Greve se fortalece em SP, com atos nas bases e unidade entre petroleiros, juventude e aposentados

Coordenador-geral da FUP compareceu logo cedo na Replan para apoiar a luta dos petroleiros da Replan (Foto: Guilherme Weimann)

“É inadmissível uma Petrobrás com R$ 94 bilhões de lucro dizer não aos trabalhadores”, afirma Deyvid Bacelar, coordenador da FUP, em ato na Replan, ao defender a continuidade da greve nacional

[Da comunicação do Sindipetro Unificado, com edição da FUP]

No quarto dia da greve nacional dos petroleiros, trabalhadores da Refinaria de Paulínia (Replan) realizaram nesta quinta-feira (18) um novo ato em defesa das reivindicações da categoria. A mobilização contou com a presença do coordenador-geral da Federação Única dos Petroleiros (FUP), Deyvid Bacelar, e de apoiadores políticos da região.

Segundo Bacelar, a paralisação mantém a mesma intensidade observada em outras unidades do país. Ele afirmou que a greve foi motivada pela postura da gestão da Petrobrás nas negociações com os sindicatos. “Petroleiros e petroleiras estão aderindo a essa greve devido à arbitrariedade da gestão da Petrobrás, que apresentou uma proposta como sendo a última. Nós não aceitaremos que seja a última”, declarou.

O dirigente destacou que a categoria considera contraditório o desempenho financeiro da empresa e a oferta apresentada aos trabalhadores. De acordo com Bacelar, a Petrobrás registrou lucro líquido de R$ 94 bilhões até o terceiro trimestre deste ano, mas não avançou nas demandas centrais da campanha salarial. “É inadmissível que uma empresa com esse resultado diga não às reivindicações dos seus trabalhadores e trabalhadoras”, afirmou.

Foto: Guilherme Weimann

Entre os pontos citados estão a situação do plano de previdência Petros, marcado por sucessivos equacionamentos, a recomposição de direitos retirados em governos anteriores e a política salarial. “Meio por cento de ganho real não é aceitável para quem gerou essa riqueza”, disse o coordenador da FUP, ao defender também que a estatal tenha papel estratégico no desenvolvimento do país.

Bacelar ainda criticou demissões de trabalhadores terceirizados, desimplantações em áreas operacionais e a redução de investimentos no Brasil. Segundo ele, somente até o terceiro trimestre a Petrobras distribuiu R$ 37,3 bilhões em dividendos aos acionistas. “Por tudo isso, a greve continua forte e em busca de uma solução para os três eixos da nossa campanha”, concluiu.

O ato na Replan também teve a participação da vereadora de Campinas Guida Calixto (PT), que manifestou apoio ao movimento grevista. Ela se soma a outros parlamentares da cidade que estiveram presentes na Refinaria de Paulínia em outros dias, como os vereadores do Partido dos Trabalhadores (PT), Wagner Romão e Paolla Miguel; as vereadoras do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), Fernanda Souto e Mariana Conti; além dos integrantes do PCdoB, Carlo Antioli, e da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Carlos Fábio, conhecido como Índio da CUT.

Entre os aposentados presentes, destacou-se Márcio Gonzaga Cardoso, o Marcinho, que carrega nas costas 37 anos de Refinaria de Paulínia (Replan) e a memória viva da histórica greve dos petroleiros de 1995, quando integrava a diretoria do sindicato.

Aposentado desde 2019, Marcinho trouxe ao ato uma lição que atravessa décadas de luta sindical: a importância da independência do movimento em relação ao governo. Para ele, a força do movimento sindical está justamente em não se curvar às pressões políticas, mesmo quando há afinidade com quem ocupa o Palácio do Planalto.

No mesmo dia, a paralisação foi ampliada com a adesão de trabalhadores dos terminais da Transpetro de Osório (RS), São Caetano do Sul e Barueri, em São Paulo, da Unidade de Tratamento de Gás de Cacimbas (UTGC), no Espírito Santo; da Estação de Compressão de Gás Natural de Araucária (TBG), no Paraná; da Estação de Gás Vandemir Ferreira e da Estação de Transferência Parque São Sebastião, na Bahia; além De acordo com a FUP, o movimento grevista envolve trabalhadores de 28 plataformas, 16 unidades da Transpetro, nove refinarias, quatro termelétricas, duas usinas de biodiesel, duas unidades de tratamento de gás, duas estações de compressão da TBG, além da sede da Petrobras em Natal e ativos de produção terrestre na Bahia.

Momento histórico na Transpetro

O ontem, o hoje e o amanhã se reuniram nesta quinta-feira (18) no portão da Transpetro de São Caetano do Sul. Aposentados como Vereníssimo Barsante, Jairzinho e José Santos, que entraram na Petrobrás nos anos 1970, dividiram o piquete com petroleiros da ativa, representantes do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, da APEOESP e do MAB. Ao lado deles, estudantes da UNE, da UEE, da UFABC, militantes do Levante Popular da Juventude e da Faísca Revolucionária, uma geração que ainda não nasceu quando Barsante, Santos e Jairzinho fizeram seu primeiro turno, mas que entende que a luta pelos aposentados de hoje é a garantia de seus próprios direitos amanhã.

Foto: Vitor Peruch

A greve alcançou nesta quinta-feira (19) seu quarto dia com novas adesões expressivas. Os terminais da Transpetro em São Caetano do Sul e Barueri registraram 100% de paralisação, ampliando um movimento que já soma mais de 30 plataformas paradas, nove refinarias e diversos terminais em todo o país, provando que a Petrobrás errou ao apostar que os trabalhadores da ativa abandonariam quem construiu a empresa.

“Ao longo deste ano, em nove meses, são 94 bilhões de lucro que a Petrobrás acumulou. Já são 37 bilhões de dividendos que foram distribuídos em nove meses”, afirmou Pedro Augusto, diretor do Sindipetro Unificado, que complementou: “Esse recado, se havia alguma dúvida da gestão sobre a nossa disposição e capacidade de entrar em movimento no dia 15 de dezembro de 2025, aqui está dado”.

O dirigente sindical criticou ainda o que classifica como falta de reconhecimento aos trabalhadores que produzem a riqueza da estatal: “Se necessário, essa galera vai passar dia e noite, madrugada, feriado, carnaval aqui dentro, trabalhando, passando turno, fazendo escalas de trabalho que a gente sabe quanto é difícil, embarcando em plataformas a centenas de quilômetros”.

Aposentados no centro da disputa

Pedro Augusto também rebateu o que considera uma aposta equivocada da gestão da Petrobrás: “Eles acharam, sabe o que? Que os trabalhadores da ativa não iam comprar essa briga. Eles acharam que os trabalhadores da ativa iam largar os aposentados que construíram essa empresa, que construíram os direitos da categoria, iam deixar a galera na mão?”, questionou. O dirigente sindical enfatizou a solidariedade de classe como valor diferenciador: “Mas Magda, não funciona assim. A classe trabalhadora é diferente. A gente tem solidariedade, a gente tem história de luta, tradição, a gente reconhece os que vieram antes de nós, aqueles que construíram esse projeto que a gente está dando continuidade”.

Jairzinho, Barçante e Santos durante a greve dos petroleiros

A questão dos aposentados emergiu como pauta central da mobilização. Vereníssimo Barsante, diretor do Sindipetro e veterano da categoria, relatou sua decepção com a gestão da presidente da Petrobrás, Magda Chambriard. “Eu tive o prazer de estar na posse da companheira Magda, naquele momento parecia um prazer até, né? Depois virou uma decepção”, disse. “Passou duas semanas, ela falou que sentia incompatibilidade de nos ajudar porque era a parte interessada no assunto”, recordou.

Barsante criticou duramente a postura da executiva: “A companheira Magda, hoje, é uma dama de ferro. Tá preocupada só com o mercado. Não tá nem aí com os seus trabalhadores. Não aprende com amor, aprende com dor”.

José Santos, do Departamento de Aposentados, descreveu as dificuldades enfrentadas pela categoria inativa: “Trabalhei 35 anos nessa empresa, e hoje a gente vê os nossos aposentados numa situação muito difícil. Muitos aposentados aí com planos de saúde, dependendo do SUS, porque não dá mais para o boleto, nossos contracheques não suportam mais”.

Juventude fortalece movimento

A presença marcante de estudantes e jovens militantes foi destacada por diversas lideranças como elemento renovador do movimento sindical. Lívia Ventura, diretora de combate ao racismo da UNE e militante do Levante Popular da Juventude, afirmou: “Os trabalhadores e os estudantes unidos não tem acionista que vai parar o povo brasileiro. Magda, devolve os dividendos.”

Juventude fortalece a luta do movimento grevista

Rafaela Pinheiro, da União Estadual dos Estudantes de São Paulo, declarou apoio estudantil à greve: “Enquanto estudantes da classe trabalhadora, é de suma importância defendermos essas estatais para que caminhemos em direção à soberania do nosso país”.

Allie Terassi, estudante da UFABC e integrante da Juventude Faísca Revolucionária, vinculou a greve a questões internacionais. “É uma luta muito importante para mostrar como é preciso unificar as demandas da juventude com a classe trabalhadora. É preciso batalhar por um ACT digno, pelo fim dos PEDs, contra o ataque aos aposentados e, na verdade, para uma Petrobrás que seja, de fato, 100% estatal, sob controle dos trabalhadores.”

Solidariedade entre categorias

Arthur Macfadem, coordenador estadual do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) em São Paulo, reforçou a parceria histórica com os petroleiros. “Não seria diferente para nós estarmos aqui praticando essa solidariedade de classe. Estamos juntos não só aqui, em São Caetano, mas de norte a sul. Ter 100% de adesão é uma coisa que não é para qualquer um”.

Thiago, diretor do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, também manifestou apoio. “Não adianta a gente ver vários índices melhorando e a classe trabalhadora não ter acesso a isso. Os petroleiros mais uma vez mostram qual é o caminho: é nas ruas que nós apresentamos as nossas reivindicações e é na rua que nós arrancamos as nossas conquistas.”

Avanços inéditos da paralisação

Diretor do Sindipetro Unificado e um dos responsáveis pela mobilização no terminal, Lucas Mazoti classificou o movimento como inédito. “É uma greve histórica. Em poucos dias, mais de 40 plataformas e diversos terminais pararam para dizer basta à intransigência da gestão”, afirmou.

Mazoti destacou ainda conquistas históricas do movimento. “Pela primeira vez na história, conseguimos adesão que nunca antes havia tido do pessoal da TBG. A empresa foi pega de surpresa, achando que não ia ter aderência.”

O dirigente criticou a proposta salarial da Petrobrás. “Oferecer 0,5% depois de 34 bilhões acumulados de dividendos distribuídos, 0,5% de aumento, depois de tanta defasagem do governo Temer e Bolsonaro, é um tapa na cara, é um desrespeito.”

Rodrigo Araújo, também diretor do Sindipetro, contextualizou a greve em um cenário mais amplo de defesa das estatais. “A Petrobrás é uma empresa que deve ter a soberania nacional como o seu principal mote. A gente entende que a Petrobrás tem que servir a população brasileira.”

Coube a Rodrigo Araújo conduzir e mediar o ato que reunia diferentes gerações. Entre uma fala e outra, ele chamava ao microfone representantes de cada movimento, costurando um discurso que ultrapassava as fronteiras da categoria petroleira. “A gente entende que a Petrobrás é uma empresa que deve ter a soberania nacional como o seu principal mote”, afirmou, antes de ampliar o debate para outras estatais ameaçadas. Citou a privatização da Sabesp por Tarcísio de Freitas, o colapso da Enel em São Paulo, a greve dos Correios iniciada nesta mesma semana. “Quem paga essa conta? Quem pega trem e metrô todo dia sabe a diferença da qualidade do que são as linhas privatizadas e as linhas que ainda estão sob controle do metrô e da CPTM”.

Ao longo de quase duas horas de mobilização, Rodrigo alternava análise política e celebração da presença juvenil, reconhecendo que “o Movimento Sindical tem essa característica de envelhecer com o tempo” e que a juventude presente era “essa levantada de moral que a gente está precisando”. Fez questão de destacar Lucas Mazoti, jovem diretor que coordenou a mobilização em São Caetano: “Esse camarada é o grande responsável de fazer essa mobilização histórica num terminal que é muito difícil de fazer”.

Jairzinho, que entrou na Petrobrás em 1976, fez um apelo geracional: “Eu entrei na Petrobrás com a cara dessa meninada aí, e trabalhei aqui por quase 38 anos com muito orgulho. É o trabalhador, é a juventude, os estudantes que irão trabalhar ainda, tem que estar junto nessa luta”.

A paralisação segue sem previsão de encerramento. Segundo o sindicato, novas adesões podem ocorrer nos próximos dias, enquanto a categoria aguarda avanços nas negociações com a direção da Petrobrás e de suas subsidiárias. O movimento grevista promete intensificar as mobilizações nos próximos dias, com expansão para outros terminais e unidades operacionais da estatal.