O governo do Irã enviou cinco navios petroleiros à Venezuela, com 1,5 milhão de barris de gasolina, um carregamento estimado em 45,5 milhões de dólares com combustíveis e reagentes químicos usados no refino do petróleo. 

No entanto, o governo de Donald Trump, que impõe sanções econômicas tanto ao Irã, quanto à Venezuela, sinalizou que tentaria interceptar as embarcações, que partiram da costa de Bandar Abbas no dia 12 de maio. 

Em plena pandemia, o país sul-americano sofre com a escassez de gasolina, o que agravou a profunda crise econômica e humanitária que o país enfrenta, levando o governo de Nicolás Maduro a firmar um acordo com o Irã para obter combustível.

Há anos, a Casa Branca impõe uma política de sanções à Venezuela, na tentativa de forçar a queda de Maduro, com medidas que proíbem, por exemplo, a realização de negócios com a PDVSA, a petrolífera estatal venezuelana. E é exatamente isso que o governo iraniano, também sujeito a sanções dos EUA, está tentando fazer. 

Para garantir a chegada dos navios petroleiros, o governo de Nicolás Maduro anunciou que fará a escolta das embarcações iranianas, assim que entrarem na zona econômica exclusiva da costa do país. 

Segundo agências internacionais de notícias, as Forças Armadas da Venezuela realizaram testes de mísseis na quinta-feira, 21, em La Orchila, uma ilha no norte do país do Caribe.

 Irã e Venezuela se unem contra Trump

A Venezuela tem capacidade de refinar cerca de 1,3 milhão de barris por dia, mas o parque de refino depende de óleo leve para produzir gasolina. As importações que o país fazia por meio de sua subsidiária nos Estados Unidos, a Citgo, foram bloqueadas desde o início do ano passado, quando o governo de Donald Trump proibiu o comércio de petróleo com o país.

É também na Venezuela que se se encontra a maior reserva do combustível fóssil da atualidade, com 309 bilhões de barris de petróleo certificados. O Irã, por sua vez, é o sétimo maior produtor de petróleo do mundo, com uma produção de 1,9 milhão de barris diários, de acordo com a Organização de Países Exportadores de Petróleo (OPEP). 

As duas nações mantêm relações diplomáticas há 18 anos, com acordos nas áreas petrolífera, industrial, ambiental, educacional, agrícola e científica. 

Em abril, os presidentes Nicolás Maduro e Hassan Rohani acordaram criar uma frente comum contra as sanções, aplicadas pelos Estados Unidos e pela União Europeia, durante a pandemia. 

[FUP, com informações de agências internacionais de notícia | Foto: Federico Parra/AFP]

Publicado em Petróleo

A Assembleia Internacional dos Povos (AIP) foi inaugurada no domingo (24/02) na capital venezuelana, Caracas, com a participação de mais de 400 delegados de 85 países diferentes. Organizado por movimentos populares de todos os continentes, o evento ocorre em meio à tentativa frustrada de golpe contra o presidente eleito Nicolás Maduro pelo opositor Juan Guaidó, com apoio de países como Estados Unidos e Brasil.

Stedile esclareceu os objetivos da articulação em torno da AIP, que envolve organizações de mais de 130 países de todo o mundo. “Aprendemos, com o intercâmbio que fizemos para construir esse processo internacional, que compartilhamos sonhos com todos os que estão aqui. Precisamos construir unidade através de uma reforma programática, e o estamos fazendo muito bem. Todas as formas nas quais o povo se organiza são importantes, seja associações, movimentos, partidos, sindicatos, igrejas”, ressaltou o dirigente brasileiro. 

A mesa de abertura teve a participação de João Pedro Stedile, dirigente do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e da Via Campesina Internacional, e da prefeita de Caracas, Érika Farías, além do diretor do Instituto Tricontinental, Vijay Prashad, e da representante do projeto Educação Popular dos Estados Unidos, Claudia de la Cruz. 

Stedile esclareceu os objetivos da articulação em torno da AIP, que envolve organizações de mais de 130 países de todo o mundo. “Aprendemos, com o intercâmbio que fizemos para construir esse processo internacional, que compartilhamos sonhos com todos os que estão aqui. Precisamos construir unidade através de uma reforma programática, e o estamos fazendo muito bem. Todas as formas nas quais o povo se organiza são importantes, seja associações, movimentos, partidos, sindicatos, igrejas”, ressaltou o dirigente brasileiro. 

O avanço dos governos de direita e extrema direita na América Latina e no mundo são o prncipal foco dos debates da Assembleia Internacional dos Povos. 

Uma mesa de discussão será destinada a discutir especificamente a atual situação política e econômica na Venezuela e a resistência à ofensiva que começou em 2015 – quando foram realizadas eleições para os 167 deputados e deputadas da Assembleia Nacional venezuelana. Na ocasião, a oposição ao governo Maduro conquistou ampla maioria, e por somente quatro deputados não conseguiu a maioria qualificada de dois terços dos postos, necessária para a aprovação de emendas constitucionais. Ainda assim, com a Assembleia sob controle dos partidos de oposição, quatro deputados não eleitos foram empossados, o que gerou a imediata reação do Judiciário, que suspendeu algumas das atribuições do Legislativo.

Por conta dessa decisão judicial, em 2017, grupos opositores tomaram as ruas do país e promoveram ataques violentos contra pessoas e edifícios públicos – as ações ficaram conhecidas como “guarimbas”. Diante desse cenário, o governo venezuelano convocou uma mesa de diálogo, realizada na capital da República Dominicana, Santo Domingo. 

Embora o governo venezuelano tenha atendido a quase todas as reivindicações dos grupos opositores, estes decidiram abandonar a mesa de diálogo, sob protestos dos mediadores – entre eles, o ex-primeiro-ministro espanhol, José Luiz Rodríguez Zapatero. Maduro, então, convocou a eleição para uma Assembleia Nacional Constituinte, com o objetivo de renovar os poderes do país e frear a onda de violência. 

A eleição para a Assembleia Constituinte foi realizada no dia 30 de julho de 2017. No dia 20 de maio do ano seguinte, foi realizada a eleição para presidente da República. Embora muitos setores da oposição tenham decidido voluntariamente não participar do pleito e convocado à abstenção, a eleição teve a participação de 46% do eleitorado, resultando vitorioso o presidente Maduro com 67,84% dos votos, que renovou o mandato por mais seis anos. 

Insatisfeitos com o resultado, países governados pela direita, principalmente a gestão de Donald Trump, nos Estados Unidos, decidiram intensificar as pressões sobre a Venezuela por meio de bloqueios de bens e divisas no exterior, provocando uma crise econômica sem precedentes no país. No dia 10 de janeiro de 2019, o deputado da Assembleia Nacional, Juan Guaidó, se autoproclamou presidente interino do país, desconhecendo o processo eleitoral que elegeu Nicolás Maduro. 

A legitimidade de Guaidó foi reconhecida por governos de direita em uma ação articulada por Trump em janeiro. As Forças Armadas, bem como os máximos representantes do Judiciário da Venezuela, reconhecem a autoridade de Nicolás Maduro como presidente legítimo, eleito pelo voto popular.

Os dirigentes da FUP, Cibele Vieira e Alexandre Finamori, acompanharam de perto as mobilizações do povo venezuelano e seguem participando da Assembleia dos Povos, que prossegue até quarta, 27. Veja o vídeo com o depoimento de Cibele:


Povo venezuelano resiste

O fim de semana foi marcado por tensões na fronteira da Venezuela com a Colômbia, onde manifestantes contrários ao governo bolivariano tentaram forçar a entrada de “ajuda humanitária” dos Estados Unidos em território venezuelano. O governo de Nicolás Maduro acusa a ação de ser uma tentativa de infiltrar um “cavalo de troia” no país para abrir caminho a uma intervenção militar. Após horas de conflito, o plano de Guaidó de furar o bloqueio venezuelano fracassou.

"Todos contribuíram, desde as mulheres que ontem no combate foram, em meio ao palco do conflito, levar água com limão para nossos soldados [para ajudá-los a enfrentar o calor seco da região], até as mulheres e homens que resistiram a mais de 15 horas de enfrentamentos, de ataques paramilitares, de ameaças”, afirmou o representante do governo nacional no estado venezuelano de Táchira, Freddy Bernal.

Ele se refere aos 1.500 civis venezuelanos que se uniram aos agentes militares na fronteira com a Colômbia para evitar que opositores de Maduro furassem o bloqueio e entrassem no país com uma suposta ajuda humanitária vinda dos Estados Unidos. Segundo o governo colombiano, o carregamento incluía 90 toneladas de alimentos.

A subserviência do governo Bolsonaro

Em entrevista ao jornal Valor nesta terça-feiram 26, o ex-chanceler e ex-ministro da Defesa Celso Amorim faz uma análise multilateral da crise na Venezuela e do comportamento dos principais atores externos. Segundo ele, "os militares (...) veem com muita restrição a maneira como o Itamaraty está agindo" e "graças a eles, o Brasil não se precipitou nesse conflito". Amorin critica os Estados Unidos por utilizar a doação de "ajuda humanitária" como pretexto para desencadear uma ação militar intervencionista contra o país sul-americano. "Tudo vinha sendo feito para colocar uma eventual ação armada sob a capa de intervenção humanitária, que poderia dar alguma legitimidade à intervenção", explica.  "Hoje no Itamaraty o conceito não é mais o de soberania frente aos Estados Unidos, ou frente à China. É a soberania frente aos organismos multinacionais, o que é a mesma visão dos Estados Unidos. Você pode entender que o país mais poderoso do mundo não queira amarras, mas não é o caso do Brasil. Não pode atacar o sistema multilateral como ataca", critica o ex-chanceler. Leia a íntegra da entrevista.

Já o o jornalista Gilvandro Silva, em artigo no Brasil 247, afirmou que "além de não ter dado em absolutamente nada, em termos práticos, o papel do Brasil na tentativa de intervenção americana na Venezuela está sendo um fiasco do ponto de vista político". "A participação desnecessária e sem sentido, além de subserviente, expõe, mais uma vez, o Brasil a um vexame planetário. O mundo inteiro está nos vendo como um país ajoelhado e nu diante dos Estados Unidos, único interessado nessa patifaria que se comete contra um país que elegeu o seu governo de forma legítima. Um país cujo pecado é ser potencialmente rico em razão de suas reservas milionárias de petróleo, alvo único da ira de Donald Trump e seus miquinhos amestrados brasileiros e colombianos", afirmou.

"Não é preciso ser defensor do governo de Nicolás Maduro para repudiar, com veemência, a intromissão absurda e criminosa dos governos dos Estados Unidos, da Colômbia e do Brasil nos assuntos internos da Venezuela", declarou também o cientista político Aldo Fornazieli. "A farsa da ajuda humanitária ficou desnudada. Tratava-se de um ardil, de uma emboscada, para promover um golpe interno por meio de uma ação externa, visando derrubar o governo venezuelano e instalar um governo ilegítimo e golpista de Juan Guaidó", destacou.

[Com informações da Opera Mundi , do Brasil de Fato, do Brasil 247  e do Valor]

Publicado em Movimentos Sociais

A União Europeia posicionou-se na manhã desta segunda-feira (25) contra a intervenção militar na Venezuela, defendida pelo governo dos EUA, pelo governo da Colômbia e pelo clã Bolsonaro. "A posição da União Europeia neste contexto é muito clara: é preciso evitar a intervenção militar", afirmou a porta-voz da diplomacia europeia, Maja Kocijancic. 

Segundo a porta-voz, a União Europeia quer uma saída "pacífica, política e democrática” para a crise, o que “exclui a violência”, informa a HispanTV.

Representantes de 13 dos 14 países do Grupo de Lima, com exceção do México, se reúnem em Bogotá para discutir a crise na Venezuela. Apesar de os Estados Unidos não participarem oficialmente como país membro do bloco, representantes do governo Trump vêm acompanhando as reuniões – desta vez com a presença do vice-presidente estadunidense Mike Pence. 

Manifestada poucas horas da reunião do Grupo de Lima em Bogotá, a posição da União Europeia é ainda mais relevante. O chefe da Assembleia Nacional da Venezuela, Juan Guaidó, que se autoproclamou presidente do país, compareceu ao encontro para defender que a América Latina apoie a opção militar.

A posição da União Europeia isola a tríplice aliança entre o governo americano (Trump), o colombiano (Duque) e o clã Bolsonaro, que sequer representa a posição unificada do governo brasileiro. Enquanto Jair e seus filhos acompanham Trump e batem o tambor da guerra, com o sempre obediente Ernesto Araújo às ordens, os militares que comandam o governo rejeitam, segundo o vice-presidente Hamilton Mourão, uma intervenção no país vizinho.

A senha para a intervenção foi dada sábado por um Juan Guaidó derrotado depois que o projeto de invasão do território venezuelano com a fantasia de "ajuda humanitária" fracassou e o presidente eleito da Venezuela, Maduro sagrou-se vencedor do "Dia D", como a extrema-direita denominou o dia 23 de fevereiro e abandonou a denominação assim que sua derrota tornou-se clara. 

Derrotado e isolado em seu país, ele apela diretamente ao império para que invada seu país. Por isso, foi qualificado por Maduro no sábado como "traidor".  

Povo venezuelano resiste

O fim de semana foi marcado por tensões na fronteira da Venezuela com a Colômbia, onde manifestantes contrários ao governo bolivariano tentaram forçar a entrada de “ajuda humanitária” dos Estados Unidos em território venezuelano. O governo de Nicolás Maduro acusa a ação de ser uma tentativa de infiltrar um “cavalo de troia” no país para abrir caminho a uma intervenção militar. Após horas de conflito, o plano de Guaidó de furar o bloqueio venezuelano fracassou.

"Todos contribuíram, desde as mulheres que ontem no combate foram, em meio ao palco do conflito, levar água com limão para nossos soldados [para ajudá-los a enfrentar o calor seco da região], até as mulheres e homens que resistiram a mais de 15 horas de enfrentamentos, de ataques paramilitares, de ameaças”, afirmou o representante do governo nacional no estado venezuelano de Táchira, Freddy Bernal.

Ele se refere aos 1.500 civis venezuelanos que se uniram aos agentes militares na fronteira com a Colômbia para evitar que opositores de Maduro furassem o bloqueio e entrassem no país com uma suposta ajuda humanitária vinda dos Estados Unidos. Segundo o governo colombiano, o carregamento incluía 90 toneladas de alimentos.

Os dirigentes da FUP, Cibele Vieira e Alexandre Finamori, participam na Venezuela da Assembleia Internacional dos Povos (AIP), junto com delegações de 85 países. O encontro teve início no domingo, 24, e prossegue até 27 de fevereiro.  

A subserviência do governo Bolsonaro

"Além de não ter dado em absolutamente nada, em termos práticos, o papel do Brasil na tentativa de intervenção americana na Venezuela está sendo um fiasco do ponto de vista político. A participação desnecessária e sem sentido, além de subserviente, expõe, mais uma vez, o Brasil a um vexame planetário. O mundo inteiro está nos vendo como um país ajoelhado e nu diante dos Estados Unidos, único interessado nessa patifaria que se comete contra um país que elegeu o seu governo de forma legítima. Um país cujo pecado é ser potencialmente rico em razão de suas reservas milionárias de petróleo, alvo único da ira de Donald Trump e seus miquinhos amestrados brasileiros e colombianos", afirmou o jornalista Gilvandro Silva, em artigo no Brasil 247.

"Não é preciso ser defensor do governo de Nicolás Maduro para repudiar, com veemência, a intromissão absurda e criminosa dos governos dos Estados Unidos, da Colômbia e do Brasil nos assuntos internos da Venezuela", declarou o cientista político Aldo Fornazieli. "A farsa da ajuda humanitária ficou desnudada. Tratava-se de um ardil, de uma emboscada, para promover um golpe interno por meio de uma ação externa, visando derrubar o governo venezuelano e instalar um governo ilegítimo e golpista de Juan Guaidó", destacou.

[Com informações do Brasil 247 e do jornal Brasil de Fato]

Publicado em Política
Sexta, 22 Fevereiro 2019 15:26

Notas para debater a crise da Venezuela

João Pedro Stedile, membro da coordenação nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), escreve alguns apontamentos para ajudar a entender a crise geopolítica na Venezuela e a ofensiva dos Estados Unidos para desestabilizar o projeto bolivariano.

1. Há uma crise internacional do modo de produção capitalista que vem se aprofundando desde 2008. A hegemonia do capital financeiro estabelece que apenas as grandes corporações e os bancos acumulem; ao contrário disso, as economias dos países se mantêm à margem e as populações, em especial os trabalhadores, pagam com mais desemprego, aumento da desigualdade, migrações, conflitos sociais e perda de direitos, além da diminuição dos serviços públicos básicos de educação, saúde, moradia, etc.

2. Com a eclosão da crise econômica, os governos construídos em pactos de conciliação de classe e estabilidade política não conseguem mais se sustentar, porque o Estado e suas finanças se transformam em disputa das classes.

3. Há também uma crise da chamada democracia formal burguesa. As eleições e seus governos não conseguem mais representar os interesses reais da maioria da sociedade, porque suas vitórias são fraudulentas, manipuladas e custeadas a base de milhões. Dessa maneira, como reflexo dessa crise, a população não acredita mais nos políticos e no regime de representação formal.

4. Diante desse contexto internacional, o capital dominante, por meio das corporações e bancos, volta-se prioritariamente para a apropriação privada dos recursos da natureza: petróleo, minérios, água, árvores, biodiversidade e energia, como forma de obter altas taxas de lucro e, proveniente dessa renda extraordinária, voltar a acumular e a crescer. No entanto, nem todos os capitalistas: apenas aqueles que se apropriarem dos bens da natureza, que eram comuns, que não foram produzidos pelo trabalho e, ao se transformarem em mercadorias, adquirem um preço com uma renda fantástica.

5. Na disputa internacional por mercados e bens naturais, desenhou-se uma nova correlação de forças entre os Estados Unidos, a Europa Ocidental, a Eurásia (Rússia, Irã, China). Essas economias disputam entre si a apropriação de bens da natureza e os mercados. Isso levou a que os capitalistas dos EUA aumentassem suas pressões sobre a América Latina, para mantê-la como território refém de seus interesses, seu "pátio traseiro", como costumam nos chamar, e, assim, têm acesso a bens e mercados e se contrapõem em melhores condições frente a seus concorrentes internacionais.

6. No mundo da política e da ideologia, as crises fizeram emergir no mundo todo novas forças burguesas de ultradireita. Essas forças reacionárias se constroem ideologicamente com novos inimigos: os migrantes, os direitos dos trabalhadores, os costumes, a cultura, etc.

7. Infelizmente essas forças de ultradireita conquistaram, pelo voto, alguns governos, como o governo Donald Trump nos Estados Unidos; Itália, Hungria e Andaluzia na Europa; e na Índia e nas Filipinas na Ásia. Aqui na América Latina, conquistaram os governos de Argentina, Brasil, Paraguai, Chile, Peru e El Salvador.

8. Para vencer as eleições, as forças de ultradireita não expõem seus projetos e concepções ideológicas, porque sabem que não há apoio da maioria da população, então passam a manipular a opinião pública, com o uso intensivo da internet, da produção de mentiras sistematicamente contra a esquerda e os setores progressistas. Ainda se utilizam das igrejas pentecostais para iludir as populações mais pobres que delas são dependentes.

9. Tudo isso aconteceu também na crise da década de 1930, quando os capitalistas se utilizaram do discurso nacionalista e das ideias fascistas para controlar os governos e saírem da crise. E se utilizaram das guerras mundiais para disputar mercado e eliminar meios de produção com o custo de milhões de vidas humanas.

10. É neste contexto que se pode entender as derrotas de governos progressistas na América Latina, que atuavam em conciliação de classes e, embora não se tratasse de nenhum governo revolucionário, foram desalojados pelas burguesias com quem estavam aliados.

11. Assim, precisamos analisar a ofensiva política, ideológica e agora militar do capital dos Estados Unidos sobre a Venezuela para controlar de forma privada e internacional suas reservas de petróleo. A Venezuela tem as maiores reservas de petróleo do mundo e as mais próximas do mercado americano. Nenhum outro país ou território do mundo poderia garantir e ampliar o acesso a petróleo para os Estados Unidos.

12. Além do quê, todos os analistas preveem, por tudo isso, que os preços do petróleo devem voltar a margens superiores a cem dólares ao barril nos próximos dois anos, chegando já a 70 dólares o barril no final de 2019. Isso permitirá, para quem controlar as reservas, uma fantástica renda petroleira.

13. O povo da Venezuela está enfrentando essa guerra há vinte anose, agora, aproxima-se uma nova etapa, que pode se transformar em um conflito militar.

14. Nesses anos desde que Hugo Chávez ganhou as eleições em 1998 e tomou posse em 1999, há um cenário permanente de ataque dos capitalistas venezuelanos e internacionais ao processo de mudança econômica e social na Venezuela. Poderiam até admitir um militar governando a Venezuela, como tantos fizeram na América Latina, porém não admitiram nunca que o petróleo passasse a ser utilizado como um bem fundamental para a reestruturação da economia venezuelana, para financiar a distribuição de renda e a solução dos problemas estruturais da população: moradia, saúde, educação, transporte público e infraestrutura social.

15. Nesses anos todos, os capitalistas do norte e o governo estadunidense aplicaram toda sua experiência histórica que haviam utilizado em outros países para tentar derrubar o governo e o processo bolivariano em curso.

16. Primeiro, tentaram construir um governo de composição de classe com Chávez, propondo políticas econômicas neoliberais. Indicaram ministros e um presidente do Banco Central. Não funcionou. Chávez respondeu com a convocação de uma Assembleia Constituinte e a redação de uma nova Constituição, que devolveu ao povo, e não aos partidos conservadores, a soberania do poder politico e dos destinos da nação.

17. Depois, apelaram para um golpe de Estado clássico, como fizeram em tantos países. Sequestraram o presidente Hugo Chávez do Palácio Miraflores, colocaram em seu lugar um empresário de presidente. Diante desse fato, o povo deu a resposta, cercou o palácio e, em 48 horas, o golpe foi derrotado pelo povo e por um grupo importante de cadetes e novos militares que entraram no serviço militar com uma formação bolivariana. Esse momento é de muita importância, pois marca a união cívico-militar desse novo momento que será fator de grande importância no desenvolvimento da revolução bolivariana, já que parte do alto mando das forcas armadas estava apoiando o golpe, por suas relações históricas com a oligarquia local.

18. Os empresários que ainda estavam na empresa petroleira PDVSAcomandaram uma greve geral petroleira, paralisando todas as atividades e provocando o caos no país, causando um clima de desestabilidade social. O governo consegue, junto com os trabalhadores, reverter esse processo e promover uma grande renovação na estrutura da empresa, reorganizando o comando entre o governo e os trabalhadores.

19. Aplicaram, então, a tática chilena. Especulação com certos produtos para gerar pânico na população, esconder produtos que iam desde farinha até medicamentos ou bens com muito apelo popular, como papel higiênico, açúcar, leite, café e pasta de dente. O governo usou as reservas de petróleo para compras estatais e distribuição desses bens básicos para a população.

20. Passaram, então, para a tática ucraniana, do terrorismo público nas ruas com a prática das guarimbas, em que jovens pequeno-burgueses ou lúmpens, pagos em dólar, bloqueavam rodovias, queimavam locais simbólicos, jogavam bombas incendiárias em escolas infantis, hospitais e até bases militares, etc. Mais uma vez, não funcionou, e o povo enfrentou o terrorismo e derrotou as guarimbas.

21. Tentaram subverter e ganhar oficiais das forças armadas para seu projeto, compraram alguns, mas não conseguiram o levantamento e a divisão militar. Mesmo porque todos os militares que eles conseguiram comprar estão fora da Venezuela, o que significa dizer sem base de influência concreta.

22. Acusaram sistematicamente o governo venezuelano de ser ditador, tanto Chávez quanto agora também Maduro. No entanto, a oposição participou de 25 eleições, em vinte anos elegeram diversos governadores, prefeitos e deputados, fazem comícios em praça pública e controlam a maior parte dos meios de comunicação de massa. Como justificar que se trata de uma ditadura? Em nenhum país ocidental há condições semelhantes. Por outro lado, o processo eleitoral, com urnas eletrônicas e comprovante impresso se transformou no processo mais transparente existente comprovado por diversas fundações dos Estados Unidos que fiscalizaram as últimas eleições.

23. Nos últimos meses, intensificaram o bloqueio econômico para evitar que cheguem mercadorias do exterior - sendo uma economia petroleira, a Venezuela ainda é muito dependente de bens produzidos no exterior. E mais do que tudo, operam abertamente com a manipulação do câmbio na cotação do dólar com o bolívar, desde um portal inexplicável instalado em Miami. Sintomaticamente, a burguesia local, toma como referência esse portal, sem nenhuma base econômica real para especular com o dólar, que agora virou mais que uma moeda, virou uma mercadoria. Porém uma mercadoria que é referência para todas as demais.

24. Impulsaram uma campanha de estímulo e motivação para que milhares de pessoas saíssem do país com promessas de emprego e futuro risonho. Mais de 30% dos que saíram já retornaram ao país desiludidos, recebendo apoio do governo para retornarem. Ainda que a migração não seja um problema de venezuelanos, já que vivem no país mais de 5 milhões de colombianos, milhares de haitianos e também milhares de europeus que chegaram no boom do petróleo da década de 1970, como espanhóis, italianos, portugueses e também libaneses.

25. A tese de exigir novas eleições não tem paralelo na história das democracias burguesas modernas. Só porque a direita perdeu as eleições para Maduro, fiscalizadas por centenas de autoridades de todo mundo, então deve-se convocar novas eleições? Por quê? Não há base legal e moral para destituir um governo legítimo como foi eleito. Ou a mesma tese poderia se aplicar contra Bolsonaro, Macri? E sobre os mesmos deputados da Assembleia Nacional que quer destituir Maduro, foram eleitos pelo mesmo sistema.

26. Agora, entramos na etapa derradeira. O governo de Trump, encurtando-se, tem ainda menos de dois anos e deve perder as próximas eleições. O preço do petróleo tende a subir e, com a necessidade ideológica de barrar os governos progressistas e de esquerda, eles precisam derrubar Maduro. Como disse Trump: "primeiro vamos derrubar o governo Maduro, depois virá Cuba, Nicarágua", etc.

27. Antes de iniciar a fase de maior ofensiva externa, o governo Trump tentou criar as condições internas de desestabilização econômica e política, nomeando Guaidó, desconhecido das forças políticas do país e, inclusive, não representativo das forças burguesas de oposição, como sendo o novo governo legítimo. Ou seja, trataram de dar um golpe constitucional, porém ilegal. Repetindo a fórmula utilizada contra o presidente [Fernando] Lugo [do Paraguai], contra o presidente [Manuel] Zelaya [de Honduras] e contra a presidenta Dilma [Rousseff].

28. E essa nova etapa pode chegar a uma invasão militar. Criaram um governo fantoche, que nem sequer é conhecido no país, totalmente à margem de qualquer eleição ou legalidade. E agora, bastaria aumentar o cerco, a pressão internacional e, quem sabe, uma intervenção cirúrgica.

29. Porém essa tática derradeira depende de muitas variáveis. A sociedade americana não aceitaria perder seus soldados numa guerra injustificável, e então teriam que usar forças da OEA [Organização dos Estados Americanos]. Mas, na OEA, fizeram apenas 16 dos 34 votos. E não tiveram maioria nem autorização para uma invasão legalizada pela OEA. Tentaram no Conselho de Segurança da ONU [Organização das Nações Unidas], que também lhes negou direito para invadir a Venezuela, com os bloqueios da Rússia, China e outros países. Sobrariam as forças armadas da Colômbia e do Brasil, e não parece ser fácil sua adesão, com consequências para a política interna e a disposição política das forças armadas destes países.

30. A última tática seria, então, uma intervenção militar cirúrgica, por aviação, como fizeram na Iugoslávia, Ucrânia, Líbia e Síria, para quebrar a sustentação econômica do governo e forçar a derrubada. Mas antes de uma intervenção militar, eles precisariam ainda romper com o elo de unidade existente na Venezuela entre as forças armadas bolivarianas e a maioria do povo. Essa unidade derrotará qualquer intervenção militar, causando um alto custo de vidas humanas e também político ao governo Trump.

31. Essa aventura militar poderia se transformar num conflito bélico internacional com a provável solidariedade da Rússia, do Irã e da Turquia, transformando a Venezuela numa Síria latino-americana, com desfechos improváveis e altos custos aos norte-americanos, como de fato está acontecendo na Síria.

32. Ainda como consequência dessa intervenção militar, uma grave contradição para as forças imperialistas: com uma provável derrota das forças direitistas invasoras, os Estados Unidos teriam então que receber uma nova e grande migração de toda burguesia venezuelana, que, numa derrota militar, não teria mais espaço político e social no país, como aconteceu depois da derrota militar da invasão na Baía dos Porcos, em Cuba.

33. As próximas semanas e os próximos meses serão decisivos para o desfecho de qual tática os americanos adotarão. Naquele território, estamos travando a batalha da luta de classes mundial, que poderá demarcar a geopolítica para todo o século 21, assim como foi simbólica a Guerra Civil Espanhola para os desdobramentos numa Segunda Guerra Mundial.

34. De parte do governo venezuelano, será necessário, nesta batalha, manter a unidade das forças armadas bolivarianas e manter a maioria do povo chavista mobilizado na defesa da pátria. No curto e médio prazo, desenvolver um novo programa econômico, que logre superar os enormes desafios impostos pelo bloqueio ocidental e pela dependência do petróleo para desenvolver um novo programa de desenvolvimento econômico com igualdade social.

35. Hoje, a defesa da soberania na Venezuela significa a defesa da autodeterminação dos povos contra o império. Precisamos estar ativos e bem-informados das movimentações. Os próximos passos serão decisivos, e todas as forças populares e de esquerda, do continente e do mundo devemos manifestarmos claramente em defesa do processo bolivariano - que tem suas contradições e desafios, que são próprios de todo processo de mudanças estruturais numa sociedade.


Leia também:

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[Via Jornal Brasil de Fato]

Publicado em Política

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