Ato com Lula no Rio firma unidade da esquerda em defesa da democracia

Terça, 03 Abril 2018 16:34

Sob os gritos de “Lula livre!”, em seu último pronunciamento público antes de o Supremo Tribunal Federal (STF) deliberar sobre a possibilidade de prisão para réus condenados em segunda instância, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi a principal atração de um ato político que reuniu milhares de pessoas no centro do Rio de Janeiro. Diante de um público que transbordou dos limites do Circo Voador e que, mesmo debaixo de chuva, tomou boa parte do largo próximo aos Arcos da Lapa pedindo justiça para a vereadora assassinada Marielle Franco e o fim da escalada reacionária no Brasil, representantes de sindicatos e movimentos sociais e dos partidos PT, Psol, PCdoB, PDT, PSB e PCO pregaram a unidade da esquerda nas próximas eleições presidenciais como melhor estratégia para mudar novamente os rumos do país.

“Este ato é um marco. A democracia só avança quando aprendemos a falar das divergências na unidade”, disse Lula. Pré-candidata do PCdoB à Presidência da República, a deputada estadual Manuela d’Ávila (RS) afirmou que Brasil parece hoje ter somente dois partidos. “Temos aqueles que são do partido de Tiradentes e querem a liberdade do Brasil e aqueles do partido de Silvério dos Reis, que querem submeter o país ao interesse de outras nações. O que nos une na esquerda é a luta pela liberdade do Brasil, travamos a mesma luta em defesa da democracia”, disse, acrescentando que “a luta pela democracia passa pelo direito de Lula concorrer."

Falando em nome do pré-candidato do Psol à Presidência, Guilherme Boulos, que não pôde comparecer ao ato, o deputado estadual Marcelo Freixo (RJ) também afirmou que “o direito de Lula concorrer é uma luta pela democracia”. Ele admitiu que existem diferenças programáticas entre os partidos de esquerda, mas afirmou que a defesa da democracia está acima de qualquer diferença. “Seja ela qual for, a diferença política é menor do que a luta de classes. Não estamos aqui por questão eleitoral, precisamos de muitos encontros como este para travar um debate profundo. Vamos nos encontrar nos principais temas. Os golpistas serão derrotados nas ruas e nas urnas”, disse.

Participaram do ato os pré-candidatos do PT ao governo do Rio, Celso Amorim, e ao Senado, Lindbergh Farias (RJ), além de diversos parlamentares do partido. Pelo Psol, estiveram presentes o pré-candidato ao governo estadual, Tarcísio Mota, e o deputado federal Jean Willys (RJ). Pelo PCdoB, falaram o pré-candidato ao governo, Léo Giordano, e a deputada federal Jandira Feghali (RJ). Recém-chegado ao PSB, o deputado estadual Carlos Minc (RJ) também saudou a unidade da esquerda: “Desta vez, os partidos estão com muita vontade de construir a unidade para impedir que o fascismo cresça no Brasil. Os vis e covardes não nos calarão”.

Também estiveram no Circo Voador o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad, artistas como Chico Buarque, Osmar Prado e Wagner Tiso, entre outros, representantes da academia como Márcia Tiburi, Emir Sader e Luiz Pinguelli Rosa, e líderes sindicais como Vagner Freitas, presidente da CUT, e José Maria Rangel, coordenador da Federação Única dos Petroleiros (FUP), além de dirigentes dos movimentos sem-terra, sem-teto, negro e de mulheres. 

Escalada fascista

As referências a uma possível escalada fascista no Brasil deram o tom de várias intervenções. Falando como representante dos intelectuais, Márcia Tiburi disse que é preciso construir a unidade no dissenso. “A luta antifascista se coroa com a unidade da esquerda”, disse. Léo Giordano seguiu na mesma linha: “Os partidos de esquerda fizeram algo digno de nota, um programa coletivo contra o fascismo e o atraso. Respeitamos a nossa diversidade de opiniões e não nos anulamos em nome dessa unidade. Estamos mais fortes e vigorosos.”

O ex-ministro das Relações Exteriores Celso Amorim alertou sobre o “ovo de serpente” representado pelos grupos de extrema-direita que parecem cada vez mais à vontade no Brasil. “Os partidos de esquerda querem as mesmas coisas. Querem dizer não à subserviência a interesses externos, querem defender o pão do povo”, disse. Já Jean Willys propôs a criação de um movimento antifascista e defendeu o direito de Lula ser candidato: “A democracia no Brasil está golpeada e esgarçada. Que se exijam provas para prender Lula! Nós não vamos deixar”, disse.

Mônica Benício,  companheira da vereadora Marielle Franco, morta a tiros em uma emboscada no centro carioca, em 14 de março, afirmou que o assassinato de Marielle “é só mais um ataque à democracia que estamos vivendo”. Em seu discurso, Lula responsabilizou indiretamente a TV Globo pela morte da ativista.  “Certamente, se a Globo tivesse falado da Marielle em vida meio por cento do que ela falou depois da morte, quem sabe o assassinato não teria acontecido.” ​

Mídia

Menos descontraído do que de costume, Lula afirmou que as elites do país se equivocam ao pensar que sua possível prisão irá deter a luta dos trabalhadores e daqueles que desejam um Brasil soberano: “É uma bobagem eles acharem que, me tirando do jogo, está resolvido o problema deles. O problema deles não sou eu. O problema deles são vocês, que não querem mais ser tratados como gado, não querem mais ser coadjuvantes, mas sim sujeitos da história”, disse. O ex-presidente citou a Inconfidência Mineira: “Esquartejaram o Tiradentes, salgaram seu corpo e acharam que nunca mais ninguém iria falar em independência por aqui. Mas, trinta anos depois teve a Independência neste país”, disse. 

Lula afirmou não temer a prisão: “Não vão prender meus pensamentos, não vão prender meus olhos. Se não me deixarem andar, eu andarei pela perna de vocês. Se não me deixarem falar, eu falarei pela boca de vocês. Se meu coração parar de bater, baterá pelo coração de vocês”. 

Se dirigindo a Freixo e Manuela, Lula falou sobre algumas medidas que, segundo ele, um eventual presidente de esquerda não poderá adiar: “Para quem, do nosso campo, ganhar a Presidência da República em 2018 nós temos que dizer em alto e bom som: se a gente não fizer uma regulamentação dos meios de comunicação... Você não pode ter meia dúzia de famílias mandando na comunicação do Brasil, não pode ter três canais de televisão falando pelo Brasil inteiro. É preciso repartir as verbas da comunicação para todo o Brasil”. 

Lula também cobrou a revogação da PEC 241, aprovada pelo Congresso Nacional no governo Temer e que congela os gastos públicos por 20 anos: “Quem de nós ganhar as eleições vai ter também que derrubar a tal da PEC dos Gastos, que tem que virar a PEC do Desenvolvimento, a PEC do Investimento em Infraestrutura.”, disse.

“Falem a verdade!” 

Emocionado, o ex-presidente exigiu “que falem a verdade” a seu respeito: “Eu não estou aqui somente pelo direito de ser candidato. O que eu quero é que eles parem de mentir a meu respeito e devolvam a minha inocência porque eu quero ser candidato. Eu não posso ser vítima de uma mentira do jornal O Globo que foi aceita pela Polícia Federal, que contou outra mentira no inquérito para o Ministério Público, que pegou o inquérito mentiroso e contou uma mentira para o juiz e o juiz aceitou a mentira e me condenou”. 

Lula quer um julgamento justo: “Eu quero ser julgado com base no mérito do meu processo e, se encontrarem um crime qualquer que eu cometi, eu não estou acima da lei, eu tenho que ser tratado igual a qualquer cidadão. Mas, quero que parem de mentir a meu respeito!”, exigiu. 

O ex-presidente também lembrou o momento da economia brasileira quando o golpe contra a democracia já estava sendo gestado: “Em dezembro de 2014, tínhamos o menor índice de desemprego da história brasileira. É importante lembrar que, durante doze anos, o povo trabalhador começou a ter benefícios e teve 74% de aumento do salário mínimo. É bom lembrar que recuperamos a indústria de óleo e gás, a indústria naval, e criamos mais de 20 milhões de empregos com carteira de trabalho assinada”. E completou: “O que está acontecendo no Brasil tem o dedo das empresas internacionais de petróleo. Não querem a soberania do Brasil”.

[Via Rede Brasil Atual, com informações do DCM | Fotos: Midia Ninja]

A Federação Única dos Petroleiros (FUP) foi criada em 1994, fruto da evolução histórica do movimento sindical petroleiro no Brasil, desde a criação da Petrobrás, em 1953. É uma entidade autônoma, independente do Estado, dos patrões e dos partidos políticos e com forte inserção em suas bases.

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