Com a defesa de uma transição energética justa, soberana e liderada pela Petrobrás, as diretoras da FUP, Nalva Faleiro e Patrícia de Jesus participam da Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, que acontece entre os dias 09 e 20 de novembro, na Turquia.
Esta é a quarta participação da FUP em uma COP, o que traz um acúmulo de debates que tem sido estratégico para as pautas construídas pela categoria petroleira. Em artigo publicado nesta sexta, a coordenadora-geral da entidade, Cibele Vieira, e a diretora de SMS, Nalva Faleiro, reforçam que “a transição precisa ser construída com os trabalhadores, e não imposta de fora por mercado e organismos internacionais”.
Leia a íntegra do artigo e saiba mais sobre a participação da FUP na COP31:
Por: Cibele Vieira e Nalva Faleiro*
A Federação Única dos Petroleiros (FUP), que reúne 14 sindicatos no país, participa da 31ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP-31), entre 9 e 20 de novembro, em Antália, na Turquia. O país-sede preside a conferência, enquanto a Austrália conduz as negociações formais. É a primeira COP após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e a categoria chega à Turquia com um recado político claro: a transição não pode ser apenas ambiental, tem que ser também social, soberana e popular.
Ao lado de outras organizações sindicais e da Central Única dos Trabalhadores (CUT), a FUP levará pautas da classe trabalhadora para a Zona Azul, onde ocorrem as negociações oficiais. Será a quarta participação da federação em uma COP, depois da COP-27, no Egito, da COP-28, em Dubai, e da COP-30, em Belém.
A COP-31 marca o início do segundo Balanço Global do Acordo de Paris, avaliação formal do quanto os países avançaram para cumprir a meta de limitar o aquecimento a bem menos de 2 ºC e prosseguir esforços para limitar a 1,5 ºC. O debate agora não é mais se o limite será superado, mas como lidar com isso.
No dia 14 de novembro, no Pavilhão Brasil, a FUP integra o painel “Transição Justa: trabalho decente, combate à pobreza e acesso à energia aos povos do Sul Global”. O encontro terá representantes do Ineep, da CSI, da CSA, do Inesc e moderação da CUT Brasil.
O painel é o espaço para afirmar que, no governo Lula, a transição precisa ser construída com os trabalhadores, e não imposta de fora por mercado e organismos internacionais.
A transição energética só será verdadeiramente justa se trouxer melhorias concretas para a vida das pessoas. Isso passa por garantir trabalho decente, por proteger os empregos e os direitos dos trabalhadores, por combater a pobreza energética e assegurar que todos tenham acesso à energia. Os povos do Sul Global não podem continuar arcando com os custos dessa transformação enquanto a tecnologia e os lucros ficam concentrados nas mãos de alguns poucos.
Precisamos de uma transição que respeite a soberania dos povos, que gere oportunidades e que reduza as desigualdades. Afinal, a transição energética não pode ser apenas sobre mudar a forma como nós hoje produzimos energia, mas também precisa ser sobre construir um futuro melhor para as pessoas.
O Brasil tem condições de liderar uma transição energética justa, com soberania, desenvolvimento, participação popular e geração de empregos. A matriz elétrica brasileira já é cerca de 88% renovável, contra média global de 32%. A matriz energética é 49% renovável, bem acima da média mundial de 14,7%. São números que levam o Brasil à vitrine internacional, mas só terão sentido político caso se traduzirem em emprego, renda e acesso à energia para quem mais precisa.
O estudo “Empregos Verdes 2025”, da CUT e do Dieese, mostra o tamanho do problema: milhões de trabalhadores em atividades chamadas de “verdes” seguem expostos à precarização. Cerca de 74% estão na informalidade, quase o dobro da média nacional de 38%, e recebem salários abaixo da média. Um emprego só pode ser considerado verde se cumprir a agenda do trabalho decente. Por isso, as centrais sindicais não aceitam a continuidade de um modelo verde que precariza, e defendem que trabalhadores e comunidades participem da construção da transição.
O debate sobre investir em renováveis ou continuar explorando petróleo, sobretudo na Margem Equatorial, ainda polariza o país. A discussão tem sufocado outra questão fundamental: o futuro da Petrobrás e dos cerca de 2 milhões de trabalhadores do setor de óleo e gás no processo de transição. Com a emergência climática, a Petrobrás precisa ampliar o debate sobre tecnologias das próximas décadas e manter sua liderança também no cenário de transição.
Com a reeleição de Lula, a expectativa da categoria é que a estatal fortaleça sua condição de instrumento de política industrial e de soberania, com a manutenção da diretoria de transição energética e a aposta nos biocombustíveis; e que nunca mais a Petrobrás seja tratada apenas como empresa de dividendos para acionistas.
O caminho mais viável é desenvolver a cadeia de suprimentos dos renováveis, de maquinários a processos e profissionais qualificados, apostando nos segmentos com maior sinergia com o óleo e gás, como etanol, biometano, biodiesel, combustíveis sintéticos e SAF. Isso permitiria começar a transição com mais força pelas moléculas, e não só pela energia elétrica.
É estratégico que o Brasil assuma a liderança dessa nova revolução industrial, com sua expertise e recursos naturais. Para a FUP, a reeleição abre um amplo caminho, no qual o governo Lula tem que usar seu capital político para construir, com os trabalhadores, uma transição soberana e com emprego de qualidade.
Caso contrário, o Brasil vai assistir a mais uma modernização que beneficia poucos e deixa para trás quem construiu a riqueza energética do país.
*Cibele Vieira e coordenadora-geral da FUP. Nalva Faleiro é coordenadora do Coletivo Nacional de Mulheres da FUP e diretora de Segurança, Meio Ambiente e Saúde da FUP.