a vida”.

Sílvio Tendler, presente! Hoje e sempre!

Toda a nossa solidariedade aos familiares e amigos.

Assista o documentário “Privatizações: a distopia do capital”