Governo mente e esconde informações sobre óleo nas praias do Nordeste

 

Quase 60 dias após o surgimento das primeiras manchas de óleo surgirem no litoral nordestino, o governo de Jair Bolsonaro (PSL) continua o jogo de ataques e acusações a ONGS ou a Venezuela, contrainformações e nenhuma ação concreta para investigar o vazamento, conter o óleo antes que ele atinja as praias e garantir que as informações oficiais sejam claras e reais para ajudar a população e os governos locais a enfrentar a tragédia.

Os nordestinos não sabem sequer os reais riscos de saúde que estão correndo ao trabalhar como voluntários para tirar o óleo das praias sem um equipamento adequado, apesar do petróleo cru já ter atingido 92 municípios e 249 praias dos em nove estados da Região. A extensão do impacto já supera 2.000 quilômetros.

“Bolsonaro e seu ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, mentem até para  as entidades federativas e o Ministério Público Federal, acusa o secretário de Meio Ambiente da CUT, Daniel Gaio. Segundo ele, o governo tem escondido informações dos Estados, que tiveram que entrar com uma ação contra a União para ter acesso a dados que os ajudem a montar uma estratégia para enfrentar a tragédia. “Bolsonaro e Salles escondem os verdadeiros culpados pelo vazamento de petróleo. Não tem um agente público do governo federal que esteja atuando efetivamente no socorro imediato aos atingidos pelo óleo,  nem medidas importantes para a redução dos impactos no meio ambiente”.

Isso sem falar sobre o mistério dos “barris da Shell encontrados nas praias ”, critica Gaio, lembrando que a situação piorou porque o governo extinguiu os conselhos, comissões, comitês, juntas e outras entidades criadas por decretos ou por medidas administrativas no primeiro semestre, que poderiam ter combatido o desastre ambiental com maior eficiência e em menor tempo.

O secretário se refere a extinção este ano de comitês e comissões do Plano Nacional de Contingência para Incidentes de Poluição por Óleo em Água. Confira aqui.

Uso do mar por banhistas

As informações sobre o uso da praia também são desencontradas. O ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio (PSL) e o vice- presidente da República, Hamilton Mourão (PRTB), disseram que a população pode entrar no mar, sem qualquer risco à saúde, mas especialistas têm mais cuidado e dizem que é melhor esperar os resultados das pesquisas que estão sendo feitas na Região.

Segundo a professora da Universidade de Pernambuco, Mariana Guenther, a recomendação é de que se evite o banho até que se tenha o resultado das análises das concentrações de hidrocarbonetos na água, que são as principais substâncias presentes nesse óleo e que são extremamente tóxicas.

“Essas análises já estão sendo realizadas por pesquisadores em parceria com a Agência Estadual de Meio Ambiente aqui de Pernambuco e devem estar sendo divulgadas em breve”, disse a professora.

Sobre a origem do óleo, os pesquisadores da Universidade Federal da Bahia (UFBA) analisaram amostras coletadas das praias da Bahia e de Sergipe, e afirmaram que o óleo foi produzido na Venezuela.

Diferente do que diz Salles, isso não significa que o governo venezuelano seja o culpado pelo derramamento, já que o país é um grande exportador do produto e navios de todo o mundo são abastecidos por lá.

“Infelizmente ainda não podemos precisar se ainda haverá mais óleo chegando às praias, pois ainda não sabemos sua fonte. O trabalho de remoção manual do óleo que ainda se encontra nas praias, nos costões rochosos e nos manguezais continua, já que encontramos manchas, inclusive submersas”, Guenther.

População é informada pela imprensa

A equipe do governo só tocou no assunto 41 dias após os primeiros registros de óleo terem sido confirmados pelo Ibama, na Paraíba, no dia 30 de agosto. E a população atingida está refém das informações contraditórias que recebem pela imprensa, acredita o secretário do Meio Ambiente da CUT.

Ele cita como exemplos, reportagem do jornal Valor Econômico, desta segunda-feira (28), em que o comandante de Operações Navais, almirante Leonardo Puntel, um dos responsáveis pelo monitoramento dos vazamentos de óleo no Nordeste, afirmou que diminuiu o volume de registros de óleo nas praias nordestinas.

Já outra reportagem, também nesta segunda, na Folha de São Paulo, a coordenadora de Emergências Ambientais do Instituto Natural do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama),  Fernanda Pirillo, responsável pelas operações de limpeza dos locais atingidos , disse que o desastre ambiental é um caso inédito no mundo e ainda não é possível prever o seu fim.

[Via CUT | Foto: Salve Maracaípe]