Adriano Pires, conhecido analista que defende os interesses das empresas internacionais de petróleo no Brasil, termina seu artigo no blog Poder 360 com uma frase de Lulu Santos: 

“Tudo passa, tudo sempre passará”.

Ele parece esquecer as duas frases anteriores desta na bela canção “Como uma onda”: 

Nada do que foi será De novo do jeito que já foi um dia”

Adriano Pires, da mesma forma que vem fazendo desde a década de noventa do século passado, quer continuar defendendo na política petroleira e para o gás tudo do jeito que já foi um dia.

Propõe o aprofundamento da atual politica de desmonte do aparato produtiva do Estado no setor de petróleo e gás, com a manutenção do calendário das rodadas de entrega das áreas, extinção do modelo de partilha, redução da política de conteúdo local, redução de royalties dos campos maduros, aceleração das licenças ambientais, manutenção da venda das refinarias, aumentar impostos sobre os preços dos derivados para arrecadação fiscal, com a redução dos preços nas refinarias.

Mas “nada do que foi feito será de novo do” velho jeito. Manter o calendário das rodadas neste momento vai exigir uma profunda redução de bônus de entrada e aceitação de baixas participações no lucro-óleo, entregando as riquezas futuras para as empresas internacionais a preços extremamente baixos. O mercado internacional está contraindo seus investimentos exploratórios e só “oportunidades excelentes” – para as empresas internacionais – atrairão investimentos neste momento. 

Ao contrário, deveríamos retardar as rodadas, para esperar momentos melhores momentos e eventualmente obter maiores recursos de curto prazo, para compensar a entrega de riquezas de longo prazo.

A proposta de extinção do modelo de partilha só se justifica se a intenção for realmente reduzir a parcela do governo na renda petroleira e aumentar a parcela dos ganhos para as empresas internacionais. Elas estão acostumadas a trabalhar, tanto com contratos de partilha de produção, como com concessões – e até com contratos de serviço -, movendo-se pelas oportunidades de acesso a potenciais reservatórios, em função da economicidade esperada em cada momento.

A partilha de produção não transfere a propriedade do petróleo para o produtor, enquanto na concessão esta transferência é efetivada. A questão essencial é o grau de controle estatal sobre a produção nos dois tipos de contrato: a partilha permite maior controle estatal. Adriano Pires quer menos.

No que se refere à política de conteúdo local, não há dúvidas sobre as dificuldades da engenharia pesada nacional e sua capacidade de fornecer os equipamentos e serviços necessários para o gigantesco desafio de expansão da produção do pré sal brasileiro.

A situação econômica das empresas, preços declinantes e crises de financiamento, além dos efeitos da operação Lava Jato sobre a viabilidade física da existência destas empresas, requerem uma certa adaptação desta política, mas não seu desaparecimento, ainda que gradativo, como sugerido pelo autor.

As vendas dos campos maduros, em terra e no mar, serão ainda mais estimuladas com a redução dos royalties cobrados. Acredito que esta proposta de redução, “inclusive de forma retroativa”, tem mais como objetivo mais facilitar as vendas dos campos maduros da Bacia de Campos, do que do nordeste brasileiro.

Em termos de fluxo de caixa, aqueles com resultados positivos não deveriam sequer estar sendo colocados à venda neste momento. Por outro lado, no Nordeste, os ganhos financeiros deste desinvestimento serão muito pequenos em relação ao enorme impacto negativo sobre as economias regionais.

A aceleração das licenças ambientais, apesar de reivindicado pelas empresas, tem provocado o aumento dos riscos ambientais com consequências imprevisíveis. A melhoria dos seus procedimentos deveria ser a meta e não sua pura e simples aceleração.

Na contramão do mundo, o autor parece estar de pires na mão, querendo manter o programa de venda das refinarias, em uma conjuntura de profunda incerteza sobre a dinâmica futura do mercado, com as empresas com problemas de caixa e com o mercado brasileiro se contraindo.

As vendas serão na bacia das almas e o capital investido será destruído, com sua transferência da propriedade destas refinarias para os compradores a preços muito baixos.

Quanto aos preços dos derivados, a ideia de um colchão regulador dos preços já foi tentada no Brasil, com a CIDE, e talvez a melhor política fosse a manutenção da integração vertical da empresa estatal Petrobras, uma política amortecida de ajuste dos preços internos aos preços internacionais e o acompanhamento cotidiano do comportamento dos preços nas bombas para ajustar a política de preços da companhia.

Por fim, a dissonância de Adriano Pires se apresenta também na sua análise macroeconômica. Para ele, as disputas geopolíticas da Arábia Saudita-Rússia e EUA são meras “desavenças” e a crise mundial vem somente da crise do coronavírus na China.

Esquece os sinais, anteriores à atual pandemia, da tendência de contração da atividade econômica, expansão de uma bolha especulativa devido ao acúmulo dos ganhos financeiros, concentrador dos enormes fluxos econômicos do mundo. Quanto ao Brasil, vale a pena continuar com a canção de Lulu Santos:

Não adianta fugir Nem mentir Pra si mesmo agora Há tanta vida lá fora

A crise brasileira não vem principalmente da crise externa. Ela se agrava pela falta de política econômica adequada do atual governo, numa fé cega na ideologia do mercado, que abandonou as possibilidades de intervenção produtiva das politicas públicas, que desmontou os instrumentos de política social e que, no momento da pandemia, atrasa a implantação dos instrumentos emergenciais aprovados pelo Congresso, com o apoio dos governadores, e a resistência do governo de Bolsonaro. 

Querer fazer mais do mesmo, quando o mundo está em frangalhos, só fará agravar a crise. Isto vale para o mundo, para o Brasil e especialmente para o setor de petróleo e gás.

Jose Sergio Gabrielli de Azevedo é ex-presidente da Petrobras e pesquisador do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis Zé Eduardo Dutra (Ineep).

Foto: Agência Petrobras

Artigo originalmente publicado em https://revistaforum.com.br/noticias/irresponsavel-politica-para-a-covid-19-e-para-o-petroleo-por-sergio-gabrielli/

Publicado em Petróleo

[Por Nicola Pamplona, na Folha de São Paulo]

Enquanto busca soluções para lidar com a pandemia de coronavírus e a queda do preço do petróleo, a Petrobras está propondo a seus acionistas triplicar o teto para pagamento de bônus a sua diretoria. A medida provocará um aumento de 26,6% na projeção de gastos com salários e benefícios dos executivos.

A proposta, que será debatida em assembleia de acionistas agendada para o dia 22 de abril, já contempla mudança feita na política de remuneração variável da companhia adotada em 2019 e criticada por sindicatos, por ampliar a diferença entre a premiação dos executivos e a dos demais trabalhadores.

O documento foi protocolado na sexta-feira (20), no mesmo dia em que a estatal informou que vai recorrer a US$ 8 bilhões (cerca de R$ 40 bilhões) de linhas de crédito para enfrentar a crise, que levou o petróleo a bater na semana passado os níveis mais baixos em 17 anos.

A Petrobras afirmou que a crise do coronavírus poderá causar restrições à saúde de sua força de trabalho, com reflexo na operação de algumas de suas instalações, causando impacto negativo em seus resultados e condição financeira.

Segundo o documento enviado aos acionistas sobre o bônus, a Petrobras propõe desembolsar R$ 43,3 milhões para pagar salários, benefícios, bônus por desempenho e encargos a seus administradores no período entre abril de 2020 e março de 2021. No mesmo período do ano anterior, foram R$ 34,2 milhões.

No texto, o presidente da companhia, Roberto Castello Branco explica os salários não serão reajustados - para eles, a Petrobras reservou R$ 14,1 milhões, uma média de R$ 120 mil (incluindo décimo terceiro) por diretor.

Segundo ele, 91% do aumento do bônus corresponde à provisão para remuneração variável, item que compreende desempenho. A proposta mais que triplica o teto de gastos para o pagamento dos bônus, que passa de R$ 3,3 milhões em 2019 para R$ 12,5 milhões.

Desse total, segundo a empresa, R$ 700 mil referem-se a uma parcela da remuneração variável de 2018, que foi dividida em quatro prestações. Assim, a projeção de prêmios pelo desempenho de 2019 é de R$ 11,8 bilhões, mais do que o dobro dos R$ 5,5 bilhões (considerando as parcelas que ainda restam) de 2018.

Daria uma média de R$ 1,3 milhão por diretor, incluindo os encargos. A Petrobras diz, porém, que o valor que final ainda está sendo apurado. Em nota, informou apenas que as projeções consideram o centro das metas previstas no programa de remuneração —que garante dez salários de bônus ao presidente e aos diretores.

OUTRO LADO

Em nota enviada à Folha, a Petrobras defende que o pagamento dos bônus "refere-se ao cumprimento de metas desafiadoras estabelecidas para o ano de 2019". No ano, a estatal teve lucro recorde de R$ 40 bilhões, impulsionado pela receita obtida com venda de ativos como gasodutos e ações da BR Distribuidora.

O aumento na premiação dos executivos é fruto do Programa de Prêmio por Performance, instituído em 2019 em substituição à antiga PLR (Participação nos Lucros e Resultados). Segundo a estatal, o novo modelo "visa valorizar a meritocracia e trazer flexibilidade para um cenário em que a empresa busca mais eficiência e alinhamento às melhores práticas de gestão".

O sistema foi criticado por sindicatos de petroleiros por ampliar a distância entre os valores pagos ao alto comando da companhia e os empregados de menor remuneração.

No modelo anterior, a empresa distribuía aos empregados entre 4,25% e 7,25% do lucro líquido, dependendo do cumprimento das metas. A distribuição respeitava um piso de R$ 21,9 mil e um teto equivalente a quatro salários. Em 2013, foi aprovado um programa adicional de bônus para os executivos, com teto de oito salários.

No modelo atual, o presidente pode receber até 13 salários, caso as metas seja ultrapassadas. Já empregados sem cargo de liderança estão sujeitos a um teto de 2,6 vezes o rendimento mensal. No centro da meta, enquanto o presidente recebe dez salários, os demais receberiam dois.

[Via Folha de São Paulo]

Publicado em Sistema Petrobrás

Apesar da Petrobras adotar a política de preços internacionais desde o governo Temer, a queda nos preço do barril no mundo dificilmente aliviará os bolsos dos consumidores 

A queda nos preços do barril do petróleo no mundo dificilmente vai favorecer os consumidores brasileiros. Os preços nas bombas dos postos de combustíveis, do diesel, da gasolina e até mesmo o gás de cozinha, devem ficar estáveis.

A análise é do técnico da subseção do Dieese na Federação Única dos Petroleiros (FUP), Cloviomar Cararine. Para ele, após a Petrobras ter iniciado a política de acompanhar os preços internacionais, a estatal ficou mais vulnerável às turbulências do mercado externo, prejudicando a economia do país e fazendo o consumidor pagar pela conta.

“As reduções podem se perder ao longo da cadeia, entre distribuidores, até chegar aos postos de gasolina. A falta de estabilidade dos preços prejudica a fiscalização”, afirma Cloviomar.

O técnico do Dieese diz ainda que para entender como a atual política de preços da Petrobras impede que a redução do preço do barril chegue ao consumidor, é preciso analisar as políticas econômicas dos três últimos governos: Dilma Rousseff (PT), do golpista Michel Temer (MDB-SP) e do ultraliberal Jair Bolsonaro (sem partido).

Antes do golpe que derrubou a ex- presidenta Dilma, em 2016, a direção da Petrobras levava em consideração vários fatores para chegar ao preço: aumento da produção de petróleo no Brasil, o custo dessa produção, o preço de custo na refinaria, a taxa de câmbio, o valor que as importadoras pagavam para trazer derivados, entre outros, o que favorecia o consumidor.

Já Michel Temer mudou a estratégia da Petrobras e passou a reajustar diariamente, para cima ou para baixo, o valor do preço do petróleo de acordo com o mercado internacional. Subiu lá fora, aumentava aqui, se caísse, baixava, o que na grande maioria das vezes fazia o consumidor pagar mais caro.

O atual governo de Jair Bolsonaro misturou as duas políticas. De um lado, já não reajusta diariamente o preço dos combustíveis (a média de reajuste é a cada 15 dias), mas mantém a política de preços atrelada ao mercado internacional. No entanto, em virtude de sua visão privatista deixou de levar em consideração as variáveis que Dilma utilizava para diminuir o valor que o consumidor pagava. Atualmente, a Petrobras já não olha o volume e o custo de produção de petróleo porque a decisão do governo é exportar óleo cru e, assim, os preços continuam em alta.

“Não importa se o custo de produção e refino caíram. O que importa agora é se aproximar do preço internacional sem levar em consideração essas variáveis, até porque interessa ao governo vender as refinarias e privatizar a Petrobras. Por conta disso, os preços dos combustíveis sobem”, conta o técnico do Dieese/FUP.

Ainda segundo Cloviomar, se o governo levasse em consideração a redução dos custos da produção, os preços dos combustíveis poderiam cair. No entanto, a equipe econômica do governo, liderada pelo banqueiro e ministro da Economia, Paulo Guedes, tem uma política de  privatização, de retirada do Estado da economia.

“A retirada do Estado da economia passa pela privatização da Petrobras, que já começou com a BR Distribuidora sendo privatizada e agora existe a tentativa de vender metade do parque de refino, além de permitir a entrada forte de empresas estrangeiras na produção de petróleo no Brasil”, alerta.

Cloviomar afirma ainda que sem o Estado controlar a venda e o refino do petróleo, o consumidor paga um preço maior, porque a decisão do mercado é o lucro e não o abastecimento.

A retirada do Estado do mercado petrolífero aumenta a instabilidade. É como se o Brasil não produzisse petróleo e a população não é beneficiada
- Cloviomar Cararine


Como é composto o preço dos combustíveis

Além das políticas econômicas de cada governo, o preço final da gasolina depende de uma série de fatores.

A constituição do preço começa na refinaria com o preço do barril, soma-se aos impostos federais e estaduais, a participação da indústria agro alcooleira, já que o etanol entra na composição da gasolina, os valores cobrados pelas distribuidoras, que compram na refinaria e levam até o posto, e , por fim, o próprio dono do posto de gasolina que determina o preço final.

 “O problema é que quando a Petrobras aumenta o preço nas refinarias automaticamente sobe o preço na bomba de gasolina. Os postos de combustíveis não fazem a redução de preços, a indústria agro alcooleira aumenta o preço do álcool e do etanol e as distribuidoras aumentam sua margem de lucro. Com isso, quando se reduz o preço na refinaria,nem sempre ele cai na mesma velocidade nos postos”, critica Cloviomar.

Atuação do governo Bolsonaro deixa país mais vulnerável 

Na tentativa de reverter o cenário de instabilidade nas bolsas (a Petrobras responde por 11% do Ibovespa) e no câmbio (dólar) o governo tem queimado as reservas cambiais deixando o país vulnerável. O governo Bolsonaro já queimou US$ 42 bilhões, que agora somam US$ 350 bilhões. Essa não pode ser a única medida adotada pelo governo, alerta a técnica da Subseção Dieese/CUT Nacional, Adriana Marcolino.

“O maior entrave é o baixo crescimento dos últimos anos e a falta de credibilidade internacional do Brasil (nas instituições, no comando do país e na economia). Falta atuação do governo para retomar crescimento com investimento público e utilizando todas as ferramentas disponíveis ao Estado brasileiro”, afirma Adriana.

Entenda a crise do petróleo

Na última sexta-feira (06),  a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) discutia um acordo para a redução da produção em todos os países, devido à baixa produção da economia mundial atingida pelo Coronavírus 19. Rússia e Arábia Saudita não chegaram a um acordo sobre o tamanho das cotas de cada um nesse novo cenário.

 Diante disso, a Arábia Saudita anunciou, na segunda-feira (09), que irá aumentar a produção de barris de petróleo de 9,7 milhões/dia para até 11 milhões/dia (o país tem capacidade para produzir até 12 milhões/dia).

Os sauditas cortaram entre US$ 4 e U$ 6 o preço de seus barris para entrega em abril com destino à Ásia e em 7 dólares os destinados aos Estados Unidos. A  Aramco reduziu o preço do barril da petroleira Arabian Light a um preço sem precedentes de 10,25 dólares, diz o site Bloomberg.

Como resultado da briga entre os dois países, os preços internacionais do petróleo caíram cerca de 25% , o maior tombo em quase 30 anos.

No Brasil, o efeito desta decisão derrubou o valor da Petrobras. Em 24 horas, a estatal brasileira perdeu num só dia, em valor de mercado mais de R$ 91 bilhões, o equivalente a 15 vezes o prejuízo alegado pela Operação Lava Jato.

 

Fonte: CUT

 

Publicado em Petróleo

A diretoria do Sindipetro-NF já está em contato com a gerência da Petrobrás para acompanhar as medidas que estão sendo tomadas sobre o vazamento de óleo registrado na Praia de Imbetiba, em Macaé, nesta quinta-feira (23).

A princípio o vazamento do derivado foi em pequenas proporções e já foi contido.

Uma amostra do material foi colhida para que seja analisada e comparada com amostras colhidas em embarcações, que atuam na área afetada. Mas, neste primeiro momento não foi constatado nenhum vazamento nas embarcações ancoradas no píer.

O Sindipetro-NF irá acompanhar não só a análise como também as ações preventivas e corretivas, que devem ser realizadas. Ressaltando que é necessária uma atuação no local, visando calcular os danos ambientais, que possam ter sido causados, principalmente, devido a presença constante de tartarugas naquela região.

“O Sindicato acompanhará de perto o caso. Afinal, um acidente ambiental é sempre muito perigoso. O que ficamos preocupados, como um todo, é que percebemos ao longo dos anos a precarização das condições de trabalho, da manutenção das plataformas e precisamos ficar sempre atentos para entender se esse vazamento é um produto da precarização de manutenção e evitar que novos casos ocorram”, frisou a diretora Rosângela Buzanelli.

[Via Sindipetro-NF]

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Por Isadora Coutinho e Sérgio Trabali Neto, pesquisadores do INEEP


Há possibilidades de que o setor petróleo melhore as condições socioeconômicas deste país com baixo grau de desenvolvimento no médio prazo. De todo modo, alguns obstáculos e desafios que o país terá de enfrentar nos próximos anos devem ser considerados. Dentre eles, questões relacionadas à instabilidade política e à administração governamental das receitas petrolíferas, à baixa experiência em regulamentação de uma indústria petrolífera ou em negociação com empresas internacionais, além da falta de infraestrutura necessária para sustentar um cenário de boom do petróleo. 

A Guiana tem se destacado como fronteira promissora de exploração e produção de petróleo na América do Sul, em razão das descobertas offshore realizadas em seu território desde 2015. No final de 2019, a descoberta de petróleo no bloco Stabroek no sudeste do campo de Liza, anunciada pela petrolífera ExxonMobil, foi mais um marco desse processo. Essa descoberta acrescenta mais de 6 bilhões de barris equivalentes de óleo aos reservatórios daquele bloco. 

No mesmo mês, no bloco Stabroek no campo de Liza, a primeira produção de petróleo na história do país foi iniciada pelo FPSO Liza Destiny. A plataforma que deve atingir sua capacidade total de 120 mil barris por dia nos próximos meses. Um segundo FPSO está em construção para poder entrar em operação por volta de 2022, com intuito de produzir 220 mil barris/dia. Operadora do bloco, a ExxonMobil (45%) tem como sócias a estadunidense Hess Corp. (30%) e a chinesa CNOOC (25%). 

O presidente da ExxonMobil, Darren Woods, declarou que a Guiana assumiu uma posição estratégica no portfólio de investimentos da empresa. Exemplo disso foi o anúncio da petrolífera de um investimento de US$ 200 bilhões em projetos de óleo e gás pelo mundo nos próximos sete anos. Segundo o relatório financeiro publicado em 2018, as principais áreas de investimento estão localizadas na Guiana, na Bacia do Permiano e no Brasil. 

5 milhões até 2025

Desse modo, a Guiana surge como um dos projetos de desenvolvimento mais importantes da Exxon, sendo fundamental para o objetivo da petrolífera de atingir 5 milhões de barris de produção de óleo equivalente até 2025. De acordo com o vice-presidente de Exploração e Novos Empreendimentos da ExxonMobil, Mike Cousins, há ainda a possibilidade de lançarem novos projetos de desenvolvimento no bloco Stabroek, prevendo atualmente uma produção no local de mais de 750 mil barris por dia até 2025. 

Outras empresas petrolíferas estão interessadas na costa da Guiana. A britânica Tullow Oil, a francesa Total e a canadense Eco Atlantic Oil & Gas também estão envolvidas na exploração de petróleo na Guiana, tendo descoberto em setembro de 2019 um novo poço no bloco Orinduik. Neste, a britânica é operadora e conta com 60% de participação, enquanto a francesa possui 25% e a canadense,15%. Já em janeiro de 2020, a Tullow Oil fez nova descoberta no bloco Kanuku, com 37,5% de participação, mesma porcentagem que a espanhola Repsol, operadora do bloco. A Total também participa com os 25% restantes. 

Alguns estudos geológicos sugerem que a quantidade de reservas ainda pode aumentar nos próximos anos, gerando um clima de muito otimismo em relação à produção petrolífera no país. Com uma população de 780 mil habitantes, a Guiana já possui mais de 3,9 mil barris de petróleo por dia por pessoa, índice superior ao dos Emirados Árabes Unidos, da Noruega e da Arábia Saudita. De acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI), a economia do país deve crescer 86,5% em 2020 em função do setor petrolífero, o qual vai representar cerca de 40% da economia em cinco anos.

Foto: Foto: Andrey Rudakov/Repdrodução Le Monde Diplomatique

Melhorias

Há possibilidades de que o setor petróleo melhore as condições socioeconômicas deste país com baixo grau de desenvolvimento no médio prazo. De todo modo, alguns obstáculos e desafios que o país terá de enfrentar nos próximos anos devem ser considerados. Dentre eles, questões relacionadas à instabilidade política e à administração governamental das receitas petrolíferas, à baixa experiência em regulamentação de uma indústria petrolífera ou em negociação com empresas internacionais, além da falta de infraestrutura necessária para sustentar um cenário de boom do petróleo. 

Chama a atenção o fato de o país não possuir uma empresa petrolífera nacional e nem mesmo refinaria. Sem previsões de que haja mudança nesse quadro, a Guiana se mantém dependente da atuação das companhias multinacionais estrangeiras. A Exxon, por exemplo, conta com um contrato de exploração e produção bastante generoso e favorável à empresa: inicialmente, os termos do contrato assinado em 1999 nem mesmo previam o pagamento de royalties ao Estado guianense. Revisado em 2016, o contrato prevê ao país uma taxa de 2% de royalties e uma retenção de menos de 54% de receitas do setor, o que é menos do que costuma ocorrer em contratos comparáveis. 

Ainda assim, à época, houve resistência da Exxon para mudar os termos do contrato. Já em 2019, o diretor do Departamento de Energia do país, Mark Bynoe, anunciou que a Guiana está planejando aumentar a porcentagem dos royalties de 2% para 5% em contratos futuros. Esses episódios sugerem que o país enfrentará dificuldades para se apropriar da riqueza gerada pelo petróleo. Isso se agrava quando se considera que a Guiana é altamente dependente da atuação de operadoras estrangeiras para explorar as gigantescas reservas descobertas em território nacional. 

Fundo soberano

Nessa mesma linha, é também sugestivo o fato de que, enquanto as grandes empresas estrangeiras avançam rapidamente sobre o território guianense, o país ainda está pensando em como criar um fundo soberano para guiar o direcionamento e investimento das receitas advindas do petróleo. 

Junto à ausência de uma regulação mais favorável à apropriação da renda petrolífera e de uma empresa nacional para explorar as reservas recém descobertas, a inexistente política energética autônoma deve limitar os benefícios econômicos para a sociedade guianense.

Ao observar essa conjuntura, não se pode deixar de salientar que decisões relacionadas às questões regulatórias, institucionais e estratégicas do setor de petróleo no país devem considerar também a dimensão geopolítica. As recentes descobertas e o início da produção de petróleo no país aumentam a relevância estratégica da região, demonstrando a importância do continente sul-americano como fornecedor para os mercados mundiais de petróleo. Reforçando, desse modo, a tese de reposicionamento da América do Sul na indústria petrolífera mundial, atrás da Venezuela e do Brasil em termos de reservas estimadas, a Guiana desponta enquanto nova fronteira de exploração e produção de petróleo, garantindo maior visibilidade mundial à sua costa e, desse modo, o interesse das empresas petrolíferas estrangeiras nas potencialidades ali existentes.

[Via Ineep | Artigo publicado originalmente no jornal Le Monde Diplomatique]

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O jornalista e deputado federal Paulo Pimenta elencou onze razões que não justificam o governo Bolsonaro se posicionar a favor do conflito entre os Estados Unidos e o Irão. Para começar, o Brasil possui relações amistosas com o Irã de longa data e o fluxo de comércio entre os dois países é de US$ 2,1 bilhões. Leia o texto, publicado na Revista Carta Capital

1. O mundo precisa de paz para que a economia global se recupere. O único setor econômico que tem interesse num conflito de grandes proporções é a indústria bélica.

2. Um dos principais motivos – senão o principal motivo – para a escalada beligerante de Donald Trump é fortalecer a sua campanha para evitar o impeachment e, na sequência, conseguir a reeleição. Ou seja, assim como vários de seus antecessores, o magnata das fake news quer se reeleger à custa de milhares de vidas, inclusive de seus compatriotas.

3. Um eventual conflito entre Estados Unidos e Irã tem grande possibilidade de envolver todos os países da Ásia – inclusive China e Rússia – e se transformar numa guerra de escala mundial. Ao contrário da 1ª e da 2ª Guerras, entretanto, as potências militares hoje possuem capacidade para exterminar a vida humana no planeta.

4. Há muitas alternativas à guerra que passam pelo diálogo e por outras medidas, como sanções econômicas. Aliás, as sanções econômicas impostas pela comunidade internacional – por pressão dos Estados Unidos – ao Irã só encontram precedentes na história quando comparadas ao embargo econômico contra Cuba. A guerra é um recurso extremo cujas consequências são impossíveis de estimar.

5. Além das sanções comerciais, o Irã sofre há mais de duas décadas com a ação sistemática de agências de espionagem que perseguem e “eliminam” cientistas iranianos de várias áreas, não apenas daqueles suspostamente relacionados ao programa nuclear do país.

6. Do ponto de vista do Brasil, a guerra pretendida por Donald Trump, definitivamente, não favorece qualquer interesse do país. Muito ao contrário.

7. A postura do governo Bolsonaro de apoiar a operação militar que resultou no assassinato do general Qasem Soleimani foi precipitada e irresponsável, fruto da submissão incondicional aos Estados Unidos que nos envergonha perante o mundo. Nenhum país emitiu uma nota de apoio ao governo Trump tão vassala quanto a do Brasil.

8. Em 2010, através do governo Lula e do governo da Turquia, foi feito um acordo com o Irã para que este país se comprometesse com o uso do urânio para finalidades pacíficas. Outro acordo foi firmado em 2015, desta vez com os Estados Unidos, então presidido por Barack Obama. Em 2018, Trump abandonou o acordo unilateralmente e impôs sanções ao Irã.

9. O sentimento do povo brasileiro é amplamente favorável à promoção da paz e isso é expresso nas tradições da nossa diplomacia, que é historicamente reconhecida no mundo inteiro por privilegiar a construção de consensos multilaterais e não por instigar o conflito, como o atual governo vem fazendo agora, ao jogar gasolina na fogueira acesa por Donald Trump. Ao adotar como sua a posição beligerante dos Estados Unidos, Jair Bolsonaro está traindo o povo brasileiro.

10. O Brasil possui relações amistosas com o Irã de longa data. Atualmente, o fluxo de comércio entre os dois países é de US$ 2,1 bilhões, com a balança favorável ao Brasil em US$ 2 bilhões. Em 2018 o Irã foi o maior mercado para o milho brasileiro e o quinto maior destino da carne bovina e da soja exportadas pelo Brasil.

11. A cooperação entre Brasil e Irã se dá em várias áreas e setores da economia: ciência e tecnologia, agricultura, engenharia, energia (hidroeletricidade e energias renováveis), capacitação industrial, entre outras.

[Via Carta Capital]

Publicado em Política

A nova crise política no Oriente Médio, desencadeada pelo ataque militar dos Estados Unidos contra o Irã, que resultou no assassinato do general Qassem Soleimani, fez disparar o valor do barril do petróleo.  No Brasil, as consequências para o consumidor tendem a ser imediatas, pois os preços dos derivados produzidos pela Petrobrás são vinculados ao mercado internacional e, consequentemente, ao dólar.

Essa política de preços foi implementada em outubro de 2016, no rastro do golpe contra a presidenta Dilma Rousseff. Na época, a FUP denunciou que quem pagaria a conta seria o povo brasileiro e que o país estaria refém das crises internacionais de petróleo.

Dito e feito. Desde então, o consumidor vem amargando aumentos abusivos, não só da gasolina e do diesel, como também do botijão de gás.

As gestões entreguistas da Petrobrás alteraram não só a forma de reajuste dos preços dos derivados de petróleo nas refinarias, como colocaram à venda as próprias refinarias e as distribuidoras de combustíveis, deixando a população completamente refém do mercado.

A atual crise no Oriente Médio coloca em xeque a estratégia da gestão Castello Branco, que prioriza a exportação de petróleo cru, enquanto retira a Petrobrás de setores estratégicos, como o refino e o mercado de distribuição de derivados. Com a escalada dos preços do petróleo, os analistas estimam que o barril supere os US$ 70 em breve.

“Em um Brasil que importa 17% do consumo interno, bem mais que os 5% de 2009, vai haver pressão para repasse nos preços”, alerta o economista Rodrigo Leão, coordenador técnico do Ineep - Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis Zé Eduardo Dutra.

Com a Petrobrás fracionada e a participação cada vez menor do Estado em suas decisões, o governo não terá como criar mecanismos efetivos de proteção para impedir que o consumidor brasileiro seja ainda mais penalizado pela disparada dos preços do petróleo no mercado internacional.

“Da forma como está, se a OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) resolver fechar as torneiras amanhã, os consumidores brasileiros vão pagar o preço e não saberão disso”, já alertava o coordenador da FUP, José Maria Rangel, em 2017.  

O alinhamento dos gestores da Petrobrás aos ditames do mercado, sem olhar para as necessidades internas do Brasil, só beneficia os acionistas privados e as empresas concorrentes. Enquanto isso, o futuro da Petrobrás, a soberania do país e o projeto nacional de desenvolvimento estão sendo gravemente comprometidos. Quem paga o preço é o povo brasileiro, que está novamente vulnerável às crises internacionais do petróleo.

[FUP]

Publicado em Petróleo

Por José Luis Fiori e Rodrigo Leão, pesquisadores do INEEP

 


Sem dúvida alguma, esta foi a demonstração mais ostensiva, explícita e festejada ambição americana de exercício de um poder militar global, ou simplesmente da afirmação unilateral de que o poder e os interesses americanos são superiores a qualquer convenção ou qualquer tipo de acordo ou instituição multilateral construída no último século de supremacia americana


 O reconhecimento do presidente Donald Trump e a comemoração de algumas autoridades dos Estados Unidos transformam o “ataque americano ao aeroporto de Bagdá”, numa operação direcionada e bem sucedida de eliminação de um general iraniano de alta patente, em território iraquiano, por cima de toda e qualquer ideia de direito internacional, ou de respeito pela “soberania” das nações, ou  pelos “direito universal”’ dos indivíduos. Deste ponto de vista, a ação americana só pode ter sido uma de duas coisas: um assassinato internacional, premeditado e por cima da lei, ou então foi um “ato de guerra”, ou mais precisamente, uma “declaração de guerra” feita sem o consentimento do Congresso americano.

Sem dúvida alguma, esta foi a demonstração mais ostensiva, explícita e festejada ambição americana de exercício de um poder militar global, ou simplesmente da afirmação unilateral de que o poder e os interesses americanos são superiores a qualquer convenção ou qualquer tipo de acordo ou instituição multilateral construída no último século de supremacia americana.

Este episódio deve ser entendido com parte da estratégia dos Estados Unidos de estabelecimento de um novo direito “internacional” baseado unicamente no seu poder global, que tem como consequência o acirramento das tensões geopolíticas entre as grandes potências do sistema mundial. Isto não é inteiramente novo, nem original, em particular durante a Administração Trump que tem dado abundantes demonstrações de que só existe uma bússola na política externa americana: o interesse e arbítrio dos Estados Unidos.

Mesmo assim, não há a menor dúvida que este foi o ato mais ousado e arrogante de afirmação do direito americano de intervir, julgar e punir a quem queira e onde queira. Tendo em vista que o general Qassim Suleimani era talvez a segunda pessoa mais importante da hierarquia de poder do estado iraniano e o Comandante da Guarda Revolucionária Islamica, é inevitável concluir que se trata de um “ato de guerra” realizado pelo governo americano.

A ação americana deve ser associada à escalada que começou no mês de julho de 2019 com a “crise dos petroleiros” e se seguiu com mais quatro episódios: (i) o ataque dos rebeldes houthis às refinarias sauditas em setembro de 2019, (ii) a morte de um técnico americano em uma base militar no território iraquiano em dezembro de 2019 (iii) o cerco da Embaixada Americana em Bagdá no mesmo mês e (iv) os exercícios navais realizados pela China, Rússia e Irã, no Golfo de Oman, realizados exatamente entre os dias 27 até 31 de dezembro. Este último foi entendido como um desafio incontestável ao poder naval americano no Oriente Médio, e de forma ainda mais ampla, da Organização de Shangai ao poder estendido da OTAN.

E, agora, após o assassinato do general iraniano, o mundo está chegando mais perto de um enfrentamento direto entre dois Estados Nacionais, envolvendo inevitavelmente, seus aliados nas duas direções, mas é pouco provável que este assassinato internacional tenha as mesmas consequências do assassinato de Sarajevo que deu início à Primeira Guerra Mundial. Apesar da gravidade do episódio, o distanciamento de poder entre os dois Estados envolvidos e o improvável envolvimento dos seus aliados num confronto militar não sinalizam um acontecimento, pelo menos agora, de uma guerra mais abrangente ou frontal. Entretanto, sinalizam com certeza que o Oriente Médio, seu petróleo e seus recortes étnicos e religiosos, que foram utilizados e transformados um dia pelas potências coloniais europeias num espaço dividido e conflagrado por guerras quase contínuas, deverá seguir seu caminho trágico como uma espécie de “buraco negro” do sistema mundial, onde as grandes potências se utilizam do terrorismo como instrumento de sua própria dominação regional.

Neste contexto é quase impossível que não haja uma resposta iraniana ao “ato de guerra” norte-americano. Mas, esta resposta deverá ser dada, muito provavelmente, em vários momentos diferentes, em vários lugares diferentes, e com diferentes níveis de destrutividade. E, como sempre, irá envolver a disputa em torno do fornecimento e do preço do petróleo.

O simples assassinato já teve um impacto sobre os preços do petróleo, chegando a provocar uma elevação média de 4%. Este aumento deverá se manter e talvez até escalar se os grandes atores do sistema  perceberem que a escalada regional deve seguir e a ameaça de guerra deve permanecer no ar. Ou seja, um possível crescimento da incerteza em torno da forma e da intensidade da resposta iraniana e, principalmente, dos seus principais aliados – incluindo os grandes produtores e consumidores de petróleo, como os russos – pode resultar numa maior volatilidade com possível elevação dos preços no médio prazo.

É importante lembrar que, além de grande produtor, o Irã é um dos países que controla o Estreito de Ormuz a passagem que liga o Golfo Pérsico ao oceano, onde é escoado cerca de um quinto da produção petrolífera global. Um eventual bloqueio do transporte pode ter efeitos gigantescos em termos de fornecimento e preços no curto prazo.

A despeito dessas possiblidades, a história mostra que episódios dessa magnitude têm repercussões significativas sobre o preço do petróleo e são capazes de mudar o equilíbrio de poder entre os grandes produtores, consumidores e empresas petrolíferas. Dessa vez, não deverá ser diferente.

[Via Ineep, artigo publicado originalmente na Revsta Forum]

Publicado em Petróleo
Atualmente existem basicamente três modelos de contrato adotados internacionalmente na exploração de petróleo, são eles a concessão, a partilha e o regime misto. Eles diferem entre si principalmente no nível de intervenção estatal e pela repartição da renda petrolífera. Em termos gerais, os países da OCDE preferem adotar o regime de concessão, enquanto os países do Oriente Médio optam pelo regime de partilha. O volume de reservas, o consumo de cada país, e a estrutura produtiva influenciam na escolha de um ou outro contrato.

O modelo de exploração estadunidense, por exemplo, é estruturado por contratos de concessão, numa lógica de intervenção estatal mínima. O governo realiza leilões para as áreas de exploração e as empresas concorrem entre si, pagando impostos ou royalties sobre as receitas advindas da atividade petrolífera. E esses valores não são baixos. No período entre 2009 até 2014, o governo auferiu 67% da receita líquida de todo setor petrolífero. Como a maior parte das empresas que opera nos EUA já são nacionais, o regime de exploração não tem tanto impacto na retenção de emprego e renda no país. Mas, de forma geral, o emprego e a renda petrolífera ficam retidos nas mãos das empresas produtoras, uma vez que a participação governamental é relativamente pequena.

Outro modelo muito semelhante é o canadense. O Canadá tem a terceira maior reserva do planeta, com 9,7% das reservas mundiais, ficando atrás somente da Venezuela e da Arábia Saudita. Ali, o modelo de exploração adotado também é o de concessão, e o governo fica com cerca de 61% da renda petrolífera. Atualmente, os maiores proprietários dos campos são operadoras privadas canadenses e companhias internacionais. 

Apesar da pouca relevância no que diz respeito à quantidade de reservas disponíveis, a Noruega é considerada por especialistas um dos países que melhor soube aproveitar os recursos gerados pela exploração de petróleo. Embora o modelo adotado também seja o de concessão, a Noruega adotou regras que deram às empresas nacionais um protagonismo na exploração dos campos de petróleo, bem como assegurou para o país um volume significativo da renda gerada pelas atividades petrolíferas. 

Para isso, o governo norueguês criou a estatal Petoro, que, apesar de não operar campos de petróleo, é responsável por gerenciar as licenças de exploração e produção da plataforma continental, área que o governo reivindica como proprietário. A empresa também decide se ficará de fora ou se participará destas áreas. As tributações impostas pelo governo permitem que a Noruega receba de volta 78% de toda renda petrolífera gerada. Assim, o modelo norueguês é estruturado pela concorrência entre as empresas do setor, mas o Estado age como um agente regulador, por meio das suas empresas públicas.

No caso da Rússia, terceiro maior produtor de petróleo do mundo, o modelo de exploração pode ser de concessão ou de partilha. Apesar da existência dos dois modelos, a partilha é bem menos utilizada. Em 2018, havia apenas três campos petrolíferos com base nos acordos de partilha de produção: o de Xarjaginkoe, o de Sakhalin-1 e o de Sakhalin-2, o que representa menos de 1% do total da exploração de hidrocarbonetos do país.  

O governo russo retém 66% da receita petrolífera. Além disso, existem restrições na participação de empresas estrangeiras nas atividades de exploração e produção, bem como na participação de investidores russos privados nos campos considerados estratégicos e nas áreas da plataforma continental, promovendo o fortalecimento das suas estatais. As parcelas do subsolo mais ricas em reservas podem ser exploradas apenas por empresas estatais com experiência de, no mínimo, cinco anos. Assim, para estas áreas, são aptas apenas duas empresas: a Gazprom e a Rosneft.  

Já no caso da Nigéria, o regime adotado é o de partilha de produção. A exploração é feita pelo consórcio entre a Nigerian National Petroleum Company (NNPC) com empresas internacionais. Os royalties pagos ao governo variam entre 8% e 20%, dependendo da localização e da profundidade do poço. Após todos os descontos do custo de produção e dos investimentos, a produção remanescente, isto é, o “óleo lucro”, é dividido entre o consórcio e o governo. A parcela da união transita de 20% até 60%, que vai depender da capacidade de produção do poço. No fim, o governo nigeriano fica em média com 60% da renda petrolífera. 

Por fim, no que tange à Arábia Saudita, o país detém o monopólio de todas as atividades das cadeias produtivas, e as empresas estrangeiras só podem atuar como prestadoras de serviços para a Saudi Aramco, a estatal saudita. Desde a sua nacionalização, em 1980, nenhuma licença de exploração de petróleo foi concedida para empresas estrangeiras em território saudita. A atuação das empresas estrangeiras se limita a raros contratos de prestação de serviços para atender uma demanda específica, normalmente relacionada à compra de equipamentos ou de alguma implementação tecnológica. Nesse caso, o governo árabe se apropria 100% da renda petrolífera gerada no país.

Os seis casos de países aqui analisados possuem em comum a abundância de reservas petrolíferas em seus territórios. No fim das contas os modelos de exploração e a estrutura dos seus mercados petrolíferos serão definidos pela decisão do Estado em intervir ou não, podendo ser como no caso estadunidense, em que a participação estatal é reduzida, ou até um regime monopolista como o da Arábia Saudita. Além disso, é preciso levar em conta que existem forças externas neste processo, que atuam de forma mais ou menos furtiva para atender seus interesses. O resultado entre essa tensão é que vai definir os regimes jurídicos-regulatórios adotados na exploração de petróleo em cada país.   

ineep.org.br

Fontes:

Geral:
https://web.bndes.gov.br/bib/jspui/handle/1408/7681
https://www.cartacapital.com.br/economia/pre-sal-file-a-preco-de-acem-e-o-brasil-na-contramao-do-mundo/

Caso estadunidense e canadense:

https://www.bbc.com/portuguese/geral-49743153
http://www.ilumina.org.br/modelos-de-organizacao-do-setor-de-petroleo-artigo/
http://g1.globo.com/economia/noticia/2016/10/como-o-estado-participa-na-exploracao-de-petroleo-em-outros-paises.html

Caso norueguês:

https://www.bbc.com/portuguese/geral-49743153ml
https://www.bbc.com/portuguese/geral-49299120
https://www.ineep.org.br/post/a-renda-fiscal-do-petr%C3%B3leo-a-noruega-%C3%A9-uma-inspira%C3%A7%C3%A3o-para-o-brasil

Caso russo:

REGIMES JURIDICOS DE PETRÓELO NA FEDERAÇÃO RUSSA, 2018, publicado na revista brasileira de do direito do petróleo gás e energia.

Caso nigeriano:

http://objdig.ufrj.br/60/teses/coppe_m/RodrigoDambrosLucchesi.pdf

Caso saudita:
http://www.repositorio.jesuita.org.br/bitstream/handle/UNISINOS/4021/LuisMachado.pdf?sequence=2&isAllowed=y

 

 

Publicado em Petróleo

Por Rodrigo Leão, Coordenador-técnico do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (INEEP)

Nos dias 6 e 7 de novembro foram realizadas duas rodadas de licitação de áreas do pré-sal. Ao todo, foram ofertadas nove áreas, e somente três foram arrematadas – todas com grande participação da Petrobras. 

A empresa brasileira participou dos consórcios vencedores, sendo operadoras em todos eles. Na área de Búzios, no leilão do excedente da cessão onerosa, a Petrobras se associou às chinesas CNOOC e CNODC, e, na região de Aram, na sexta rodada da partilha, somente à CNODC. Na área de Itapu, também da Cessão Onerosa, a Petrobras garantiu, sozinha, o direito de exploração. 

Embora envolvesse um volume gigantesco de recursos e tenha garantido um horizonte exploratório relativamente longo para a Petrobras, o resultado gerou grande frustração nos analistas do setor. 

Logo após o encerramento dos leilões, o governo levantou a hipótese de que tal frustração estaria relacionada ao modelo de exploração de partilha e à preferência dada à petrolífera brasileira para decidir a sua condição de operadora ou não. 

Ora, dentre as nove áreas ofertadas, quatro estavam abertas para receber propostas de outras operadoras sem a participação da Petrobras (Atapu, Sépia, Bumerangue e Cruzeiro do Sul). Portanto, se o problema estivesse associado a este aspecto, seria esperado que, nesses casos, as demais empresas formariam consórcios visando arrematá-las – o que não aconteceu. 

Outro argumento utilizado seriam os elevados dispêndios com que as empresas vencedoras são obrigadas a arcar no regime de partilha. No entanto, o volume de óleo-lucro mínimo solicitado era relativamente baixo. Os valores mais elevados de gastos estavam associados à indenização exploratória que deveria ser paga à Petrobras – algo específico do leilão do excedente da Cessão Onerosa – e ao bônus de assinatura – que está presente em todos os leilões de petróleo, seja de concessão ou de partilha.

Recentemente, ao analisar a estratégia da petrolífera britânica BP, para o setor de energia, lembrei que há um crescente nível de incerteza das majors em relação aos investimentos de longo prazo no segmento de exploração e produção (E&P) de petróleo, em função da volatilidade de preços e das mudanças de estrutura e financiamento do setor de energia. O próprio Diretor de Finanças da BP, Brian Gilvary, afirmou que, desde a forte desvalorização do petróleo em 2014 as empresas, como a BP, têm priorizado projetos mais baratos e mais rápidos. 

Uma estimativa realizada pelo Financial Times, em 2016, já sinalizava a perda de fôlego das majors nos investimentos em E&P. De um pico de mais de US$ 100 bilhões em 2013, as estimativas na época eram que, em 2020, os investimentos caíssem para um patamar inferior a US$ 50 bilhões. 

Além do menor apetite, várias dessas empresas estão comprometidas com grandes investimentos exploratórios em novas fronteiras. A Exxon, por exemplo, anunciou que deve realizar, nos próximos cinco anos, um investimento médio anual, de US$ 4 bilhões na região offshore da Guiana e na Bacia do Permiano. A BP também sinalizou uma ampliação dos seus investimentos nas áreas offshore da Angola. Mesmo as grandes petrolíferas chinesas têm aumentado os investimentos no Mar da China, seguindo sua estratégia de diversificação e menor dependência de recursos energéticos do exterior. A CNOOC, por exemplo, anunciou investimento de US$ 2,3 bilhões por ano, até 2025, para explorar as recentes descobertas de gás no Mar da China. 

Esta é uma lição importante: as majors e as maiores estatais de petróleo veem o pré-sal como uma das fronteiras exploratórias mais relevantes, todavia ela é parte de uma carteira ampla e globalizada de investimentos em E&P. E o crescimento dessa carteira depende muito menos das condições ofertadas pelos leilões no Brasil que do ritmo de investimento global dessas empresas e da sua disciplina de capital, que é cada vez mais determinada pela visão de curto prazo do mercado financeiro. 

Isso significa que essas empresas serão cada vez mais cautelosas para ingressar nos leilões do Brasil, na medida em que suas carteiras de investimentos estiverem repletas de ativos a serem explorados, inclusive no Brasil. Deve-se lembrar que, com a aceleração dos leilões dos últimos anos (foram nove rodadas de licitações entre 2015 e 2019 e “somente” treze entre 1999 e 2013), diversas majors e as estatais chinesas aumentaram significativamente o volume de recursos a serem explorados no Brasil. 

O próprio diretor-geral da ANP, Décio Oddone, segundo reportagem da Folha de São Paulo, reconheceu, após o leilão da cessão onerosa, que “as petroleiras estão com a carteira cheia de projetos do pré-sal e devem focar agora na exploração e desenvolvimento das reservas”. 

Segundo estimativas do Instituto Nacional de Estudos Estratégicos de Petróleo (Ineep), com as aquisições realizadas nos últimos anos, a Exxon assegurou áreas com um potencial estimado de reservas provadas de 11 bilhões de barris; a CNOOC e a Total, de 6 bilhões de barris; e a BP, de 4 bilhões. Todas esses ativos demandarão grandes investimentos para empresas que tem atuação em fronteiras exploratórias espalhadas pelo mundo. 

Essa postura das majors, associada ao extremo conservadorismo da Petrobras – cuja agressividade nos leilões recentes se limitou ao excedente da cessão onerosa – tem uma espécie de “efeito-manada” para as operadoras menores. Com menos capacidade financeira e maior seletividade de projetos, tais empresas se tornam extremamente refratárias a participarem de leilões em que a Petrobras e as majors não demonstram grande apetite. 

Isso tudo deixa claro que o problema não está no modelo de exploração, mas na aceleração dos leilões e na redução do apetite da Petrobras. Por isso, torna-se fundamental entender os movimentos estratégicos de médio prazo da majors para o E&P e (re)avaliar a demasiada austeridade da petrolífera brasileira. 

O cronograma dos próximos leilões deveria se concentrar nessas questões e não nas necessidades fiscais de curto prazo no governo brasileiro ou numa espécie de “fé-cega” da concorrência perfeita. Caso contrário, as chances de novas frustrações serão imensas.

[Artigo publicado originalmente na Revista Brasil Energia]

 

Publicado em Petróleo
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A Federação Única dos Petroleiros (FUP) foi criada em 1994, fruto da evolução histórica do movimento sindical petroleiro no Brasil, desde a criação da Petrobrás, em 1953. É uma entidade autônoma, independente do Estado, dos patrões e dos partidos políticos e com forte inserção em suas bases.

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