Por Norian Segatto, do Sindipetro Unificado SP

Carlos Minc (PSB-RJ), atualmente deputado estadual no Rio de Janeiro, tem toda sua trajetória política ligada a questões ambientais. Foi preso em 1969 por participar da organização clandestina VAR-Palmares (a mesma da presidente deposta Dilma Rousseff), solto em 1970, juntamente com outros 40 guerrilheiros em troca do embaixador da então Alemanha Ocidental, Ehrenfried von Holleben, se exilou do país e voltou com a anistia. Foi fundador do Partido Verde e tornou-se ministro do Meio Ambiente em 2008, na gestão do ex-presidente Lula.

Um dos marcos de sua gestão foi a elaboração de um atlas que deu origem ao decreto 8127, de outubro de 2013, que criou o Plano Nacional de Contingência para Incidentes de Poluição por Óleo em Águas. Nesta conversa por telefone com o jornalista Norian Segatto, Minc afirma que o governo foi omisso no combate aos vazamentos de óleo que atingem o litoral nordestino. Leia as principais declarações do deputado e confira a íntegra da conversa no site do Sindicato. 

O que o governo poderia ter feito para evitar ou contornar os problemas do vazamento de óleo no litoral nordestino?

Carlos Minc – em 2008, 2009, eu era ministro de meio ambiente, nós preparamos junto com a Marinha e 11 universidades federais, com recursos da Petrobrás, oito volumes, fizemos um mapeamento de todas as bacias, do impacto e da sensibilidade do litoral ao óleo derramado. Cada um desses volumes tinha fotos, mapas, direção dos ventos e das marés, áreas de tartarugas, manguezal, rota de golfinhos, baleias etc. Posteriormente, em 2013, foi elaborado um decreto [8127] estabelecendo o plano de contingência face ao óleo; ali tem instruções claras e precisas de como o governo deveria proceder, e está lá no plano de contingência: no dia seguinte [a um acidente, o governo deve], convocar a Marinha e a Aeronáutica, os cientistas, as defesas civis estaduais, usar aqueles atlas para ver as áreas e fazer barreiras com bóias especiais para evitar que o óleo atinja as áreas mais sensíveis, mobilizar os bombeiros e serviços específicos para cuidar de animais afetados pelo óleo, zonas de exclusão de pesca, quando necessário, com informações para os pescadores, para os banhistas, etc.

O ministro [Ricardo Salles, do Meio Ambiente] chegou numa praia do Nordeste um mês depois do acidente e disse que era necessário tomar medidas urgentes, mas como, um mês depois? No dia seguinte o governo tinha que pegar todas as fotos importantes dos satélites do INPE e requisitar fotos de satélites da Nasa [agência espacial estadunidense], pegar com a Marinha todas as rotas, o plano de trânsito de navios nas áreas e descobrir de onde veio isso e, sobretudo, tomar medidas; o governo começou a fazer algo um mês depois e recentemente o óleo atingiu as áreas do peixe-boi, na Paraíba, que está completamente identificada e listada nos atlas que nós apresentamos em 2008, 2009, e não foram colocadas as bóias, o óleo entrou nessa área supersensível, como entrou em outras como parques marinhos, recifes com corais que tampouco foram protegidos.

Por que o governo deixou de fazer o que devia mesmo tendo recursos e a lei em mãos?

Minc – Eu contei 11 artigos ou incisos do decreto de 2013 que foram descumpridos, isso cabe uma ação de improbidade, agora, por que houve essa situação, entre outras coisas? O governo Bolsonaro quis acabar com o Ministério do Meio Ambiente, houve pressão, ele não conseguiu, mas colocou um ministro que é contra o meio ambiente, que não acha o desmatamento grave, que não gosta dos índios, como o Bolsonaro, que não acredita em mudanças climáticas, e não acredita na ciência, então quais foram as medidas, o ministro Salles esvaziou o Ibama, o ICMbio [Insituto Chico Mendes de Biodiversidade], para ter uma ideia, a direção do ICMbio tinha oceanógrafos, biólogos, todos foram exonerados e ele colocou quatro oficiais PM de São Paulo na direção do Instituto, nenhum é biólogo ou oceanógrafo. Aliás, se brincava dizendo que virou o IPMbio. Com o Ibama foi a mesma coisa, demitiu funcionários, desqualificou o INPE, demitiu um diretor porque disse que o desmatamento estava aumentando, tirou de Fernando de Noronha o biólogo José Martins, do ICMbio,  que estava há 25 anos à frente do projeto do golfinho rotador, ele é o maior especialista de golfinhos no Brasil, uma das pessoas que deveria ter sido chamada no dia seguinte para discutir prevenção. Mas, como vingança por ele ter sido contra o aumento dos transatlânticos em áreas de golfinhos, foi jogado no sertão pernambucano, onde não há um único golfinho, ele é o maior especialista de golfinho no Brasil, com oito livros, internacionalmente reconhecido.

Por que não chamou os cientistas? Por que ele cortou o diálogo com os cientistas? Ele tirou os cientistas do Ibama, do INPE, do projeto golfinho rotador, desqualificou as universidades, então, obviamente não chamou porque cortou os vínculos, não os achava sérios, não acredita na ciência, uma situação de uma gravidade imensa, e correu para apontar um inimigo externo e muito conveniente, a Venezuela. Ocorre que mesmo que o óleo seja venezuelano, provavelmente não foi navio venezuelano que transportou porque, até por medo de ser arrestados pelos Estados Unidos, a Venezuela tem transportado esse óleo em navios de seus compradores, sobretudo russos e indianos, então atrás de um inimigo externo conveniente, deu uma de inspetor Clouseau [personagem desastrado de A pantera cor de rosa], não fez o que deveria fazer, descumpriu obrigações, não falou com os cientistas, correu atrás e de maneira precipitada e irresponsável, então é uma tristeza o que a gente está vendo, como ele em tão poucos meses destruíram tantas coisas que a gente construiu como o Fundo Amazônia.

Eu acrescento mais uma, que é a questão dos lotes que foram oferecidos pelo Ministério e pela ANP em volta de Abrolhos. Na nossa gestão, em 2008, criamos um santuário de golfinhos e das baleias do Atlântico Sul, proibimos a exploração de óleo e gás no entorno de Abrolhos e até mudamos rotas comerciais para não coincidir com as rotas migratórias de golfinhos e baleias. Passado um tempo, a baleia jubarte saiu da lista das espécies ameaçadas de extinção. E o que faz o Salles agora, contrariando os pareceres técnicos do Ibama e do ICMbio, ele colocou esses lotes em leilão, mas houve tanta pressão dos ambientalistas, dos próprios técnicos da Petrobrás, do MP, que as empresas que participaram do leilão não arremataram esses lotes, o que seria uma tragédia para o biodiversidade marinha. Ele não respeita a área técnica, ambiental, científica e, ao meu modo de ver está incorrendo em crimes de improbidades por não fazer o que a lei determina. 

Mesmo assim, a ANP colocou essas áreas que não foram arrematadas como ofertas permanentes.

Minc – Logo em seguida teve esse acidente de óleo que em extensão é o pior acidente que já houve. Isso obviamente assustou e vai continuar assustando os investidores, pois sabem que mesmo o governo colocando em oferta, será objeto de judicialização, e não querem arriscar, ainda mais tendo a repercussão dessa questão do óleo. Em suma, é muito triste desmontarem tanta coisa relevante.

Há pouco tempo oito ex-ministros estivemos no Congresso Nacional e entregamos documentos aos presidentes da Câmara e do Senado, pedindo que não tramitassem matérias que pusessem em risco a Amazônia sem ouvir os cientistas; a SBPC [Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência] assinou o documento conosco, assim como a OAB; o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, se comprometeu a não colocar em votação os projetos que abrem as terras indígenas para exploração, como outros que acabam com a reserva legal. O governo brasileiro despreza os cientistas, mas o Congresso quer ouvi-los, então isso para nós foi uma coisa importante. Vamos continuar trabalhando, denunciando para impedir que ameacem nosso patrimônio e destruam os instrumentos e as instituições que levaram tanto tempo para serem criadas, reforçadas e reconhecidas. 

Deputado, uma última questão: ainda há muitas dúvidas sobre a origem desse óleo, dá para especular quais seriam as causas? Em 2018, a agência Reuters publicou uma matéria sobre a acidentes com navios que não foram reportados às autoridades brasileiras, havendo, assim, uma fragilidade de fiscalização.

Minc – Sobre esse ponto realmente eu sei o que tem sido publicado, tem um estudo recente de cientistas que fizeram uma simulação que mostra uma área a 600 quilômetros do litoral, pode ser um navio pirata, pode ser um choque não comunicado, na verdade o que é certo é que o governo não agiu como deveria, agiu muito tarde, desprezou um trabalho que foi feito e descumpriu 11 artigos que criou o plano nacional de contingenciamento. Quanto à origem, está sendo investigada, mas é muito mais difícil com uma investigação um mês e meio depois dos fatos. Independente da investigação, vemos que o óleo continua chegando em regiões protegidas que já tinham sido elencadas, mapeadas e consideradas prioritárias.

[Via Sindipetro Unificado SP]

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Na última quarta-feira (16) aconteceu um acidente na Estação de Marapé que gerou o derramamento de óleo no Campo de Dom João Terra, localizado na cidade de São Francisco do Conde, provocando grande impacto ambiental na localidade.

A Petrobrás mobilizou suas equipes de contingência, mas o acidente só comprova a política de precarização das condições de trabalho da atual gestão da Petrobrás, que reduz efetivo, terceiriza indistintamente atividades e que não prioriza treinamento. Situações essas que vêm sendo denunciadas com frequência pela direção do Sindipetro Bahia.

Esperamos que a gerência da UO-BA não eleja os trabalhadores como bodes expiatórios desse acidente, mas mude suas práticas de gestão dos contratos das empresas contratadas e valorize o trabalhador, responsável direto pelo lucro e bom desempenho de qualquer empresa.

[Via Sindipetro Bahia]

Publicado em SINDIPETRO-BA

A Petrobras coletou mais de 200 toneladas de resíduos oleosos, ainda de origem misteriosa, que vêm atingindo praias do Nordeste desde o início de setembro, informou a companhia nesta quarta-feira.

A petroleira estatal mobilizou cerca de 1.700 agentes ambientais para limpeza das áreas impactadas na região e mais de 50 empregados para planejamento e execução da resposta às manchas, disse a empresa.

Segundo reportagem da Reuters, a Petrobras acionou cinco Centros de Defesa Ambiental (CDA) —instalações da empresa distribuídos pelo país para responder a emergências ambientais— e nove Centros de Resposta a Emergência.

“A Petrobras reforça que o óleo nas praias do Nordeste não tem origem nas operações da companhia e os custos das atividades de limpeza serão ressarcidos, conforme informado pelo Ibama”, comunicou a empresa à agência de notícias.

No domingo, 22, o Sindipetro-BA realizará um mutirão de limpeza das prais de Salvador atingidas pelo óleo. Segundo o sindicato, a ação "será também mais um ato em defesa da permanência da Petrobras na Bahia, chamando a atenção da sociedade para a responsabilidade social e ambiental, que sempre esteve entre as prioridades da Petrobrás enquanto empresa pública, mas que, agora, está sendo deixada de lado com a mudança de foco da atual gestão, que prioriza o lucro".

Identificadas desde 2 de setembro, as manchas de petróleo chegaram a todos Estados do Nordeste e já atingem 72 municípios e 167 localidades, segundo dados atualizados pelo órgão ambiental Ibama na noite de terça-feira.

O Ibama registrou avistamentos de ao menos 13 tartarugas marinhas mortas nas praias impactadas pelas manchas de óleo, de acordo com levantamento até segunda-feira.

O órgão ambiental confirmou que requisitou apoio da Petrobras para limpeza das praias. Já a investigação da origem das manchas de óleo é conduzida pela Marinha, enquanto a investigação criminal está sob responsabilidade da Polícia Federal.

O Ibama disse ainda que requisitou à Petrobras a disponibilização de barreiras de contenção para impedir que o óleo continue se espalhando, mas afirmou que a medida foi tomada “por precaução”, uma vez que avalia que o uso do equipamento “pode não alcançar a eficácia pretendida”.

“Nos casos em que o óleo derramado é de origem conhecida e sua dispersão é prevista, a instalação de barreiras em águas calmas é tecnicamente recomendável para proteger pontos sensíveis, como manguezais. Contudo, se os manguezais já estiverem oleados, a medida poderá provocar o efeito inverso e impedir a depuração natural do ambiente”, explicou.

Segundo o órgão ambiental, mais de 200 barreiras estão em Aracaju, no Sergipe, “à disposição de instituições com capacidade operacional para realizar sua instalação e manutenção”.

[Com informações da Reuters e do Sindipetro-BA]

Publicado em Petróleo

A direção do Sindipetro Bahia está acompanhando com muita preocupação o derramamento de óleo que atingiu as praias do Nordeste brasileiro, chegando à Bahia. Já são 139 locais de diferentes municípios atingidos, prejudicando a fauna marinha, causando danos ambientais e afetando o turismo na região.

O Sindipetro está organizando um movimento solidário, para se juntar aos outros que já começaram a atuar fazendo a limpeza das praias. Além dos diretores do sindicato, muitos petroleiros e petroleiras se colocaram à disposição para fazer parte do movimento. O mutirão vai acontecer no próximo domingo (20) em uma das praias impactadas. O local será definido em breve.

A própria Petrobras, seguindo sua tradição, que vem desde a origem da empresa, está atuando na limpeza das praias, junto com outros órgãos, a exemplo do IBAMA. Mesmo sem ter nenhuma responsabilidade com esse desastre ambiental, a estatal segue também identificando a origem do óleo e ajudando na investigação para identificar os autores do derramamento.

Nesse contexto, o Sindipetro chama a atenção para a importância de uma empresa pública que se preocupa com o meio ambiente e com o seu país de origem. “Apesar do descompromisso da atual gestão da Petrobrás com o termo “responsabilidade social e ambiental”, da sua decisão de sair do Nordeste e da sua opção de priorizar o lucro para os seus acionistas privados, a empresa está contribuindo para ajudar na resolução do problema. Isso porque esta prática está arraigada nas raízes da Petrobras e, felizmente, não tem como ser deixada de lado de uma hora para outra”.

O Sindipetro também estranha o fato de empresas privadas de petróleo que atuam no Nordeste e em outras regiões do Brasil não terem se manifestado para ajudar na limpeza das praias. A Shell, por exemplo, já deveria estar contribuindo para tentar amenizar esse grande desastre ambiental, uma vez que já foram encontrados toneis com a identificação da empresa em algumas praias atingidas pelo óleo.

Faz parte da historia da Petrobras o compromisso com o meio ambiente, com as comunidades onde atua, com projetos sociais e ambientais, a exemplo do projeto Tamar, reconhecido em todo o mundo, e com projetos específicos com pescadores, em diversas localidades.

Como isso se dará no futuro se a saída da Petrobras do Nordeste se concretizar? Se situações como essas voltarem a acontecer, as companhias privadas vão agir da mesma forma que uma empresa pública? E se as próprias empresas forem as responsáveis pelo desastre ambiental como aconteceu com a Vale do Rio Doce em Mariana e Brumadinho?”São perguntas que precisam ser respondidas.

[Via Sindipetro Bahia]

Publicado em Cidadania

Em meio a uma chuva de contestações na Justiça sobre os impactos ambientais dos leilões de petróleo marcados para esta quinta-feira, 10, a Agência Nacional de Petróleo (ANP) insiste na realização da 16ª Rodada.

A FUP é uma das entidades que ingressaram com Ação Civil Pública contra a realização do leilão, que pretende ofertar 36 blocos nas bacias sedimentares marítimas de Pernambuco-Paraíba, Jacuípe, Camamu-Almada, Campos e Santos.

Os blocos a serem licitados estão localizados próximos a áreas ambientais que podem ser impactadas pela exploração de petróleo, como o arquipélago de Abrolhos, na Bahia, manguezais, recifes, corais e pesqueiros.

Um derramamento de óleo na bacia de Camamu-Almada (BA), por exemplo, colocaria em risco o rico Complexo de Abrolhos. Parecer feito por técnicos do Ibama constatou o impacto ambiental que a exploração de petróleo causará na região, mas, mesmo assim, o governo Bolsonaro autorizou o leilão dos blocos.

Na bacia de Jacuípe, em Sergipe, os estudos de avaliação ambiental ainda não foram sequer concluídos. Apesar disso, a ANP insiste no leilão.

As manchas de óleo que há semanas atingem o litoral do Nordeste, sem que se saiba como e de onde surgiram, reforçam a incapacidade do governo Bolsonaro para agir numa situação como essa. O descontrole entre o Ministério do Meio Ambiente e os órgãos fiscalizadores beira o absurdo, a ponto do governo apelar para a teoria da sabotagem e culpar o inimigo ideológico, responsabilizando a Venezuela pelo ocorrido.

Desnacionalização do Pré-Sal

Se a 16ª Rodada coloca em risco o meio ambiente, os leilões que acontecerão em novembro irão dilapidar a maior descoberta de petróleo da atualidade. Através da 6ª Rodada de Licitação do Pré-Sal, marcada para 07/11, e do leilão do Excedente da Cessão Onerosa, que será realizado no dia anterior (06/11), o governo Bolsonaro pretende entregar 57 bilhões de barris de petróleo, o maior saqueio da história do país.  

O governo Temer, sem a legitimidade das urnas, já havia realizado em 2017 e em 2018 quatro leilões do Pré-Sal. Neste curto espaço de tempo, as petrolíferas estrangeiras abocanharam a maior parte das reservas licitadas.

Segundo estudo do Dieese para a FUP, 13 multinacionais já se apropriaram de 75% das reservas do Pré-Sal brasileiro. Juntas, elas detêm o equivalente a 38,8 bilhões de barris de petróleo, de um total de 51,83 bilhões de barris do Pré-Sal que foram licitados no Regime de Partilha.  

As britânicas Shell e BP, por exemplo, já acumulam 13,5 bilhões de barris de petróleo em reservas do Pré-Sal. Mais do que a própria Petrobrás, que detém 13,03 bilhões de barris em campos leiloados nas cinco rodadas da ANP.

Para o leilão do dia 07 de novembro, a Agência habilitou 13 empresas: Shell, BP, Chevron, ExxonMobil, Repsol, Petronas, CNODC, CNOOC, Ecopetrol, Murphy, Wintershall DEA,QPI e a Petrobras, a única brasileira.

[FUP]

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A poluição por óleo de mais de 130 praias, em pelo menos 2.000 km no Nordeste do Brasil, é um desastre “sem precedentes” no país, diz Maria Christina Araújo, oceanógrafa da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).

 

Desde o início de setembro, grandes manchas de óleo de origem desconhecida mancharam praias paradisíacas da região, que depende muito do turismo.

Como se explica uma poluição dessa magnitude?

Maria Christina Araújo: Inicialmente, havia uma suposição de que seria um despejo ilegal no alto mar, mas, em vista da quantidade de petróleo, essa possibilidade é praticamente descartada. Seria um vazamento acidental. Uma coisa é certa: esse óleo não é de origem brasileira. É possível identificar a origem do óleo produzido em qualquer lugar do mundo através de análises químicas.

Agora, imagens de satélite estão sendo analisadas para tentar identificar a origem das manchas de óleo. Esta informação deve então ser cruzada com a trajetória da embarcação. Mas, por enquanto, temos mais perguntas do que respostas. Nunca vimos no Brasil um desastre de tal magnitude, que afeta uma área tão extensa.

Quais etapas precisam ser seguidas imediatamente?

MCA: Essa é uma situação extremamente complicada, justamente pelo tamanho das áreas afetadas, incluindo áreas praticamente desertas e de difícil acesso. É necessário, acima de tudo, remover as manchas que estão nas praias.

É um processo muito longo e caro, que exigirá um investimento não apenas financeiro, mas também em pessoal e logística. É impossível obter resultados a curto prazo e não podemos prever no momento em que tudo será limpo, porque notamos a presença de novas manchas nas praias.

MCA: O ecossistema costeiro do nordeste do Brasil é muito frágil, com manguezais, enseadas rochosas e recifes de coral. No manguezal, um ambiente com biodiversidade excepcional, é praticamente impossível remover o óleo. O dano pode ser irreparável e os ecossistemas levarão anos para se recuperar.

Também é um problema sério para a vida selvagem, especialmente as tartarugas, que não podem voltar à superfície. O impacto econômico e social é considerável, porque o Nordeste é muito dependente do turismo e já podemos ver que os turistas não querem mais ir às praias.

[Via Carta Capital, com informações da AFP]

 


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O governo de Jair Bolsonaro está discutindo, desde fevereiro, o maior “plano de ocupação e desenvolvimento da Amazônia” desde a ditadura militar. Gestado pela Secretaria de Assuntos Estratégicos, com coordenação de um coronel reformado, o projeto Barão de Rio Branco retoma o antigo sonho militar de povoar a região, com o pretexto de a desenvolver e proteger a fronteira norte do país.

Documentos inéditos obtidos pelo Intercept detalham o plano, que prevê o incentivo a grandes empreendimentos que atraiam população não indígena de outras partes do país para se estabelecer na Amazônia e aumentar a participação da região norte no Produto Interno Bruto do país.

A revelação surge no momento em que o governo está envolvido numa crise diplomática e política por conta do aumento do desmatamento no Brasil. Bolsonaro se comprometeu a proteger a floresta em pronunciamento em cadeia nacional de televisão, mas o projeto mostra que a prioridade é outra: explorar as riquezas, fazer grandes obras e atrair novos habitantes para a Amazônia.

O plano foi apresentado pela primeira vez em fevereiro deste ano, quando a secretaria ainda estava sob o comando de Gustavo Bebbiano. O então secretário-geral da Presidência iria à Tiriós, no Pará, em uma comitiva com os ministros Ricardo Salles, do Meio Ambiente, e Damares Alves, dos Direitos Humanos, para se reunir com entidades locais.

Bolsonaro, no entanto, não sabia da viagem. Foi surpreendido pelas notícias e vetou a comitiva — uma das razões que culminaram na crise que tirou Bebbiano do governo em 18 de fevereiro. O plano acabou sendo apresentado dias depois só pelo coronel reformado Raimundo César Calderaro, seu coordenador, sem alarde, em reuniões fechadas com políticos e empresários locais.

Parte do conteúdo do encontro foi revelado no mês passado pelo Open Democracy. O Intercept, agora, teve acesso a áudios e à apresentação feita durante uma reunião organizada pela Secretaria Especial de Assuntos Estratégicos no dia 25 de abril deste ano na sede da Federação da Agricultura do Pará, a Feapa, em Belém. A secretaria afirmou ter reunido a sociedade, academia e autoridades locais para ouvir opiniões e sugestões que guiarão os estudos sobre o programa. Mas os documentos, até agora inéditos, revelam que indígenas, quilombolas e ambientalistas parecem ter ficado de fora da programação.

Na apresentação, os responsáveis esmiuçaram a preocupação do governo com a “campanha globalista” que, de acordo com o material, “relativiza a soberania na Amazônia” usando como instrumentos as ONGs, a população indígena, quilombola e os ambientalistas. E afirmaram ser necessária a execução de obras de infraestrutura — investimentos “com retorno garantido a longo prazo” —, como hidrelétricas e estradas, para garantir o desenvolvimento e a presença do estado brasileiro no local.

Leia a reportagem completa do The Intercept Brasil

Publicado em Política

Diversas categorias de vários estados estão mobilizadas para os atos e paralisações na sexta-feira (20), chamados pela CUT e demais centrais, pela Coalização pelo Clima e pelos movimentos sociais das frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo. Todos juntos em defesa do clima, dos direitos sociais, trabalhistas e pela educação que vêm sendo atacados pelo governo Bolsonaro.

No Brasil, estão confirmados atos no Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Santa Catarina, Pernambuco, Brasília, Bahia e Ceará. No Rio Grande do Sul, o ato da classe trabalhadora será no dia 24.

Os petroleiros, através da FUP e da FNP, lançaram um manifesto, alertando que o desmonte do Sistema Petrobrás representa graves riscos ao meio ambiente no Brasil. Leia a íntegra:

Privatização da Petrobrás coloca em risco o meio ambiente

Em todo o mundo, há um grande chamado para a greve mundial pelo clima, que acontecerá entre os dias 20 e 27 de setembro de 2019. Os dados do aquecimento global são alarmantes e as consequências das mudanças climáticas estão evidentes. Uma das principais exigências é o fim da era dos combustíveis fósseis e a mudança da matriz energética mundial.

Para isso, é preciso que os governantes priorizem o meio ambiente e o setor de energia como políticas de Estado. Nossos recursos naturais não podem ser tratados como mercadoria a serviço do sistema financeiro. São questões de soberania nacional.

A política do Governo Bolsonaro, tanto para o meio ambiente, quanto para o setor de energia, é desastrosa. O ministro Ricardo Salles coloca até mesmo em dúvida o aquecimento global. Recentemente, assistimos, indignados, aos incêndios criminosos na Amazônia.

Paralelamente, o governo Bolsonaro acelera a privatização das empresas nacionais de energia. O objetivo é facilitar a entrega dos nossos recursos naturais para as empresas estrangeiras. E isso já está acontecendo através do desmonte dos Sistemas Petrobrás e Eletrobrás, comprometendo a soberania energética do País e, consequentemente, o meio ambiente.

A Petrobrás é reconhecida pelo seu compromisso socioambiental, responsável por importantes iniciativas neste sentido, como os Projetos Tamar e Baleia Jubarte.

Você acha que uma empresa de petróleo estrangeira teria algum compromisso com a proteção e preservação dos nossos ecossistemas e das comunidades locais onde venha a atuar?

As privatizações podem levar a graves acidentes ambientais e prejuízos sociais, como aconteceu com a Vale do Rio Doce. Os desastres ambientais de Brumadinho e Mariana, em Minas Gerais, foram tragédias anunciadas, que ocorreram porque o que interessa para os donos da Vale é o lucro acima de tudo. É a lógica do capital privado.

O governo Bolsonaro está entregando os nossos campos de petróleo para as multinacionais, inclusive áreas valiosas do Pré-Sal, o que levará a uma exploração ainda mais acelerada e predatória destes recursos.

O atual presidente da Petrobrás, Castello Branco, que tem o sonho de privatizar a estatal, segue a mesma lógica, desnacionalizando ativos e reduzindo investimentos estratégicos. Na contramão mundial, usinas de biocombustíveis estão sendo vendidas e apenas 0,5% dos investimentos da Petrobrás foram destinados para energias renováveis até 2023. Não há qualquer projeto estruturante para o setor.

As grandes empresas de petróleo, principalmente europeias, pretendem diversificar seu portfólio, investindo em energia mais limpa. As organizações sociais e a sociedade esperam e cobram das petrolíferas um plano de transição energética mais sólido.

Nós, petroleiros e petroleiras, não aceitamos os retrocessos que colocam em risco o meio ambiente e a soberania nacional.  Estamos na luta contra o esfacelamento da Petrobrás e o desmonte do setor público energético. Defendemos uma empresa integrada de energia, que diversifique suas áreas de atuação. Uma estatal a serviço das necessidades do povo brasileiro, que realize as mudanças necessárias e urgentes para o futuro do planeta. Exigimos que a Petrobrás suspenda as privatizações e reveja o seu plano estratégico para iniciar efetivamente esta mudança.

Por isso, os trabalhadores, os sindicatos e as Federações de Petroleiros do Brasil (FUP e FNP) se somam às mobilizações globais pelo clima. Estaremos nas manifestações de rua do dia 20 de setembro, em defesa das empresas estatais, da soberania nacional, do futuro da Amazônia e do Brasil.

#GreveGlobalPeloClima