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A diretora do Sindipetro-ES e assistente social da Petrobrás fala sobre o dia a dia e a jornada de trabalho de mulheres petroleiras

Quinta, 05 Março 2009 21:00

Mariane Henriques França milita no movimento sindical petroleiro há um ano e meio., desde que passou a compor a diretoria do Sindipetro Espírito Santo. No sindicato, ela já atuou nas Secretarias de SMS  e de Assuntos Jurídicos e assumirá em junho deste ano a Secretaria de Comunicação. Mariane é casada, tem um filho de 5 anos e, além de trabalhar na Petrobrás e atuar no Sindicato, ainda encontra tempo para desenvolver trabalhos comunitários  e participar de debates políticos na sociedade e no PT - partido ao qual é filiada.

Que dificuldades as mulheres petroleiras enfrentam em seu dia-a-dia de trabalho na Petrobrás?

Acredito que as mulheres petroleiras enfrentam dificuldades pertinentes as mulheres trabalhadoras do mundo de trabalho globalizado, competitivo e individualista. Dificuldades também pertinentes à cultura social vivenciada em nosso contexto. Contudo, com um agravante. A mulher não desempenha só um papel social perante a sociedade. Desempenha 3, 4, 5 ou mais: é profissional, mãe, esposa, dona de casa, estudante, militante, etc. Ao desempenhar inúmeros papéis sociais ao mesmo tempo, sofre com uma carga psíquica, que para muitas mulheres é difícil de ser enfrentada. Ao exercer o papel de profissional, num contexto corporativo como o do Sistema Petrobras, requer de si mesma uma cobrança intrínseca do trabalho desempenhado por todos nós na Companhia, sob extrema pressão na execução de um serviço de excelência.  Como o homem, a mulher é cobrada cada vez mais por resultados rápidos e eficientes. Somos cobradas com o mesmo nível de exigência no trabalho, e também em casa. Contudo, em casa sem reconhecimento financeiro e emocional. Aliar o papel de profissional, ao papel de mãe, esposa, dona de casa, estudante, dentre outros, tendo sempre uma aparência impecável, não é nada fácil. Além disto, as viagens a trabalho são constantes, o que dificulta ainda mais e requer de nós, uma administração “mágica” do tempo. Parto do fato real de que nós, mulheres, temos mais condições que os homens para assumirmos vários papéis. Estamos numa empresa predominantemente masculina, cujo processo fim do negócio do Sistema Petrobras é tratado pelos Engenheiros, Geólogos, etc. Entrar neste espaço tão masculinizado, e muitas vezes machista, requer de nós características de personalidade bem diferenciadas dos homens. Estas características se dizem respeito ao que temos que conquistar no trabalho: é necessário mostrar um serviço diferenciado atrelado a uma capacidade técnica ímpar, para termos espaço e reconhecimento profissional.

 A realidade é a mesma nas empresas prestadoras de serviço?
 
Embora tenhamos algumas particularidades no Sistema Petrobras, acredito que a realidade vivenciada no enfrentamento dos múltiplos papéis, é a mesma.  Algumas particularidades se acentuam nas empresas prestadoras de serviço, como piores condições de trabalho, salários mais baixos, mais atitudes discriminatórias, etc.
 
Como o movimento sindical pode atuar de forma mais incisiva para acabar com as discriminações e o assédio contra as mulheres em seus locais de trabalho?

O papel do Sindicato é sempre estar presente frente a novas lutas, por condições dignas de trabalho das mulheres nas áreas operacionais, cobrando, fiscalizando, promovendo discussões e debates sobre os temas, bem como exigindo respeito dos homens à entrada das mulheres nesta conjuntura.

A discriminação e o assédio no contexto de trabalho atinge o tipo de formação e a atividade profissional da mulher, demarcando espaços femininos e masculinos no mercado de trabalho. Historicamente, a ideologia machista definiu que determinadas carreiras ou funções seriam próprias à mulher, uma vez que se adequariam à sua “natureza”.

Assim, grande parte das mulheres que são parte da força de trabalho da Petrobras, executam atividade de serviços gerais (limpeza), recepcionista, telefonista, auxiliar administrativo, técnicas de administração, profissionais de recursos humanos, quando substituem outras nas tarefas ditas específicas ao seu sexo.

Outras funções desenvolvidas por mulheres na empresa são assistentes sociais, enfermeiras, psicólogas, porque é da sua “natureza” ensinar, cuidar, servir e atender. Também na Petrobras ela exerce, freqüentemente, tarefas que exigem maior paciência, imobilidade e sacrifícios que, supostamente, são mais bem suportados pela mulher, tendo em vista suas “qualidades intrínsecas”.

No contexto da Petrobras, esta demarcação de funções nos remete a uma correspondência entre a desvalorização de tarefas, pois as mulheres estão, em sua maioria, em atividades meio, deixando a cargo dos homens, o negócio da Cia: produzir petróleo.

Apesar disso, é necessário considerar uma problemática atual: a inserção das mulheres nas frentes operacionais. O trabalho on shore e off shore requer adaptações ainda mais complexas, como o trabalho em turno e confinado, o que leva as mulheres a um distanciamento do lar e do convívio materno, gerando dificuldades de enfrentamento de um sofrimento psíquico. Isto esta acontecendo na Petrobras.

Que ações poderiam contribuir para aumentar a participação das mulheres no movimento sindical?

A história nos mostra a atuação organizada das mulheres em torno da luta por igualdade salarial e igualdade de oportunidades no acesso ao mercado de trabalho, na ascensão e aprimoramento profissional, combinando essas bandeiras com a denúncia da dupla jornada de trabalho e a exigência de creches na empresas e locais de moradia, serviços públicos que facilitem as tarefas domésticas e divisão desses encargos com os homens.

Sendo assim, o movimento sindical assume fundamental relevância na adoção de políticas sociais em rede com outros atores na busca da concretização de direitos e maximização de idéias frente aos debates políticos.

É necessária a busca constante pelo recrudescimento da participação feminina nos movimentos sindicais e sociais, através da formação político e ideológica, que pode se dar em debates constantes com a classe feminina.

É Importante frisar que para que esta luta se concretize é necessário que os homens possam refletir melhor sobre o papel e o poder de voz da mulher na sociedade, no contexto empresarial e no contexto sindical.

Você acredita que o sistema de cotas pode garantir uma participação maior das mulheres em cargos gerenciais e nos movimentos sindicais e políticos?

O Sistema de Cotas no Brasil, consiste em definir uma percentagem mínima de participação de determinada classe para ter participação em diversos espaços. Nesta especificidade, a idéia do sistema de cotas para garantir a participação maior das mulheres em cargos gerenciais e nos movimentos sindicais e políticos, poderá ser encarada como uma política de discriminação positiva, isto é, que combatem a discriminação das mulheres de forma clara, pela imposição.

De certa maneira, se avaliarmos o contexto do Sistema Petrobras e do movimento sindical petroleiro, onde a quase totalidade dos integrantes são homens, esta política poderia se tornar uma garantia de direitos para as mulheres.

Acredito que nós, mulheres, temos condições de superar os homens em termos de gerenciamento de pessoas e na luta pelos direitos da categoria.

No que diz respeito ao sistema de cotas para garantir a participação das mulheres nos movimentos sindicais, algumas ponderações são necessárias: assumir tripla jornada de trabalho, avaliação das condições de trabalho, se será liberada ou não, como ficará a tripla jornada, avaliação do apoio familiar na gestão do tempo dispendido ao movimento sindical, etc. Neste sentido, a participação das mulheres deve ser efetivada através dos fóruns de discussão e conscientização política das mulheres, já que vários outros entraves podem ser evidenciados. Será que com uma política de cotas, poderemos fomentar a participação da mulher, ou será uma política impositiva?

Já no que diz respeito ao implante de sistema de cotas para garantir a participação das mulheres em cargos gerenciais, penso que estes cargos  devem ser preenchidos por competência técnica e profissional, sem discriminação de sexo, idade, opção sexual e política, etc.
 

 

 
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Publicado em ENTREVISTAS