Nada será como antes após a Covid-19. No setor de petróleo e gás natural, a pandemia derrubou consumo, preços, estrangulou a capacidade de estoque e mudou a geopolítica da área.

Para discutir o presente e o futuro do setor, o Intituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis Zé Eduardo Dutra (INEEP), em parceria com a EPBR, agência de notícias especializada em petróleo, promove a série de webinares “Impactos da Covid no Setor de Óleo e Gás”.

O primeiro webinar – Impactos e medidas emergenciais tomadas pelas empresas – será nesta próxima segunda-feira, às 17h, no canal da EPBR no YouTube.

William Nozaki, do INEEP, Alberto Machado, da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) e Marcelo Gauto, especialista em petróleo e gás, irão debater as medidas econômicas e sociais adotadas pelas companhias de óleo e gás como resposta à pandemia.

A moderação será feita pelo editor executivo da EPBR, Felipe Maciel.

Participe da webinar, que começa às 17h:  

[FUP, com informações do INEEP]

Publicado em Petróleo

Nada será como antes após a Covid-19. No setor de petróleo e gás natural, a pandemia derrubou consumo, preços, estrangulou a capacidade de estoque e mudou a geopolítica da área.

Para discutir o presente e o futuro do setor, o Intituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis Zé Eduardo Dutra (INEEP), em parceria com a EPBR, agência de notícias especializada em petróleo, promove a série de webinars “Impactos da Covid no Setor de Óleo e Gás”.

O primeiro webinar – Impactos e medidas emergenciais tomadas pelas empresas – será na próxima segunda-feira (18 de maio), às 17h, no canal da EPBR no YouTube. William Nozaki, do INEEP, e Fernanda Delgado, da FGV Energia, irão debater as medidas econômicas e sociais adotadas pelas companhias de óleo e gás como resposta à pandemia. A moderação será feita pelo editor executivo da EPBR, Felipe Maciel.

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[Via INEEP]

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Enquanto chineses aumentam suas importações durante a queda brutal dos preços de petróleo, os EUA veem a sua produção fortemente afetada. As futuras decisões da indústria petróleo ocorrerão, como sempre, na arena das disputas políticas entre as nações

A notícia surpreendeu o mundo. Semanas atrás, os preços do barril de petróleo West Texas Intermediate (WTI), ―óleo do tipo leve, que é negociado na Bolsa de Nova York e é referência para os preços nos EUA― ficaram negativos. Ou seja, o vendedor estava pagando para o comprador levar seu produto. Por trás disso estão tecnicalidades das operações do mercado futuro de petróleo, os brutais efeitos da crise de demanda provocada pela covid-19 e também os acordos nem sempre exitosas de reduzir a produção envolvendo os países da OPEP+ (grupo formado pela OPEP e outros onze países produtores liderados pela Rússia) e contrações do chamado grupo America+2 (EUA, Canadá, Brasil, Colômbia, Noruega e Reino Unido).

Além disso, a crise expôs também problemas do funcionamento do mercado de petróleo, principalmente na relação entre o mundo físico e o mundo financeiro. Na última semana, os detentores do contratos do mercado futuro ―no qual os compradores assumem hoje o compromisso de comprar petróleo no futuro, a um preço pré-estabelecido― com vencimento em maio, optaram por não receber o petróleo que tinham direito em função da escassez de estoque para armazena-lo.

Isso ocorreu porque esses contratos venceram, no dia 21 de abril, em condições muito desfavoráveis para os compradores. Dada a redução da capacidade de estoques, a oferta mundial ―mesmo com os cortes de produção anunciados pela Opep+― continua num patamar muito acima tanto da demanda por petróleo, como da necessidade de processamento nas refinarias. A alternativa que restou para os operadores financeiros foi aceitar os preços negativos, minimizando assim suas perdas com as obrigações contratuais do mês de maio. Portanto, o que ficou negativo na verdade foi o preço de trocar o contrato vendido por comprado, e não os próprios barris físicos do petróleo. Uma das contradições entre o mundo financeiro e o mundo físico é essa: os contratos open interest, em que as transações ainda não foram completadas (antes da data do vencimento) envolvem volumes muitas vezes maiores que o volume físico transacionado diariamente, o que mostra como os preços do petróleo são determinados principalmente por fatores financeiros.

O contango [cenário em que os preços futuros são maiores que o preço atual de um produto] se acentuou. Nessa situação, vale a pena segurar os estoques físicos para vendê-los no futuro, a preços maiores. Esse desastre do mercado futuro abalou os mercados de ações. Empresas de petróleo foram especialmente penalizadas e algumas tiveram perdas enormes em seu valor de mercado. Algumas empresas médias do setor passam a ser alvos de aquisições hostis, o que pode indicar uma nova onda de fusões e aquisições envolvendo, inclusive, grandes empresas estatais, fundos soberanos e fundos abutres.

Esse derretimento dos WTI provocou reações dos grandes produtores globais de petróleo. A Rússia, mesmo que tenha aderido ao acordo OPEP+, procura garantir mercado para o seu petróleo. Fornecedora de dois terços do gás natural utilizado na Europa, seu interesse é principalmente evitar a competição dos carregamentos de gás natural liquefeito (GNL) de outros países, uma vez que a construção de novos gasodutos e terminais podem deslocar o produto russo do mercado europeu, abrindo novas fontes de suprimento para o continente. A leste, os russos buscam o mercado asiático, por meio do oleoduto ESPO de 4,2 mil quilômetros, que liga a Sibéria Oriental aos mercados do Japão, China e Coreia, pelo do porto de Kosmino.

Essa ofensiva russa rumo aos mercados asiáticos preocupa especialmente os sauditas que, por conta disso, continuam apostando na guerra de preços. O Official Selling Prices (OSP) ―a tabela de preços para venda do petróleo da Arábia Saudita com entrega em maio― diminuiu pela metade os preços em relação aos níveis de abril.

Quem se aproveitou desse cenário foram os chineses que aumentaram suas importações de petróleo recompondo suas reservas estratégicas. Apesar das refinarias chinesas, principalmente as estatais, trabalharem com contratos de longo prazo e, por isso, não poderem substituir facilmente os fornecedores, o país se prepara para uma retomada do mercado de derivados no médio prazo e, ao mesmo tempo, auxilia a manutenção dos preços em patamares mais baixos no curtíssimo prazo.

Nos EUA, a depressão prolongada dos preços já provoca uma reação do sistema financeiro que começa a tomar o controle de petrolíferas que ficaram em extrema fragilidade financeira. Desde a queda dos preço de 2015, pequenos e médios produtores americanos do shale gas e tight oil aproveitaram as baixas taxas de juros e aumentaram seu endividamento, acreditando que a queda dos preços daquele ano seria temporária. As financeiras agora procuram manter a garantia dos fluxos de caixa dessas empresa, embora desprezem os investimentos necessários para a manutenção da produção física. A médio prazo, isso pode significar a destruição permanente das chances de retomada de produção, já que essas operações de exploração precisam manter uma pressão mínima em seus reservatórios para que eles continuem produzindo.

É certo que a queda conjuntural da demanda tende a afetar fortemente a produção dos EUA. O Governo federal americano tem poucos instrumentos para intervenção doméstica. O principal deles é a imposição de tarifas alfandegárias às importações. Mas mesmo essa medida levaria ao acirramento da competição internacional pelos outros mercados, o que poderia alimentar ainda mais a queda nos preços. Já no âmbito dos Governos estaduais, especialmente do Texas e de Oklahoma, há a possibilidade de as agências estaduais reguladoras colocarem limites à produção. No entanto, são políticas que violam princípios fundamentais das políticas neoliberais de redução da intervenção estatal e por mais de quarenta anos estes instrumentos não são utilizadas.

Essas movimentações de mercados e de países não deixam dúvida que surgirá um novo mundo do petróleo pós-covid-19. Além de inevitáveis transformações do mercado físico e financeiro do petróleo, alguns estados nacionais serão fundamentais na reconstrução desse novo mundo do petróleo. De um lado, a disputa dos Governos dos EUA, Rússia e Arábia Saudita, que aumentará durante e após a crise, ditará os rumos da oferta de petróleo em vez das forças de mercado e até da tecnoburocracia da Opep. De outro, a dinâmica e recuperação dos mercados vai depender ainda mais do que acontecerá com a China do que dos mercados da Organização para Cooperação e de Desenvolvimento Econômico (OCDE). As futuras decisões da indústria petróleo ocorrerão, como sempre, na arena das disputas políticas entre as nações.


Artigo de José Sérgio Gabrielli, publicado no jornal El Pais

Gabrielli é professor aposentado da UFBA, foi presidente da Petrobrás e atualmente é pesquisador do INEEP


 

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Em artigo publicado no jornal O Estado de São Paulo, os pesquisadores do INEEP, Rodrigo Leão e William Nozaki, alertam: A inexistência de uma articulação mais sólida entre os países produtores de petróleo que integram o chamado América+2 ((Estados Unidos, Canadá, Colômbia, Brasil, Noruega e Reino Unido) fará com que cada país realize ajustes nos níveis de produção segundo objetivos locais, tanto de suas empresas, como de seus governos.

Leia a íntegra: 

O ano de 2020 promete entrar para a história do mundo do petróleo. A crise do coronavírus e o desequilíbrio entre demanda e oferta colocaram o setor diante de uma situação preocupante.

Do lado da demanda, segundo estimativas da consultoria Rystad Energy, o consumo de petróleo no mundo deve cair cerca de 27,5 milhões de barris por dia neste mês de abril. Do lado da oferta, o acordo feito no âmbito da Opep+ – grupo que reúne a Opep e mais onze grandes produtores liderados pela Rússia e México – levou a uma redução insuficiente da produção de curto prazo, em cerca de 9,7 milhões de barris. Ou seja, se nenhum outro esforço de ajuste da produção for realizado, o mundo será inundado de petróleo.

O tímido corte da Opep+ pressiona os grandes produtores da chamada America+2 (Estados Unidos, Canadá, Colômbia, Brasil, Noruega e Reino Unido), que extraíram 29,5 milhões de barris de petróleo e gás por dia em 2019, a realizar ajustes na oferta para equilibrar o mercado global.

No entanto, a inexistência de uma articulação e de uma institucionalidade mais sólida entre os países desse grupo, somada às dificuldades internas da política dos Estados Unidos, retardou a formação de uma resolução de corte da produção entre os países da América+2. Isso significa que, até o momento, cada país parece agir segundo os objetivos tanto de suas empresas, como de seus governos.

A abrupta redução dos preços do WTI no dia 20 de abril, por exemplo, ocorreu devido à resistência dos Estados Unidos de reduzir sua produção de petróleo (cerca de 12 milhões de barris) de maneira expressiva no curto prazo, a despeito da queda vertiginosa da sua demanda. De 13 de março a 10 de abril, o consumo de petróleo e derivados no país caiu de 21,5 milhões de barris por dia (bpd) para 13,8 milhões de bpd. Caso a oferta e a demanda continuem a se comportar dessa forma, em breve, a produção norte-americana será maior do que sua própria demanda e continuará pressionando a capacidade de armazenamento de petróleo do país.

Esse cenário indica que o gigantesco desequilíbrio no mercado global de petróleo continuará por um tempo. No caso do Brasil e da Petrobrás, haverá dificuldade para que seja mantido o ritmo de crescimento das exportações de petróleo cru tanto pelo aumento da competição, como pela queda da demanda. Além disso, a diminuição dos preços deve afetar significativamente as margens do setor de exploração e produção.

Por isso, o mercado de derivados, tanto pela capacidade de exportação de alguns produtos específicos como bunker (diesel marítimo), como pela menor pressão nas margens do setor de refino, será fundamental para que a petrolífera brasileira possa atenuar os impactos gigantescos aos quais será submetida nessa crise.

Rodrigo Leão é coordenador-técnico do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep) e pesquisador-visitante do NEC da Universidade Federal da Bahia.

William Nozaki é coordenador-técnico do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep) e professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo.

[Via Estadão]

Publicado em Petróleo

A pandemia da Covid-19 aponta para mudanças na geopolítica do petróleo. Nos EUA, pequenas e médias empresas produtoras do gás de xisto devem quebrar e o setor vai passar por uma concentração. A produção do país vai cair, ainda que menos do que o esperado. Na Arábia Saudita, a queda vertiginosa dos preços resultará num grave problema político: o Estado terá dificuldades de seguir sendo sustentado apenas pela renda petrolífera.

Essas são algumas das observações de José Sergio Gabrielli, ex-presidente da Petrobras, em entrevista ao site TUTAMÉIA. Ele lembra que, historicamente, “toda a vez que o preço do petróleo caiu a economia cresceu”. Isso não deve acontecer agora. “Ninguém sabe como vai ser a volta do comportamento sobre viagens internacionais, de ônibus, de carro, por navios depois da pandemia. A demanda vai atingir o ponto em que estava antes ou não? Se não, a capacidade instalada de produção de petróleo vai sofrer efeitos mais permanentes”, afirma.

Gabrielli destaca ainda que a crescente importância do ativismo contra o aquecimento global e os combustíveis fósseis é um novo elemento a ser considerado no quadro futuro. Ele trata dos meandros do mercado financeiro nas cotações do petróleo e explica como os preços do produto chegaram a ficar negativos no mercado futuro. Cita a paralisia inédita nos fluxos de petroleiros pelo mundo (alguns estão ancorados em alto mar porque não têm onde desembarcar por causa dos altos estoques) e detalha os impactos da crise pelos diversos países e na própria Opep.

“O petróleo não é uma mercadoria qualquer. É um produto estratégico que move exércitos, diplomacia, golpes, corrupção. O petróleo é fundamental, nos últimos 200 anos, para a economia mundial. Não há nada que exista no mundo ou que não tenha petróleo na sua composição ou que não tenha sido transportado pelo petróleo. O petróleo não vai deixar de ser estratégico, principalmente para o transporte. Não vejo nenhum horizonte de desaparecimento do petróleo”, afirma.

PETROBRAS NA CONTRAMÃO

Na entrevista, o ex-presidente da Petrobrás analisa os impactos da pandemia sobre o setor petróleo no Brasil. “O Pré Sal é muito produtivo. O que foi decidido lá atrás, no nosso tempo na Petrobras e que está dando resultado hoje, é a salvação da Petrobras. Os campos da cessão onerosa e o Pré Sal da bacia de Santos são as grandes jóias da coroa nesse momento”, diz.

Ele ressalta que a atual política da direção Petrobras “vai na linha contrária do que estão fazendo as grandes empresas de petróleo no mundo; elas estão aumentando a integração entre produção, refino e distribuição, aumentando participação em petroquímica, em renováveis”.

“A nova estratégia é de não querer ser mais responsável por nenhum processo de aumento da indústria brasileira na renda petroleira. A Petrobras definiu que sua meta é gerar retornos de curto prazo para os acionistas e viabilizar a redução de sua alavancagem financeira. Definiu metas financeiras. Ela vai encolher, enxugar, saindo do refino, da logística, da petroquímica, de fertilizantes, biocombustíveis, reduzindo a área de gás natural”, lamenta.

Gabrielli trata ainda dos efeitos devastadores da Lava Jato na empresa e em toda a cadeia de fornecedores da indústria nacional. Ele lembra da importância da criação, há dez anos, do marco regulatório do petróleo, dos contratos de partilha, da definição da Petrobras como operadora do Pré Sal, da preocupação com o conteúdo nacional e do fundo destinado à educação e a questões sociais. Todo um modelo que, enfatiza Gabrielli, “não interessava às empresas internacionais. Para elas, interessava desenvolver o mais rápido possível o Pré Sal, exportar o máximo possível, e não deixar benefícios aqui dentro, mas capturar esses benefícios para os países consumidores”.

A tensão, segundo ele, começou logo a partir de 2010. “Fomos bombardeados, investigados, pressionados”, conta. Gabrielli lamenta que toda essa política que incomodava as grandes empresas petrolíferas estrangeiras agora está desestruturada. A Petrobras diminuiu seu papel estratégico para o desenvolvimento nacional, optando por uma visão de curto prazo.

Durante a entrevista ao site TUTAMEIA, os entrevistadores e Gabrielli foram surpreendidos pelo pedido de demissão do ex-ministro da Justiça, Sérgio Moro. “É uma crise por dentro do governo. O governo tem que sair. Temos que viabilizar a saída de Bolsonaro. A manutenção dele é criminosa. Não podemos manter esse homem na direção do país”, afirma.

Veja a íntegra da entrevista: 

[Com informações do site TUTAMEIA]

Publicado em Petróleo

Por José Luís Fiori, pesquisador do Instituto de Estudos Estratégicos do Petróleo, Gás e Biocombustíveis (INEEP)

Artigo publicado originalmente no jornal Le Monde Diplomatique

As grandes epidemias repetem-se através da história, mas não existe nenhuma explicação sobre sua periodicidade. E no caso da epidemia do Covid-19, ainda não se decifraram a origem, as variações do vírus, nem o desenvolvimento provável da própria pandemia, porque não se sabe se poderá haver recidivas nacionais até o desenvolvimento de medicamentos e vacinas eficientes. Por isso mesmo, nestes momentos de grande medo e imprevisibilidade, é comum que as pessoas utilizem comparações e analogias que parecem úteis num primeiro momento, mas que são parciais e às vezes prejudicam mais do que ajudam, como no caso da referência às duas crises econômicas de 1929 e 2008. Ou também a comparação com algumas pestes que teriam provocado grandes “rupturas históricas”, como foi o caso da Peste de Justiniano, no século VI, ou mais ainda, da Peste Negra, no século XIV, que matou metade da população europeia e parece ter contribuído decisivamente para o fim do sistema feudal.

É importante ter presente que as crises de 1929 e 2008 foram crises econômicas próprias do capitalismo, enquanto que a atual está sendo provocada por um fator que não obedece às “leis” da economia capitalista, mesmo quando possa provocar um estrago econômico e social equivalente ao das duas crises econômico-financeiras que são sempre lembradas quando se fala da atual epidemia do coronavírus. Da mesma forma, com relação à Peste Negra, o historiador inglês Mark Harrison chega a sustentar a tese de que teve um papel decisivo no nascimento dos Estados territoriais europeus. E é verdade que a Peste Negra forçou uma centralização do poder, e uma delimitação territorial que foi necessária para controlar o contágio e impor novas práticas higiênicas às populações que ainda viviam sob o sistema feudal.

Além disso, a tese de Harrison ajuda a entender a resposta “egoísta” dos Estados nacionais, através dos tempos, toda vez que se enfrentaram com epidemias infecciosas que se expandiram por cima de suas fronteiras territoriais. Mas mesmo que se possa estar de acordo com este tese a respeito da Peste Negra, é muito difícil dizer o mesmo de outras grandes epidemias mais recentes, como é o caso da febre amarela, do sarampo, da varíola, da malária, da tuberculose, ou mesmo do HIV ,que já atingiu e matou milhões de pessoas ao redor do mundo. Todas foram extremamente letais, mas não provocaram nenhum tipo de grande ruptura ou inflexão histórica.

Outra analogia muito comum é entre as epidemias e as guerras. É uma comparação muito forte e pode ser útil para mobilizar os atores sociais relevantes, mas existem algumas grandes diferenças entre elas. Ao contrário das guerras, as epidemias não costumam destruir equipamentos físicos e não têm um adversário visível capaz de produzir uma identidade coletiva, emocional, e uma solidariedade nacional que se imponha por cima das próprias classes sociais. Ao contrário, as epidemias contagiosas infectam os indivíduos, classes e países com distintas intensidades, e provocam reações defensivas do tipo “cada um por si”, exatamente ao contrário das guerras. Além disso, as guerras têm vencedores que impõem sua “paz hegemônica” aos derrotados, ao contrário das epidemias, em que não existem vitoriosos nem perdedores absolutos, e não existe nenhuma força material que induza qualquer tipo de acordo ou plano de reconstrução coletiva depois do tufão epidêmico. Hoje, muitos falam de um mundo novo que poderia nascer desta experiência traumática, e até apostam em mudanças humanitárias do capitalismo, mas a possibilidade de que isso ocorra é muito pequena.

De qualquer maneira, a epidemia do COVID-19 terá um impacto econômico imediato, como no caso das guerras. O que distingue o “novo coronavírus” não é sua letalidade, é a velocidade da sua expansão e seu impacto imediato sobre as taxas de desemprego que explodem em poucos dias. O vírus foi identificado na China no final do mês de dezembro de 2019, e em apenas três meses atingiu 200 países e já contagiou mais de um milhão e meio de pessoas. Alguns infectologistas preveem de 6 a 7 meses de duração da epidemia, e alguns economistas falam num impacto recessivo cuja duração pode chegar de 2 a 3 anos. Tudo dependerá da extensão e duração da epidemia nos Estados Unidos e na Europa, e da existência ou não de recidivas nos países que já controlaram o primeiro surto epidêmico. É provável que a queda do PIB norte-americano seja maior do que a da crise de 2008/09, mas ninguém deve enganar-se com relação ao próprio futuro americano. O epicentro da crise de 2008 foi nos EUA, e no entanto, durante a segunda década do século XXI, os EUA aumentaram sua participação no PIB mundial, de 23% para 25%, enquanto seu mercado de capitais crescia 250%, ficando com 56% da capitalização financeira global, com cerca de 90% das transações financeiras globais sendo feitas em dólares. Ou seja, não há nada que impeça que os EUA superem esta nova crise e recuperem rapidamente seu poder econômico, na frente de todos os demais países desenvolvidos, com exceção talvez da China.

De qualquer maneira, deve-se incluir neste ponto a outra grande dimensão desta crise mundial, a crise da indústria do petróleo, provocada pela queda da demanda mundial em consequência da própria epidemia, começando pela desaceleração da economia chinesa, e depois alastrando-se para toda a economia mundial, com um baque imediato do preço do barril de petróleo, que caiu de U$ 70 para U$ 23 b/p/d, flutuando depois em torno de U$ 30 b/p/d. Não se sabe ainda quanto tempo durará a epidemia, nem tampouco a recessão da economia mundial, nem se consegue prever o tempo da recuperação econômica depois da pandemia. Mas mesmo que as novas negociações entre a OPEP+ e o G20 cheguem a um acordo sobre novos níveis e produção e o rateio do corte entre os países produtores, é muito pouco provável que o novo preço seja superior a U$ 35 b/p/d.

Esse novo valor deverá ter um impacto gigantesco sobre a geoeconomia da produção mundial de petróleo. Neste nível de preços, é muito provável que a indústria americana do shale oil tenha que ser protegida pelo governo para não quebrar, e assim mesmo, o mais provável é que os EUA percam sua posição atual como maiores produtores mundiais de petróleo. Poderá haver uma grande perda de mercado por parte dos países produtores de mais altos custos, com a perspectiva imediata de uma nova crise da dívida externa soberana de países como Equador, México, Iraque, Nigéria, etc. Esses preços afetariam também a capacidade fiscal da Rússia e da Arábia Saudita, e atingiriam em cheio países que já estão sofrendo sanções dos Estados Unidos, como é o caso da Venezuela e do Irã, para não falar da própria Rússia. Seja como for, as perspectivas pela frente são muito ruins para o mercado mundial do petróleo e, como consequência, para o mercado financeiro globalizado.

Num primeiro momento, como em todas as grandes catástrofes e guerras, o Estado está sendo obrigado a centralizar as decisões e o planejamento sanitário e econômico do país, e está sendo obrigado a realizar intervenções econômicas “heterodoxas”, através do aumento de seus gastos em saúde, e ainda através da multiplicação pura e simples do dinheiro disponível para pessoas e empresas. Mas nada disto garante que depois da crise os governos desses países mantenham essa mesma política econômica, e esse mesmo “voluntarismo estatal” que se encontra na contramão do neoliberalismo dominante nas últimas décadas, no capitalismo ocidental. É muito provável que, depois da tempestade, as grandes potências revejam sua participação nas produtivas globais, sobretudo no caso de bens estratégicos. E é também muito provável que a China e a Rússia, e mais alguns países europeus, procurem aumentar seu grau de liberdade com relação ao sistema financeiro norte-americano, e aumentem o grau de proteção mercantilista de suas economias. Entretanto, no caso dos países periféricos, o mais provável é que, apesar de tudo, decidam enfrentar suas “dívidas da epidemia” negociando com o FMI e retornando a suas políticas anteriores de austeridade fiscal, com a venda acelerada de seus patrimônios públicos na “bacia das almas”, para poder “pagar as contas” deixadas pelo coronavírus.

Apesar da devastação econômica imediata provocada pela epidemia, o mais provável é que ocorram grandes rupturas geopolíticas dentro do sistema mundial. O que ela fará é acelerar a velocidade das transformações que já estavam em curso e que seguirão se aprofundando. Alguém já disse que é na hora das grandes pestes que se conhece a verdadeira natureza das sociedades, e o mesmo se pode dizer desta pandemia que está apenas desvelando o que já estava na nossa frente e que muitos não conseguiam ver, inclusive a retirada do último véu de hipocrisia da “ordem liberal” e da “hegemonia americana” do século XX.

O epicentro da epidemia já se deslocou para a Europa, e agora para os Estados Unidos, e não se sabe quanto durará, mas de fato a grande incógnita e o grande medo é com o que possa acontecer quando ela se expanda para os países mais pobres da África, do Oriente Médio e da América Latina. Até porque, como sempre acontece nas grandes crises, serão as grandes potências que se recuperarão na frente, começando pela China e pelos Estados Unidos. Por isso, o mais provável é que esta epidemia aumente a desigualdade e a polarização do mundo, que já vinham crescendo de forma acelerada desde a crise financeira de 2008. E deve acentuar a nova virada nacionalista do sistema interestatal que já vinha se manifestando desde o início do século XXI, e assumiu alta velocidade depois da eleição de Donald Trump. A Rússia deverá sofrer um novo baque econômico com a epidemia e com a crise da indústria do petróleo, mas isto não deverá afetar a nova posição que ela readquiriu como grande potência militar dentro do sistema mundial.

No caso da União Europeia, entretanto, a pandemia deve acelerar o seu processo de desintegração que entrou em alta velocidade depois do Brexit. A China, por sua vez. não deve alterar o curso do seu projeto expansivo programado para a metade do século XXI; pelo contrário, deve acelerá-lo aproveitando as oportunidades e brechas abertas pela decomposição europeia, e pelo distanciamento norte-americano de seus antigos aliados europeus. Por fim, depois da pandemia, a competição e os conflitos entre a China e os Estados Unidos devem aumentar em escala exponencial, sobretudo se Donald Trump for reeleito no mês de novembro de 2020, e se seguir em frente com sua decisão de estrangular a economia e a sociedade venezuelanas, através de sanções comerciais e financeiras, e agora através de um bloqueio naval que pode se transformar, em breve, no pé de apoio de uma invasão militar, ou de um bombardeio aéreo feito a partir de seus próprios navios que já estão mobilizados no Caribe. Seria a primeira guerra na América do Sul envolvendo as grandes potências militares do mundo. E seria talvez a primeira grande tragédia da história da América do Sul no século XXI.

[Via INEEP]

Publicado em Petróleo

Estratégia geopolítica une árabes, russos e chineses para tentar parar o crescente poder do continente americano no mundo do petróleo

Artigo de Rodrigo Leão, coordenador-técnico do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep)

[Publicado originalmente  em El País]

A tão aguardada reunião da Opep+, grupo que reúne os membros da Opep e outros onze países produtores liderados por Rússia, México e Oman, que aconteceu na última quinta-feira (09) e teve seus termos ratificados no domingo (12), deve ter grandes impactos para os maiores produtores do continente americano, incluindo o Brasil. A expectativa de que ocorreria um corte substancial da produção de petróleo em consonância com a brusca queda da demanda foi frustrada.

Por trás dessa estratégia, está uma disputa em torno de quem ditará as regras do mercado mundial de petróleo nas próximas décadas.

Segundo estimativas da Rystad Energy, o consumo de petróleo no mundo deve cair cerca de 27,5 milhões de barris por dia neste mês de abril, (uma queda de cerca de 28% da demanda global) e cerca de 19,1 milhões de barris por dia no mês de maio. Por isso, as expectativas eram de que a Opep+ estabelecesse um acordo de corte inicial de produção de, pelo menos, 15 milhões de barris por dia. Mas, o acordo fechado na reunião foi de apenas 10 milhões de barris por dia. O que isso significa?

Significa que, nos próximos dois meses, a produção mundial de petróleo deve ficar num patamar (90 milhões de barris por dia) ainda muito superior ao consumo petróleo (76,5 milhões de barris por dia). Ou seja, a menos que outros grandes produtores façam um esforço semelhante ao da Opep+, o mundo será inundado de petróleo barato.

O corte aquém do esperado foi explicado, em primeiro lugar, pelo fato de alguns países, principalmente o Irã e o México, criarem dificuldades até mesmo para aceitar essa redução mais modesta, de 10 milhões de barris por dia. Segundo matéria do Wall Street Journal, os representantes mexicanos deixaram a reunião antes de o acordo ser concretizado. E, em segundo lugar, pelo desejo da Opep+ de forçar que EUA, Canadá, Brasil, Colômbia e Noruega também participem do corte de produção a fim de equilibrar a oferta e a demanda global de petróleo.

Pode-se entender o resultado da reunião como uma espécie de “resposta geopolítica” da Opep+ à escalada dos produtores do continente americano, principalmente dos EUA e seus aliados.

Dados da Agência Internacional de Energia (AIE) mostram que, em 2013, a Opep representava 40,2% da produção global de petróleo, enquanto EUA, Canadá, Brasil, Colômbia e Noruega (América+1) participavam com 23,7%. Em 2019, a fatia detida pela Opep caiu para 35,1% e a do grupo América+1 subiu para 28,1% e mais grave: a projeção em 2025 era que a participação da América+1 ficasse num patamar muito próximo ou quase igual ao da Opep (cerca de 32-33%).

Esse foi apenas mais um sinal de que a Opep+ não assistirá passivamente à ascensão dos países desse grupo como protagonistas do mundo do petróleo. A abrupta queda do preço do barril no começo do mês de março; a declaração do Ministro de Petróleo do Irã, Bijan Zabganeh, no começo de abril, de que a reunião da Opec+ somente deveria ocorrer depois que EUA e Canadá sinalizassem o corte de produção que pretendiam fazer; e o adiamento da realização da própria reunião foram outros sinais de que o bloco liderado por sauditas, russos e iranianos não estão dispostos a perder sua condição de coordenar os rumos da produção e do preço global do petróleo.

Nesse cenário, não pode ser esquecido o papel relevante da China que, logo antes da reunião, comprou um volume gigantesco de petróleo para estoque, principalmente da Arábia Saudita. Com isso, o país asiático, além de transferir uma cifra considerável para os sauditas, contribuiu para que a retomada da demanda global seja ainda mais lenta do que o esperado anteriormente.

Ao tudo que indica, a despeito das diferenças do posicionamento geopolítico de Rússia, Irã e Arábia Saudita, momentaneamente forma-se uma aliança entre a Opep+ e a China para que os Estados Unidos e seus vizinhos aliados percam ou – pelo menos não aumentem – sua influência nas decisões-chave do mundo do petróleo. O próprio acordo já impõe novas obrigatoriedades aos produtores americanos.

O Brasil, que já havia anunciado um redução de 200 mil barris por dia da sua produção, pode realizar cortes ainda maiores. Os Estados Unidos garantem que compensarão os cortes de produção que deveriam ser feitos pelo México. E o Canadá assevera que continuará reduzindo sua produção. Aliás, o próprio Ministro de Recursos Naturais do Canadá, Seamus O’Regan, presente na conferência realizada entre os países do G20 na sexta-feira (10), reconheceu que, independente do resultado do acordo, o Canadá seria obrigado a continuar reduzindo sua produção em Newfoundland, Alberta e Saskatchewan.

O acordo para os cortes de produção gera outros tipos de preocupações para os produtores dos Estados Unidos e de seus vizinhos.

Em razão das características da produção de Brasil, Colômbia e Noruega, cortes abruptos podem ter consequências graves no médio prazo, principalmente quando esses países decidirem colocar o “pé no acelerador” novamente. Embora EUA e Canadá tenham maior flexibilidades para ajustar a produção, suas empresas de pequeno e médio porte terão grandes dificuldades para resistir a uma crise de médio prazo na produção.

Por isso, as avaliações sobre o tempo de retomada do consumo interno e a capacidade de atuar de forma verticalizada, a fim de atender seus próprios mercados são chave para que esses países e suas empresas consigam sobreviver a essa tempestade. Tempestade que não deve ser curta. Ainda mais quando seus adversários estão dispostos a prolongá-la o tempo que for necessário.

[Via Ineep]

 

Publicado em Petróleo

Desde o início do ano, com a expansão da covid-19, o mundo vive uma retração econômica e, consequentemente, diminuição da demanda internacional por petróleo. Em decorrência disso, no dia 9 de março, os mercados entraram em colapso com a chamada “Guerra do Petróleo”. Somente nesta data, o preço do barril caiu de U$S 45 para U$S 31,52 em poucos segundos de funcionamento das bolsas de valores.

Para o diretor do Instituto de Energia e Ambiência da Universidade de São Paulo (USP), Ildo Sauer, a explicação dessa conjuntura não pode ser apenas colocada na conta da pandemia. De acordo com o pesquisador e ex-diretor de Gás e Energia da Petrobrás, “o coronavírus foi um mero estopim, uma pólvora detonadora dessa crise”.

Segundo o pesquisador, o que está no centro desse movimento é a consolidação da hegemonia da Arábia Saudita e da Rússia na geopolítica do petróleo. Juntos com os outros países que integram a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), são responsáveis por cerca de 40% da produção mundial, o que representa 90% das exportações de petróleo.

“A Arábia Saudita diz que pode impor qualquer preço, já que tem condições de produzir petróleo barato e não quer assumir sozinha o ônus de produzir menos, enquanto produtores menos eficientes exportam em grandes quantidades”, explica Sauer.

Por produzirem petróleo a custo baixo e possuírem grandes reservas financeiras, Arábia Saudita e Rússia aumentaram o ritmo de produção e, consequentemente, diminuíram drasticamente o preço internacional do barril. Com isso, deram um “choque no mercado”, acrescenta Sauer, especialmente nos produtores do shale oil norte-americanos, com elevado custo de produção.

Nesse cenário, o pesquisador afirma ainda que as últimas gestões da Petrobrás estão caminhando no sentido oposto aos interesses de sua maior acionista: o povo brasileiro. Recordando seu artigo “Pré-sal e Petrobrás além dos discursos e mitos: disputas, riscos e desafios”, critica o modelo de concessão e de partilha. Na sua opinião, a única opção é a contratação direta da Petrobrás.

Os resultados dessa política, para Sauer, devem ser investidos em áreas com carências muito anteriores à crise do coronavírus: “saúde pública, educação pública, infraestrutura, proteção ambiental, ciência e tecnologia”.

Confira abaixo a entrevista concedida ao jornalista Guilherme Weimann, para o Sindipetro Unificado de São Paulo: 

O preço internacional do barril do petróleo sofreu uma queda brusca e muitos especialistas apontam o coronavírus como fator determinante. Qual a sua opinião sobre esse cenário?

Eu acho que são duas situações que “se reforçam mutuamente”. De um lado, obviamente, a crise econômica decorrente da pandemia é um fator extremamente relevante para o contexto da demanda do petróleo. Redução na atividade econômica, na circulação de pessoas e nas mercadorias determinam, obviamente, uma redução na demanda. Esse é primeiro fator, inquestionável, extremamente relevante.

Mas, o mais relevante, sem dúvida nenhuma, é o processo geopolítico de determinação do preço do petróleo para o qual tem papel decisivo, ainda, a OPEP [Organização dos Países Exportadores de Petróleo]. E, de uma certa forma, não diria que oportunisticamente, mas que esta é uma coincidência que serve para reforçar a hegemonia ainda relevante da OPEP na formação de determinação do preço do petróleo. Especialmente, está sendo reafirmado aquilo que já está enunciado e anunciado há algum tempo.

A OPEP mais a Rússia responde por mais de 40% da produção mundial de petróleo que é exportado. Os demais 60%, aproximadamente, são produzidos localmente, inclusive pelo maior produtor, até agora pelo menos, que são os Estados Unidos. Em função da produção do shale oil, [os EUA] tornaram-se os principais produtores mundiais, mas ainda continuam importadores. Fora da OPEP e da Rússia, que em 2016 e 2017 fizeram um acordo de cooperação, colocam-se como relevantes México, Canadá e Brasil. A produção da Rússia e a OPEP representa cerca de 40% do petróleo consumido no mundo antes da crise, porém o valor chega a cerca de 90% do petróleo que circula, sem os quais o mundo não consegue atender sua demanda por combustíveis líquidos.

Mas vamos fazer uma conta. O mundo consumia, antes da crise [do coronavírus], 100 milhões de barris por dia, o que representa aproximadamente 37 bilhões de barris por ano, que tem gerado um excedente da ordem de U$S 50 a U$S 60 por barril. Na Arábia Saudita, o custo de produção, sem impostos e taxas, é U$S 2 e, no Brasil, U$S 8 por barril. Já na Rússia existe um preço intermediário entre esses dois países. Neste contexto, o excedente econômico mundial apropriado pelos países, que vira lucro para as empresas e impostos para financiar os estados nacionais, situa-se na ordem de U$S 2 trilhões a U$S 2,5 trilhões por ano, num PIB mundial de cerca de U$S 80 trilhões e um excedente, um superávit, de menos de 10%, ou seja, na ordem de U$S 6 a U$S 8 trilhões por ano. Esse é o quadro.

Qual o papel específico da Arábia Saudita nesse contexto?

A Arábia Saudita é a líder, porque é a maior produtora mundial da OPEP. A OPEP foi fundada por iniciativa da Venezuela e da Arábia Saudita da década de 1960, e teve dificuldade de impor seu poderio nos choques de 1973 e 1979. Mas em 2014 e 2015, o então ministro da Arábia Saudita dizia que, a partir daquele momento, seu país não seria mais o carregador do piano sozinho. A Arábia Saudita passaria a compartilhar o ônus, ou seja, estruturar cotas de produção com países membros ou não da OPEP. Foi chamada à conferência a Rússia, o Canadá, o México, e o Brasil, que nem sequer chegou a responder naquela ocasião, já no governo Temer.

Com isso, quando a Arábia Saudita diz que pode impor qualquer preço, já que ela tem condições de produzir petróleo barato e não quer assumir sozinha o ônus de produzir menos, enquanto produtores menos eficientes exportem em grandes quantidades. O resultado dessa discussão foi que a Rússia se juntou à iniciativa e criou, em 2017, a OPEP+. Esse “+” significa “outros”, em especial, Rússia e México. Brasil e Canadá não participaram.

Já nesta época, para demonstrar sua força, a Arábia Saudita impôs uma diminuição nos preços, que chegou a U$S 30. O que deixou a mensagem de afirmação do poder hegemônico da OPEP. Isso gerou uma enorme crise na produção do shale oil americano e nos biocombustíveis. Além disso, esse movimento teve um efeito devastador para o Irã, que, naquela ocasião, estava voltando a querer exportar. A flutuação naquele momento ocorreu por uma decisão política, geopolítica da Arábia Saudita, como agora novamente.

A Arábia Saudita está dizendo que não vai ficar com o ônus apenas para ela. E a Rússia responde que poderia resistir por até 10 anos com os preços baixos. Então, são países que acumularam reservas financeiras enormes e podem manter a guerra.

Quais são os efeitos reais dessa queda no preço do petróleo no cenário geopolítico?

O impacto foi devastador, está sendo. Uma grande empresa de shale oil dos Estados Unidos já anunciou a falência, outras estão reduzindo drasticamente suas operações. O que significa que a reunião entre o príncipe herdeiro do reino da Arábia Saudita com o Trump foi um grito de socorro. E por quê?

A indústria norte-americana de shale oil, criada nos últimos 10 anos, tem capacidade de produzir 10 milhões de barris de petróleo, ou seja, quatro vezes a capacidade da Petrobrás. E ela está quebrando. A queda do preço tem um efeito devastador nessa cadeia produtiva que não vai voltar. Não é como apagar a lâmpada e ligar novamente. Depois que demitem e quebram as empresas, não tem como retomar instantaneamente.

Isso são ondas de choques que estão ocorrendo a cada cinco anos. A primeira foi em 2015, a segunda é essa de agora. E esse movimento parece seguir a estratégia de reforçar a hegemonia da OPEP e de sua liderança principal, a Arábia Saudita. Seja em cooperação, seja em disputa com a Rússia.

O que está acontecendo então é uma queda de braço para mostrar quem domina o mercado?

Nós já aprendemos há muito tempo que o sistema capitalista não funciona em condições de concorrência pura e perfeita, como pareciam anunciar os neoclássicos e depois os liberais. O que impera é a cooperação ou a disputa baseada na teoria dos jogos, cooperativos ou não cooperativos. Então, agora, havendo cooperação entre Rússia e Arábia Saudita, ou havendo uma disputa, estão sofrendo para suportar essa queda temporária, mas ao mesmo tempo também estão sendo premiados porque mostra que detêm o poder de mando sobre esta questão no mundo.

Juntos os dois países estão perdendo cerca de U$S 100 milhões por dia ou aproximadamente U$S 3 bilhões por ano. Mas eles têm reserva e estão passando uma onda de choque aos países marginais. Eles estão mandando uma mensagem ao shale oil americano, mas também ao Brasil, e isso é importante a gente pontuar.

Qual a mensagem que eles estão passando ao Brasil neste momento?

Os contratos de partilha outorgados pelos governos de Fernando Henrique Cardoso, do PT [Partido dos Trabalhadores], mantidos por Temer, e agora por Bolsonaro, na tentativa do [ministro da Economia Paulo] Guedes de reforçar e aprofundar a liberalização, não são de interesse nacional. Muito menos o modelo de concessão. A única solução estratégica geopolítica para o Brasil é contratar diretamente a Petrobrás para num regime de serviços, como permite a lei, produzir o volume de petróleo que o país venha a necessitar. E exportar junto com a Rússia, México e Canadá, formando a OPEP+ reforçada, para gerar excedente necessário para o Tesouro Nacional e para investir nas necessidades nacionais.

E essas necessidades já existiam antes do coronavírus, que são saúde pública, educação pública, infraestrutura, proteção ambiental, ciência e tecnologia. De maneira que o aprendizado que podemos tomar dessa crise, assim como ocorreu em Yom Kippur [referência à guerra do petróleo, de 1973], é que o coronavírus foi um mero estopim, uma pólvora detonadora dessa crise.

Estes episódios são meras espoletas, detonadores, eles não são as pólvoras em si. O poder de explosão resulta da condição geopolítica hegemônica dos países da OPEP, que são treze países, mais Rússia, mais Canadá, mais México, mais Brasil, como potências determinantes na questão do petróleo. Infelizmente, o Brasil não tem política e nem estrutura estratégica à altura dos seus interesses nacionais.

As refinarias da Petrobrás já estavam sendo subutilizadas e oito delas já haviam sido colocadas no “plano de desinvestimento” da companhia. Agora, elas reduzirão suas cargas pela metade, com a justificativa de queda na demanda por derivados. Qual a sua avaliação sobre isso?

Primeiro, não podemos ignorar que o maior excedente econômico, o maior lucro, a maior renda vem da produção do petróleo. Agora não podemos negligenciar, por razões econômicas e estratégicas para o país, a indústria do refino e a logística. São setores estratégicos e econômicos muito importantes. Não para produzir lucro e excedente, porque o lucro das refinarias é o lucro médio pautado pela concorrência internacional do refino. Sua indústria é convencional, tem um lucro maior quando tem uma demanda crescente, e tem um lucro menor quando tem uma menor procura.

No Brasil, em 2014, ainda no governo de Dilma Rousseff, houve uma política desastrosa na qual a Petrobrás implementou de exportação de óleo cru e importação de derivados, chegando a uma ociosidade de 75% das nossas refinarias, espaço tomado pelos especuladores do mercado internacional de derivados. Isso foi criminoso contra o interesse econômico e estratégico brasileiro. Essa é uma consideração importante.

Há uma perda econômica nisso porque a Petrobrás deixa de cumprir o seu papel, deixa de gerar dividendos e benefícios econômicos para o país. E deixa também de atender com segurança a demanda brasileira em benefício de grandes companhias que estão comprando redes de postos no Brasil. Essas companhias, como a Trafigura, estão comprando postos no Brasil para venderem derivados importados em detrimento da capacidade de refino no Brasil.

Há seis anos esse movimento ocorre de forma criminosa. Essa política vem se mantendo desde então. A Petrobrás vem se mantendo nessa postura omissa. Não sei o quanto isso significa de estratégia do Ministério ou se é somente da Petrobrás. Mas essa conivência é desastrosa para o país.

O segundo ponto é que a exportação de petróleo só deve ser feita pelo Brasil com preços compensadores, para gerar excedente econômico necessário para um plano nacional de desenvolvimento econômico e social, para investir na saúde e educação pública.

Qual a sua opinião sobre a política de preços adotada pela Petrobrás nos últimos anos?

Nós devemos, sim, cobrar no mercado interno preços próximos dos internacionais, porque o petróleo pertence ao povo brasileiro, inclusive àqueles que andam a pé, que não têm carro. Então, o petróleo é do povo brasileiro e os derivados devem ser produzidos não para beneficiar os acionistas da Petrobrás, nem para os demais atores do processo. E, sim, para gerar renda econômica para o país, para o tesouro, e para investir nessas áreas estratégicas. É por isso que eu defendo o contrato de serviços da Petrobrás que leve em consideração o custo da produção, mais o excedente que pode chegar a 100%, para conseguir pagar regiamente os trabalhadores, e manter a atualidade tecnológica.

Mas, ao contrário disso, Brasil está acelerando a exportação a qualquer preço, o que é um crime contra a economia popular. O país deveria reduzir drasticamente a produção agora, não para proteger os acionistas, mas acima de tudo a riqueza pública do Brasil que está nos campos de petróleo, que pertencem ao povo brasileiro. Essa riqueza pertence ao povo e não à Shell, a Exxon ou a Total. Essa é a política que vai contra os interesses nacionais e está sendo aprofundada com esse governo que é subserviente ao capital privado e ao Trump.

No acumulado do ano, a gasolina caiu 43% nas refinarias, mas apenas 1,58% nas bombas; o diesel teve queda de 30%, mas apenas 5,1% nos postos; o gás de cozinha diminuiu 21%, mas subiu 0,5% nas distribuidoras. Por que essas reduções não se refletiram aos consumidores finais?

Isso demonstra o desastre do atual governo. O câmbio explodiu, fazendo com que em reais o preço internacional de referência continuasse elevado aqui dentro. Mas o meu debate é que nós podemos praticar preços próximos do valor, sem negligenciar a hipótese de preços melhores para beneficiar setores estratégicos, desde que essa renda vá para pagar a conta social. Ou seja, para melhorar a saúde e educação. Não para o que fez a Petrobrás, ou seja, facilitar o lucro dos acionistas privados, das petroleiras internacionais e das operadoras e distribuidoras.

Hoje, existem muitos mercados paralelos de petróleo, os chamados páreas internacionais. Eles vêm vender derivados com o preço do mercado internacional aqui no Brasil. Esse é um quadro muito complexo que emergiu e a minha defesa dos preços para próximos dos internacionais, com estabilidade, é para gerar dinheiro para resgatar a dívida social.

O segundo ponto é que o governo tem sido omisso e incapaz de fazer a logística da distribuição. Com a saída da Petrobrás, o mercado está monopolizado por grupos privados, que estão operando esse oligopólio em favor deles próprios. Quando o preço cai eles demoram para repassar ao consumidor, quando o preço aumenta eles valorizam todos os estoques existentes vindos da Petrobrás, mesmo tendo sido comprados por um valor mais baixo. Com isso, eles conquistam um lucro enorme. Mas isso demonstra um fracasso brutal do governo e da Agência Nacional do Petróleo [ANP], mostrando que a política de preços é absolutamente equivocada.

Você acredita que esse cenário foi agravado com a privatização da BR Distribuidora?

Sim, deveria ser instrumento de investigação essa entrega da BR Distribuidora. Como o governo vende o controle acionário de uma empresa de interesse estratégico como era a BR Distribuidora, que detinha mais de um terço do mercado brasileiro e, portanto, era instrumento de comportamento menos agressivo contra o interesse público? Isso demonstra a subserviência dos últimos governos ao capital privado.

O capital quer entrar em todos os setores, inclusive nas refinarias, mas não quer fazer novas refinarias. Eles querem adquirir por preços aviltados as refinarias e participar da logística. Esse quadro é grave, tem piorado e tende piorar ainda mais agora.

A solução para isso passa, obviamente, pela mobilização da população para transformar isso tudo. Não pode ser apenas setorial. Saúde, educação, infraestrutura, energia elétrica têm sido transformadas em detrimento dos interesses da população brasileira.

Nas últimas semanas, a Petrobrás anunciou dois documentos que ela denominou como “medidas de resiliência”, que incluem cortes de direitos trabalhistas, diminuição de investimentos e redução da produção em 200 mil barris diários. Qual a sua avaliação sobre essas medidas?

Reduzir a produção para não vender por esses preços aviltados me parece que não estão equivocados. Embora as razões pelas quais eles estão tomando essa decisão são sejam as mesmas pelas quais eu as faria. Mas, de fato, não há por que jogar petróleo no mercado agora. Também deveriam cobrar das demais petroleiras que estão operando aqui a mesma coisa. Não dá para vender o petróleo brasileiro, que pertence ao povo, a esse preço aviltado.

Quanto aos salários, o maior patrimônio da Petrobrás que, inclusive, gerou a grandeza dela, que descobriu o pré-sal, que construiu isso tudo, foi o conjunto dos seus trabalhadores. Desde os técnicos operacionais, das unidades de produção, aos cientistas e aos gestores. De maneira que é uma punição injusta e inaceitável. E por um outro motivo também, porque no momento que você está com queda econômica do país a solução é manter o poder aquisitivo de todos os trabalhadores, incluindo os da Petrobrás. Essa é uma medida completamente equivocada, que visa apenas sinalizar aos acionistas, que só veem o curto prazo. Uma ação subserviente da direção contra os interesses estratégicos da Petrobrás.

[Via Sindipetro Unificado-SP  | Foto: Guilherme Santos/Sul21]

Publicado em Petróleo

As assessorias técnicas do Dieese que atendem à FUP e ao Sindipetro Norte Fluminense analisaram os efeitos preliminares que a pandemia da Covid-19 podem ter sobre sistema de produção e as relações de trabalho no Sistema Petrobrás e nas demais empresas do setor de óleo e gás. 

"No Brasil, a Petrobrás tem adotado medidas draconianas para o trabalho offshore (produção de óleo e gás em plataformas em alto mar), trocando regimes de trabalho em vigor até então – de 14 dias embarcado em alto mar isolado em plataformas, seguidos por 21 dias de descanso (14x21) - por um novo regime, de 28x14, sendo 7 dias de quarentena sob análise médica e outros 21 dias embarcado em alto mar, seguidos por 14 dias  de descanso", alerta a nota técnica assinada por Cloviomar Cararine e Iderley Colombini.

"Este é um estudo preliminar, uma primeira tentativa de descrever e analisar o posicionamento das petroleiras e fornecer subsídios para fundamentar os debates presentes e futuros sobre a questão", ressaltam os pesquisadores, que se debruçaram sobre medidas tomadas por 12 petrolíferas nestas primeiras semanas de resistência à pandemia.

Além das ações adotadas pela gestão da Petrobrás, tanto em relação aos trabalhadores, quanto aos negócios da empresa, foram analisadas medidas tomadas pela Shell, Exxon Mobil, Total, BP, Equinor, Galp, ENI, Chevron, Perenco, Saudi Aramco e a chinesa CNOOC. 

"Apesar da adversidade internacional, no panorama interno do mercado de petróleo, o Brasil tem posição privilegiada no que se refere à capacidade de planejamento para o atendimento das necessidades da população com a utilização de um efetivo reduzido em relação ao contingente atual", destaca o estudo, ressaltando o "expressivo aumento da produção, em função dos campos de exploração do pré-sal, quanto da própria característica desse petróleo, muito mais adequado ao padrão técnico do parque de refino nacional".

"Considerando-se a atual dinâmica da produção nacional de petróleo, a queda dos preços internacionais e a demanda reduzida, a presença de uma grande empresa estatal - tanto na produção quanto no refino - possibilita ao país a realização de uma política estratégica voltada ao atendimento do mercado interno e à preservação de seus trabalhadores. É exatamente nesses momentos de crise que a importância estratégica de uma empresa nacional se faz presente. Seria possível manter a produção necessária para o consumo interno com efetivo reduzido, protegendo os trabalhadores desse setor essencial. Infelizmente, a Petrobrás age em direção oposta aos interesses públicos e nacionais. Realiza políticas de privatização dos campos maduros e das refinarias para atender apenas aos interesses financeiros internacionais dos seus acionistas privados e aproveita-se de um momento de pandemia para implementar, sem negociação com os sindicatos, mudanças importantes no regime e jornadas de trabalho que vão prejudicar ainda mais a vida dos trabalhadores", concluem os pesquisadores do Dieese.


Leia a íntegra do estudo:

Nota preliminar sobre os impactos da Covid-19 nas políticas de trabalho na produção de óleo e gás

O petróleo é essencial para a sociedade, mesmo em tempos de pandemia e de quarentena determinada por lei. Por isso, é fundamental que se resolva a seguinte equação: como dar continuidade à produção desse bem sem expor os trabalhadores a uma situação de risco ainda maior que a já vigente no setor de petróleo e gás, onde se realizam jornadas laborais extenuantes e arriscadas?

Apesar de ser um tema basilar, a questão está ausente da grande mídia, não se colocando, portanto, como preocupação para a sociedade e afligindo apenas os trabalhadores desse setor. No Brasil, a Petrobrás[1] tem adotado medidas draconianas para o trabalho offshore (produção de óleo e gás em plataformas em alto mar), trocando regimes de trabalho em vigor até então – de 14 dias embarcado em alto mar isolado em plataformas, seguidos por 21 dias de descanso (14x21) - por um novo regime, de 28x14, sendo 7 dias de quarentena sob análise médica e outros 21 dias embarcado em alto mar, seguidos por 14 dias  de descanso.

Em relação aos trabalhadores em atividades administrativas, a empresa intensificou o teletrabalho, formato que já havia implementado anteriormente em algumas situações específicas. Quanto aos trabalhadores em regime de turno, aproveitou o momento de crise para introduzir alterações na tabela que já vinha sendo alvo de discussão, aumentando a jornada nos turnos (de 8 para 12 horas) e reduzindo, em algumas refinarias, o número de equipes (de 5 para 4). As medidas foram tomadas unilateralmente, sem diálogo com os sindicatos, e não se colocaram como tema público e de debate social que exigiria a importância do setor para o país.

As consequências das mudanças na jornada e regimes de trabalho da Petrobrás não impactam apenas os seus trabalhadores e familiares. Sendo a maior empresa petroquímica do país, essas medidas podem se tornar parâmetro para centenas de empresas com as quais tem contratos e afetar dezenas de milhares de trabalhadores e trabalhadoras.

Neste breve estudo, busca-se analisar as medidas adotadas por grandes petrolíferas internacionais frente à pandemia da COVID-19, de modo a disponibilizar informações sobre as diversas opções para a realização da difícil tarefa de assegurar o fornecimento de um bem essencial em ambiente de alto risco e grande preocupação social. Diante da instabilidade provocada pela pandemia, as políticas das empresas têm mudado com frequência. Por isso, este é um estudo preliminar, uma primeira tentativa de descrever e analisar o posicionamento das petroleiras e fornecer subsídios para fundamentar os debates presentes e futuros sobre a questão. Com o avanço da pandemia, caso novas medidas venham a ser adotadas e tornadas públicas, análises adicionais serão realizadas, tomando como base este estudo inicial.

Comparação entre as políticas realizadas pelas petroleiras no mundo

A análise das medidas tomadas pelas grandes petroleiras internacionais mostra uma grande e principal diferença na forma de enfrentamento do problema pelos diversos países e empresas. Enquanto alguns tratam a questão como profundo dilema, considerando o contexto mais amplo de impactos sanitários, sociais e econômicos para a adoção de mudanças na produção, outros buscam simplesmente a forma de garantir a continuidade da produção e do pagamento dos dividendos para os acionistas.

Para a elaboração do quadro apresentado a seguir, utilizaram-se como fontes os anúncios divulgados pelas próprias empresas e os comunicados de organismos e instituições de pesquisa do setor. Procurou-se fornecer uma visão sintética das ações, buscando salientar os pontos principais das medidas implantadas.     

Tabela 1 – Comparação entre políticas adotadas pelas Petroleiras frente à COVID-19

Empresa

País

Setor Administrativo

Refinarias

Exploração & Produção

Petrobrás

Brasil

Teletrabalho

Aumento dos turnos, com redução das trocas

Exames médicos, introdução de jornada 28x14, quarentena de 7 dias antes do embarque

Total

França

Nenhuma notícia publicada no site francês e brasileiro

Galp

Portugal

Medidas de translado e avaliação de teletrabalho

Redução do efetivo e manutenção apenas de trabalhos essenciais

Redução do efetivo e manutenção apenas de trabalhos essenciais

ENI

(Ente Nazionale Idrocarburi S.p.A.)

Itália

Anúncio genérico sobre redução das atividades da empresa

Shell

Anglo-holandesa

Incentivo ao teletrabalho e restrições de viagens

 

Não haverá redução no efetivo, nem na produção

BP

Reino Unido

Teletrabalho

Protocolo de exames e isolamento, com turnos em equipes com contatos restritos

Protocolo de exames e isolamento, com turnos em equipes com contatos restritos

Equinor

Noruega

Teletrabalho, exames e quarentena

 

Protocolo de exames e isolamento, manutenção de jornadas, com redução efetivo e prioridades dos trabalhos estritamente necessários

Chevron

EUA

Teletrabalho, quarentena e restrição de viagens

Redução do efetivo e da produção, com protocolos de exames

Redução da produção e do efetivo, variando conforme regulações e tamanho da epidemia na região

ExxonMobil

EUA

Teletrabalho, quarentena e restrição de viagens

Redução de jornada e efetivo, com protocolo de exames

Plano de emergência, com funcionamento efetivo mínimo necessário

CNOOC

China

Teletrabalho, quarentena e restrição de viagens

Nenhuma notícia publicada nos sites

Perenco

França

Nenhuma notícia de política anunciada

Saudi Aramco

Arábia Saudita

Teletrabalho, quarentena e restrição de viagens

 

Protocolos de contingência, com exames e suporte médico

Fonte: sites das empresas e Offshore Technology Institute     Elaboração: DIEESE

A comparação entre as políticas adotadas pelas empresas petroleiras internacionais frente à pandemia da COVID-19 revela que a situação dos trabalhadores em funções administrativas é menos desfavorável que a dos trabalhadores na produção, uma vez que, para os administrativos, há a opção do trabalho em casa, com segurança e sem impactos significativos na extensão de sua jornada laboral.

Em compensação, os trabalhadores no refino e na exploração, não tendo a opção do trabalho em casa, ficam muito mais expostos e, em grande parte das vezes, se veem obrigados a alongar os turnos de trabalho, de forma a diminuir a circulação e os contatos com outros trabalhadores. Os trabalhadores offshore são os que apresentam a pior condição, dado que a ampliação de suas jornadas impõe o aumento de dias em alto mar e longe de suas famílias, situação ainda mais crítica em momento de grande apreensão social.

Nas refinarias, há um grande número de empresas que, em função da queda brusca do consumo, indicam primordialmente a redução do efetivo e da produção como política de combate à propagação da COVID-19, com suspensão de grande parte da produção e das viagens, tanto locais quanto internacionais. Há, ainda, as que, no âmbito da mudança do regime de trabalho, estabeleceram o trabalho em equipes isoladas.

Contudo, algumas empresas, como é o caso da Petrobrás e da Shell, não divulgaram em suas notas a redução do efetivo e da produção. Ao contrário, os posicionamentos que têm tornado públicos focam nos investidores e na garantia da produção. Ressalve-se que, dentre as medidas por elas tomadas, está o aumento do turno, com redução das trocas entre equipes.

No trabalho offshore parece estar a maior dificuldade para o estabelecimento de políticas de combate à propagação, dado o confinamento e maior interação natural que ocorre entre trabalhadores embarcados durante semanas. Por isso, a atitude adequada deveria ser a imediata redução na produção, como de fato algumas empresas declararam realizar em um cenário de recessão e de baixo preço internacional do petróleo. Muitas estabeleceram protocolos de exames, acompanhamento médico e turnos em equipes com contatos restritos, contudo, sem alteração formal dos regimes de trabalho.

A exceção nesse caso parece ser a Petrobrás, que impôs, sem diálogo com os sindicatos, um novo regime de trabalho. A empresa estatal brasileira implantou um regime de 7 dias de quarentena em hotel, com 21 dias de trabalho e 14 dias de descanso, no lugar do antigo regime de 14 dias de trabalho por 21 de descanso. Essa alteração, imposta de forma brusca e sem negociação, pode oferecer perigos adicionais aos trabalhadores, à sociedade e ao meio ambiente, devido ao extremo risco e tensão que envolve as operações de plataformas em alto mar, com o agravante de ocorrer em uma situação de grande preocupação social, em que os petroleiros ficarão 28 dias seguidos longe de seus familiares.

A alteração no regime de trabalho offshore da Petrobrás não afeta apenas os seus trabalhadores próprios. Sendo a maior empresa petroleira do país, responsável por centenas de contratos com prestadoras de serviços e terceirizadas, a estatal brasileira acaba por estabelecer um novo padrão de operação no Brasil, que terá impactos sobre as condições de trabalho de milhares de pessoas de outras empresas privadas. No caso dos trabalhadores em refinarias, a empresa está aproveitando o momento de crise para implementar mudanças nas jornadas e turnos após várias ações que vinha praticando para reduzir o número de trabalhadores e alterar as tabelas dos turnos, os horários e a duração da jornada – medidas sempre questionadas pelas entidades sindicais.

Mercado do petróleo e condições de trabalho – uma tentativa de conclusão

A análise das políticas das petroleiras para contornar o coronavírus indica caminhos divergentes: enquanto algumas empresas buscam redução da produção e do efetivo, com diminuição dos trabalhadores expostos, outras empresas buscam estratégias de manutenção da produção e das metas anteriormente estabelecidas, prolongando os turnos e as jornadas, provocando maior exposição e levando os trabalhadores à exaustão. Para além das empresas, essa tomada de decisão deve ser analisada no âmbito da política nacional, ou seja, da capacidade de produção e de demanda do país para alcançar o equilíbrio entre a necessidade de produção e a exposição dos trabalhadores. O caso brasileiro é singular nesse cenário, devido à existência de uma empresa estatal que pode articular exploração e refino no limite necessário para a demanda interna, sem necessidade de aumentar a jornada e arriscar a segurança dos trabalhadores.

Diante da crise gerada pela pandemia da COVID-19, o mercado mundial de petróleo foi um dos casos mais emblemáticos de queda dos preços, com acentuadas perdas nos valores das ações nas principais bolsas financeiras internacionais. A cotação do barril de petróleo tipo brent caiu de 60 dólares, em janeiro de 2020, para 25 dólares, em março, o que representa uma redução de 58%. Essa queda vertiginosa se deve tanto às novas previsões de drástica redução da demanda em razão da crise mundo afora, quanto às disputas geopolíticas entre os grandes produtores. Em fevereiro, Rússia e Arábia Saudita - dois dos maiores produtores mundiais -, em meio a uma disputa comercial pelo mercado europeu, não entraram em acordo para estabilização dos preços, o que resultou no aumento da oferta de petróleo no momento de retração da demanda. A combinação desses eventos explica a queda tão intensa nos preços.

A Agência Internacional de Energia (AIE), em estudo divulgado em março de 2020[2], apresentou novos dados sobre a previsão da redução mundial do mercado de petróleo, indicando a primeira redução na demanda mundial desde 2009. Segundo a Agência, a demanda nos primeiros dois meses de 2020 foi de 100 milhões de barris por dia, 90 mil a menos que a observada em igual período em 2019 e muito menor que a previsão anterior de aumento de 850 mil barris por dia. Para o restante do ano, a previsão pessimista da agência é de redução de 730 mil barris por dia.   

Apesar da adversidade internacional, no panorama interno do mercado de petróleo, o Brasil tem posição privilegiada no que se refere à capacidade de planejamento para o atendimento das necessidades da população com a utilização de um efetivo reduzido em relação ao contingente atual. Segundo dados da Agência Nacional de Petróleo, a produção brasileira teve um crescimento expressivo nos últimos anos, passando de 2 milhões de barris por dia de petróleo, em 2013, para 2,8 milhões, em 2019. Importante, ainda, salientar que a importação realizada pelo Brasil caiu substancialmente, indo de 405 mil barris por dia de petróleo, em 2013, para 189 mil barris, em 2019. A exportação, por outro lado, teve crescimento vertiginoso, passando de 381 mil barris dia, em 2013, para 1,1 milhão de barris dia, em 2019. Essa nova posição do país resulta tanto do expressivo aumento da produção, em função dos campos de exploração do pré-sal, quanto da própria característica desse petróleo, muito mais adequado ao padrão técnico do parque de refino nacional.

Considerando-se a atual dinâmica da produção nacional de petróleo, a queda dos preços internacionais e a demanda reduzida, a presença de uma grande empresa estatal - tanto na produção quanto no refino - possibilita ao país a realização de uma política estratégica voltada ao atendimento do mercado interno e à preservação de seus trabalhadores. É exatamente nesses momentos de crise que a importância estratégica de uma empresa nacional se faz presente. Seria possível manter a produção necessária para o consumo interno com efetivo reduzido, protegendo os trabalhadores desse setor essencial. Infelizmente, a Petrobrás age em direção oposta aos interesses públicos e nacionais. Realiza políticas de privatização dos campos maduros e das refinarias para atender apenas aos interesses financeiros internacionais dos seus acionistas privados e aproveita-se de um momento de pandemia para implementar, sem negociação com os sindicatos, mudanças importantes no regime e jornadas de trabalho que vão prejudicar ainda mais a vida dos trabalhadores.

[1] Segundo dados da ANP, a produção da Petrobrás de petróleo e gás representa 93,3% da produção total do país. No refino, a produção da Petrobrás equivale a 98% do total da produção nacional. 

[2] IEA. Global oil demand to decline in 2020 as coronavirus weighs heavily on markets. New, March 9, 2020. In: https://www.iea.org/news/global-oil-demand-to-decline-in-2020-as-coronavirus-weighs-heavily-on-markets

Publicado em Petróleo

Por Isadora Coutinho e Sérgio Trabali Neto, pesquisadores do INEEP


Há possibilidades de que o setor petróleo melhore as condições socioeconômicas deste país com baixo grau de desenvolvimento no médio prazo. De todo modo, alguns obstáculos e desafios que o país terá de enfrentar nos próximos anos devem ser considerados. Dentre eles, questões relacionadas à instabilidade política e à administração governamental das receitas petrolíferas, à baixa experiência em regulamentação de uma indústria petrolífera ou em negociação com empresas internacionais, além da falta de infraestrutura necessária para sustentar um cenário de boom do petróleo. 

A Guiana tem se destacado como fronteira promissora de exploração e produção de petróleo na América do Sul, em razão das descobertas offshore realizadas em seu território desde 2015. No final de 2019, a descoberta de petróleo no bloco Stabroek no sudeste do campo de Liza, anunciada pela petrolífera ExxonMobil, foi mais um marco desse processo. Essa descoberta acrescenta mais de 6 bilhões de barris equivalentes de óleo aos reservatórios daquele bloco. 

No mesmo mês, no bloco Stabroek no campo de Liza, a primeira produção de petróleo na história do país foi iniciada pelo FPSO Liza Destiny. A plataforma que deve atingir sua capacidade total de 120 mil barris por dia nos próximos meses. Um segundo FPSO está em construção para poder entrar em operação por volta de 2022, com intuito de produzir 220 mil barris/dia. Operadora do bloco, a ExxonMobil (45%) tem como sócias a estadunidense Hess Corp. (30%) e a chinesa CNOOC (25%). 

O presidente da ExxonMobil, Darren Woods, declarou que a Guiana assumiu uma posição estratégica no portfólio de investimentos da empresa. Exemplo disso foi o anúncio da petrolífera de um investimento de US$ 200 bilhões em projetos de óleo e gás pelo mundo nos próximos sete anos. Segundo o relatório financeiro publicado em 2018, as principais áreas de investimento estão localizadas na Guiana, na Bacia do Permiano e no Brasil. 

5 milhões até 2025

Desse modo, a Guiana surge como um dos projetos de desenvolvimento mais importantes da Exxon, sendo fundamental para o objetivo da petrolífera de atingir 5 milhões de barris de produção de óleo equivalente até 2025. De acordo com o vice-presidente de Exploração e Novos Empreendimentos da ExxonMobil, Mike Cousins, há ainda a possibilidade de lançarem novos projetos de desenvolvimento no bloco Stabroek, prevendo atualmente uma produção no local de mais de 750 mil barris por dia até 2025. 

Outras empresas petrolíferas estão interessadas na costa da Guiana. A britânica Tullow Oil, a francesa Total e a canadense Eco Atlantic Oil & Gas também estão envolvidas na exploração de petróleo na Guiana, tendo descoberto em setembro de 2019 um novo poço no bloco Orinduik. Neste, a britânica é operadora e conta com 60% de participação, enquanto a francesa possui 25% e a canadense,15%. Já em janeiro de 2020, a Tullow Oil fez nova descoberta no bloco Kanuku, com 37,5% de participação, mesma porcentagem que a espanhola Repsol, operadora do bloco. A Total também participa com os 25% restantes. 

Alguns estudos geológicos sugerem que a quantidade de reservas ainda pode aumentar nos próximos anos, gerando um clima de muito otimismo em relação à produção petrolífera no país. Com uma população de 780 mil habitantes, a Guiana já possui mais de 3,9 mil barris de petróleo por dia por pessoa, índice superior ao dos Emirados Árabes Unidos, da Noruega e da Arábia Saudita. De acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI), a economia do país deve crescer 86,5% em 2020 em função do setor petrolífero, o qual vai representar cerca de 40% da economia em cinco anos.

Foto: Foto: Andrey Rudakov/Repdrodução Le Monde Diplomatique

Melhorias

Há possibilidades de que o setor petróleo melhore as condições socioeconômicas deste país com baixo grau de desenvolvimento no médio prazo. De todo modo, alguns obstáculos e desafios que o país terá de enfrentar nos próximos anos devem ser considerados. Dentre eles, questões relacionadas à instabilidade política e à administração governamental das receitas petrolíferas, à baixa experiência em regulamentação de uma indústria petrolífera ou em negociação com empresas internacionais, além da falta de infraestrutura necessária para sustentar um cenário de boom do petróleo. 

Chama a atenção o fato de o país não possuir uma empresa petrolífera nacional e nem mesmo refinaria. Sem previsões de que haja mudança nesse quadro, a Guiana se mantém dependente da atuação das companhias multinacionais estrangeiras. A Exxon, por exemplo, conta com um contrato de exploração e produção bastante generoso e favorável à empresa: inicialmente, os termos do contrato assinado em 1999 nem mesmo previam o pagamento de royalties ao Estado guianense. Revisado em 2016, o contrato prevê ao país uma taxa de 2% de royalties e uma retenção de menos de 54% de receitas do setor, o que é menos do que costuma ocorrer em contratos comparáveis. 

Ainda assim, à época, houve resistência da Exxon para mudar os termos do contrato. Já em 2019, o diretor do Departamento de Energia do país, Mark Bynoe, anunciou que a Guiana está planejando aumentar a porcentagem dos royalties de 2% para 5% em contratos futuros. Esses episódios sugerem que o país enfrentará dificuldades para se apropriar da riqueza gerada pelo petróleo. Isso se agrava quando se considera que a Guiana é altamente dependente da atuação de operadoras estrangeiras para explorar as gigantescas reservas descobertas em território nacional. 

Fundo soberano

Nessa mesma linha, é também sugestivo o fato de que, enquanto as grandes empresas estrangeiras avançam rapidamente sobre o território guianense, o país ainda está pensando em como criar um fundo soberano para guiar o direcionamento e investimento das receitas advindas do petróleo. 

Junto à ausência de uma regulação mais favorável à apropriação da renda petrolífera e de uma empresa nacional para explorar as reservas recém descobertas, a inexistente política energética autônoma deve limitar os benefícios econômicos para a sociedade guianense.

Ao observar essa conjuntura, não se pode deixar de salientar que decisões relacionadas às questões regulatórias, institucionais e estratégicas do setor de petróleo no país devem considerar também a dimensão geopolítica. As recentes descobertas e o início da produção de petróleo no país aumentam a relevância estratégica da região, demonstrando a importância do continente sul-americano como fornecedor para os mercados mundiais de petróleo. Reforçando, desse modo, a tese de reposicionamento da América do Sul na indústria petrolífera mundial, atrás da Venezuela e do Brasil em termos de reservas estimadas, a Guiana desponta enquanto nova fronteira de exploração e produção de petróleo, garantindo maior visibilidade mundial à sua costa e, desse modo, o interesse das empresas petrolíferas estrangeiras nas potencialidades ali existentes.

[Via Ineep | Artigo publicado originalmente no jornal Le Monde Diplomatique]

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