Trinta e oito anos depois da 1ª Conclat – Conferência Nacional da Classe Trabalhadora, a CUT volta à Praia Grande, no litoral de São Paulo, para debater e redefinir os rumos do movimento sindical brasileiro. Se em 1981, em plena ditadura militar, o Brasil clamava por democracia, em 2019, a conjuntura não é diferente. Há dez meses comandando o país, o governo fascista de Jair Bolsonaro (PSL) tem atacado sistematicamente os direitos sociais e trabalhistas e estimulado seus seguidores a ações de intolerância e censura.  

E com um desafio desta magnitude os discursos da abertura oficial do 13º Congresso Nacional da CUT “Lula Livre” – Sindicatos Fortes, Direitos, Soberania e Democracia, na noite desta segunda-feira (7) no Ginásio Falcão, não poderiam seguir uma linha diferente. Todos  ressaltaram a luta pela democracia como pressuposto principal para a manutenção de direitos, trabalho decente e a retomada da democracia. Unanimidade entre os participantes, a condição essencial para isso é a liberdade do presidente Lula.

IRoberto Parizotti

A presidenta do PT, Gleisi Hoffmann, foi clara em seu discurso quando disse que “o capitalismo só se dá bem com ditaduras”. “Veja no Chile com Pinochet, onde o Paulo Guedes, ministro de Bolsonaro fez seu estágio na implementação de um programa ultraneoliberal que ele está trazendo para o Brasil”, disse se referindo a medidas como a reforma da Previdência e o aprofundamento da reforma Trabalhista que atingem trabalhadores e trabalhadoras, em especial os mais pobres, e beneficia o empresariado brasileiro.

Por isso, prosseguiu a deputada federal pelo PT do Paraná, “o empresariado e a elite brasileira agiram para tirar Lula e o PT do jogo, numa tentativa de acabar de uma vez com o projeto de desenvolvimento econômico e social que estava transformando o país”.

Lula é mantido preso político em Curitiba desde abril de 2018, depois de um processo ilegal e inconsistente, comandado pelo ex-juiz Sérgio Moro, que virou ministro da Justiça de Bolsonaro.

Vítima de um dos primeiros passos da direita para derrotar o projeto democrático e popular do PT, o golpe de 2016, a ex-presidenta Dilma Rousseff foi  didática ao complementar o raciocínio de Gleisi: “Eles sabiam que [Lula] seria eleito e em seu governo aprofundaríamos ainda mais o desenvolvimento para todos, porque o PT é democrático e respeita as instituições”.

Jordana Mercado

E desenvolvimento com justiça e inclusão social, distribuição de renda e trabalho decente é tudo que a elite brasileira não admite, continuou Gleisi, lembrando que “foi com Lula que efetivamente colocamos o direito da população, porque democracia é ter direito concreto, o direito de comer, do trabalho, da política pública, do acesso à cultura. Isso é democracia”, destacou.

A saída para restituir direitos e democracia começa com Lula livre e segue na luta para derrotar os governos ultraconservadores, recuperando o estado democrático de direito, indicou Victor Baez, Secretário Geral Adjunto da Confederação Sindical Internacional (CSI).

Quando conclamou os mais de 2.100 sindicalistas presentes a abertura do 13º Concut a lutar contra o fascismo, Baez disse “vamos brigar juntos contra o fascismo no Brasil e em cada país do mundo”.

“A sinalização de vitória nas próximas eleições da Argentina, da Bolívia e do Uruguai serve como um aprendizado para nós, brasileiros”, alertou o presidente da CTB, Adilson Araújo. Para ele, assim como para vários sindicalistas do Brasil e do mundo presentes na plateia, a luta por democracia ultrapassa as fronteiras.  

Nesse contexto, o 13° Congresso da CUT tem o desafio de reorganizar a luta da classe trabalhadora, restaurar a democracia, e para isso, como ficou claro, tem de libertar Lula, lutar por um projeto de justiça e inclusão social, de combate à pobreza e geração de emprego decente.

A atuação no próximo período foi destacada por todos os convidados que reforçaram o papel da Central ao longo da história, passando da conquista de direitos para trabalhadores e trabalhadoras pela construção da jovem democracia brasileira que vem sofrendo ataques constantes, especialmente depois que o ex-presidente Lula mudou o quadro e passou a combater a fome e a miséria, criando políticas públicas que melhoraram a vida de milhões de brasileiros.

Para Sérgio Nobre, Secretário Geral da central “a realização do congresso se dá em uma conjuntura extremamente difícil e desafiadora, mas é em momentos assim que a classe trabalhadora dá seus grandes saltos e esse congresso ficará marcado na história”.

A Secretária-Geral Adjunta da CUT, Maria Faria, parabenizou os mais de dois mil participantes pelo esforço em construir o congresso. “Os últimos tempos foram de muita dificuldade, de muita luta e resistência contra um governo que veio para cima do movimento sindical e apesar disso estamos aqui”.

Jornada Mercado 

O evento prosseguiu a exibição de um vídeo mostrando a cronologia de lutas da CUT, ilustrado com cartazes históricos da Central. O trompetista Fabiano Leitão, conhecido por suas intervenções nas redes sociais, encerrou a exibição com seu trompete tocando a música Lula Livre, momento em que todos no ginásio levantaram suas mãos com o gesto “L”, de Lula Livre, com as mãos.

Para os representantes das demais centrais sindicais, como Miguel Torres, presidente da Força Sindical e Adilson Araújo, os últimos tempos foram importantes para a unificação do movimento sindical em torno das lutas em defesa da democracia e dos direitos dos trabalhadores.

Lula Livre

Paulo Okamoto, do Comitê Lula Livre atestou o sentimento de solidariedade do ex-presidente Lula, que mandou uma carta para os delegados e delegadas, lida pelo ex-prefeito de São Paulo, Fernando Haddad: “Convivi com ele durante anos enquanto ouvia Haddad ler a carta, me vieram à mente centenas de imagens e fiquei imaginando ele se preparando para conversar com vocês, sobre nossa situação”.

A ex-presidenta Dilma Rousseff também destacou em sua fala o papel da CUT na história recente do Brasil em defesa do povo e da democracia e contra as políticas neoliberais. “A CUT é produto e agente da democracia. É parte da história de lutas do povo brasileiro, inclusive a luta que derrotou a ditadura militar no Brasil e as lutas para impedir o avanço de políticas neoliberais no país”.

“Collor tentou se apropriar da poupança dos brasileiros e acabou sofrendo impeachmnento. FHC sofreu as consequências de sua política cambial. Lula foi eleito e então, por quatro eleições, nós – o PT, a CUT, o MST - derrotamos o projeto e provamos que era possível uam outra visão de desenvolvimento no Brasil, com justiça social”.

Dilma citou as eleições presidenciais de 2018 como “estrategicamente vitoriosas”, porque apesar de Fernando Haddad não ter sido eleito, o Partido dos Trabalhadores não foi derrotado, conseguiu eleger sua bancada e tanto movimento sindical como movimentos sociais se mantiveram de pé.

“Haddad obteve 45 milhões de votos – 47% dos votos. Elegemos nossa bancada, mas sobretudo os movimentos sociais não foram destruídos. Os sindicatos estão em pé e aprendendo a lutar nessa fase de verdadeiro morticínio de instituições, direitos sociais, do meio-ambiente e de tudo aquilo que se traduz em esperança de uma vida mais justa, com menos desigualdade.

“A riqueza de uma nação e de uma sociedade é feita pelo trabalho humano e o capitalismo desde seu nascimento nunca foi democrático, muito pelo contrário”, acrescentou Gleisi, que complementou: “Em 500 anos de história, o Brasil só começou a viver uma democracia após a Constituição Cidadã de 1988, cujas conquistas só começaram a avançar com os governos democráticos de Lula e Dilma”.

Ela reforçou também que nunca foi tão importante a ação dos partidos políticos de esquerda e de centro-esquerda, bem como a ação dos trabalhadores organizados e destacou a importância da CUT na luta por aqueles que estão empregados formalmente e os que não estão.

“Nós vamos ter que avançar e lutar por aqueles que estão desempregados, por aqueles que não tem emprego formal, por aqueles que estão na precariedade. E essa luta vai depender de nós, e essa luta passa pela liberdade do presidente Lula. E é por isso que a gente insiste muito, porque lula livre quer dizer Brasil livre, povo  livre, a retomada do projeto emancipador que é um projeto histórico da classe trabalhadora”, finalizo

Movimentos Sociais

O líder do Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras Sem Terra (MST), Gilmar Mauro, fez um resgate histórico da luta e da parceria entre o MST e a CUT: “Nascemos na ditadura. Crescemos e enfrentamos governos como Sarney, Collor e FHC. Nós construímos nosso movimento popular. Agora vamos enfrentar venceremos porque estamos vivos e de pé”. Gilmar enalteceu a característica de solidariedade construída entre movimentos sociais e movimento sindical.

Para a vice-presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), Élida Helena, o Congresso da CUT fará com seja “vitoriosa a luta contra esse projeto que quer tirar o acesso do povo brasileiro à educação”. Ela afirmou que os estudantes têm a honra em travar suas lutas ao lados dos trabalhadores.

Raimundo Bonfim, da Central de Movimentos Populares (CMP), lembrou que a CUT sempre foi parceira e esteve à frente em manifestações e na luta contra o impeachment de Dilma Rousseff.

Juntos,  o presidente da CUT, Vagner Freitas e a vice-presidenta da Central, Carmen Foro, fizeram uma saudação aos delegados e delegadas fazendo um pequeno balanço das lutas da CUT e reafirmando que a missão do 13° Congresso da CUT é de carregar um projeto de desenvolvimento para o Brasil que retome a geração de emprego e geração e distribuição de renda: "juntos somos mais fortes", afirmaram”.

[Via CUT | Reportagem de André Accarini, Érica Aragão e Marize Muniz | Fotos: Roberto Parizotti e Jordana Merdado]

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O debate sobre o Sindicalismo do Futuro e os Impactos das Novas Tecnologias no Sul Global deu início nesta segunda-feira (7) aos trabalhos do 13º Congresso Nacional da CUT, que está sendo realizado na Praia Grande, e foi além da discussão sobre novas tecnologias. Para os representantes da África, América Latina e Europa que compuseram a mesa de discussões do 13º Concut, sem democracia, sem a contenção dos avanços da extrema direita no mundo e sem Lula Livre toda a luta dos trabalhadores pode ser comprometida.

Ao dar as boas vindas aos participantes, a vice-presidenta da CUT, Carmen Foro, lembrou que nos últimos anos o mundo vem caminhando para mais retrocessos aos direitos da classe trabalhadora. E que no Brasil, diante dos atos do governo de Jair Bolsonaro (PSL) para destruir o sindicalismo brasileiro e dos ataques aos direitos sociais e trabalhistas, é preciso agradecer a solidariedade internacional que a Central vem recebendo e o apoio por Lula livre.

“Precisamos da amizade que construímos ao longo da história da CUT com as organizações internacionais que compreendem o momento que passamos sob um governo de extrema direita que tira direitos dos trabalhadores, ataca os jovens, as mulheres e os indígenas”, declarou Carmen.

A dirigente, no entanto, avisou que “jamais a classe trabalhadora vai se curvar e a CUT, neste congresso, vai demonstrar uma firme disposição para resistir”.

Para Carmen, a democracia cumpre um papel fundamental na defesa dos direitos dos trabalhadores e das trabalhadoras, mas não se pode pensar num processo democrático no Brasil, sem Lula livre.

“Lula precisa ser libertado porque é inocente, não cometeu crime algum. Não queremos Lula solto com tornozeleira. Armaram contra ele para impedir que  voltasse a governar este país”.  

Antonio Lisboa, secretário de Relações Internacionais da CUT, também agradeceu a solidariedade internacional tanto política como na luta pelos direitos dos trabalhadores e lembrou que a luta dos sindicalistas cutistas é a mesma que a dos companheiros de todo o mundo, em defesa da democracia, do trabalho decente de Lula livre.

“Nossa luta é contra o fascismo e o neoliberalismo e, por isso, o 13º Concut se chama ‘Lula Livre’. Com este Congresso pretendemos que os dirigentes saiam daqui e voltem às suas bases, aos sindicatos e aos seus locais de trabalho com mais informações para lutar contra a avalanche de perdas de direitos”, declarou.

Novas tecnologias

O representante da Fundação Friedrich Ebert (FES Brasil), Yesko Quiroga, acrescentou que a discussão sobre as novas tecnologias tem de vir junto com as discussões sobre globalização e o desenvolvimento demográfico que estão modificando as cadeias de trabalho.

“O avanço da direita, do retrocesso, da precarização com mais flexibilização está afastando a representação sindical porque os trabalhadores não se sentem mais como trabalhadores. Foi incutida a ideia de que somos colaboradores das empresas”, criticou o dirigente da FES Brasil.

SegundoYesko,  instituições de pesquisa coincidem numa visão pessimista de perda de empregos e precarização dos trabalhos, principalmente na América Latina.

“Para enfrentar os efeitos negativos, para ter trabalho decente precisamos de novas estratégias sindicais. O sistema sindical está debilitado. É preciso ter acesso a um sistema social forte e consistente que defenda os menos favorecidos, mas sem movimento sindical isto não vai acontecer”, declarou Yesko.

O representante da África do Sul, Rasigan Maharajh, do Instituto de Pesquisa Econômica em Inovação (IERI), fez um relato histórico de como as mudanças tecnológicas,  desde a revolução industrial até hoje, afetam a vida dos trabalhadores. Segundo ele, desde o século 18 a humanidade tem aumentado sua capacidade de produzir coisas, e em cada uma dessas ondas de produção massiva de riqueza se diminuiu a distribuição e aumentou a concentração de renda.

“Da revolução industrial até hoje produzimos 3 mil vezes mais, mas não há distribuição quantitativa . No mundo somente 42 milhões de pessoas, ou 0,8% do total controlam quase 45% de toda a riqueza produzida. São US$ 143 trilhões nas mãos desta pequena parcela, enquanto 2/3 da população mundial fica com apenas 2% do que é produzido”.

De acordo com Rasigan, uma nova onda tecnológica se aproxima, mas está nas mãos dos que detém o capital, aumentando a exploração e o acúmulo de riqueza.

 “A resposta a esses ataques tem de vir dos sindicatos, mesmo vivendo sob um momento que não é exatamente amistoso aos trabalhadores. A tecnologia é resultado da produção humana, mas tem sido expropriada de nós. Isto não é nada diferente do que havia no começo da revolução industrial”.

A liberdade do ex-presidente Lula, mantido preso político na sede da Superintendência da Polícia Federal em Curitiba desde abril do ano passado, os novos desafios da classe trabalhadora diante do avanço do neoliberalismo e as novas tecnologias também foram citados pela presidenta da Central Única dos Trabalhadores do Chile, Barbara Figueroa.

Segundo ela, o grande desafio da América Latina é avançar a um sindicalismo que não seja apenas uma política local, mas continental. Por isso, é preciso lutar contra a reforma da Previdência no Brasil, em defesa da aposentadoria e pela democracia.

“Não basta apenas olharmos para as novas tecnologias  mas sim, unir a classe trabalhadora do Chile, Argentina,  Uruguai e Brasil. Precisamos de Lula Livre para lutarmos pelo fortalecimento de toda a democracia na América Latina . E para isso, é preciso fazer uma greve continental que nos permita mostrar a força dos trabalhadores”, defendeu a chilena.

O dirigente da Confederação dos Sindicatos Alemães (DGB Alemanha), Andreas Botsch, reafirmou a luta dos sindicatos do seu país por Lula Livre.

Já sobre os desafios das novas tecnologias no mundo do trabalho, Botsch disse que o aumento da produtividade está se dando às custas dos salários e da destruição do planeta.

“Estamos passando por mudanças climáticas dramáticas, maior do que pensávamos e quem sofre as primeiras consequências são os povos dos países subdesenvolvidos, mas o sofrimento também vai chegar para os povos dos países mais desenvolvidos”, alerta.

Para ele, o mundo vai enfrentar o “dia do julgamento final” porque o medo sempre foi mau conselheiro.

“As pessoas têm medo do futuro, se terão trabalho. Eu não acho, são os humanos que criam as máquinas e por isso que devemos falar não do trabalho do futuro, mas do futuro do trabalho”.

Para o dirigente, é preciso que a flexibilização do trabalho seja feita de forma que os trabalhadores tenham mais tempo de lazer, de estudo e capacitação e não para exploração da mão de obra.

 “É preciso mudar nossa mentalidade para sermos capazes de ser sujeitos desta mudança e não vítimas. Mas, isto não acontece automaticamente. É necessária a promoção de novos empregos e políticas sociais para quem não conseguirá encontrar um novo emprego”, acredita Botsch.

Victor Baez, da Confederação Sindical Internacional (CSI) vê com preocupação o mau uso das novas tecnologias. Ele citou como exemplo, a eleição de Jair Bolsonaro para a presidência da República no Brasil.

“A inteligência artificial é uma ferramenta que fez um burro chegar a presidência da República”, disse se referindo a Bolsonaro.

“A inteligência artificial está nos fazendo acreditar que para ser embaixador do Brasil é preciso saber fritar hambúrguer”, disse o dirigente, numa crítica a indicação de Eduardo Bolsonaro, filho zero três do atual presidente , à embaixada brasileira nos Estados Unidos.

O dirigente criticou ainda o uso da tecnologia para que os empresários ganhem ainda mais dinheiro. Citou como exemplo, um taxista que hoje é obrigado a utilizar 2, 3 aplicativos de transporte para conseguir complementar sua renda.

“O trabalhador não tem direitos. Hoje ele trabalha num país, mas quem administra esses aplicativos são chineses, espanhóis, cujas sedes não ficam onde as pessoas trabalham e eles não têm proteção sindical”, criticou.

[Via CUT]

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A CUT surgiu em 1983 em resistência ao autoritarismo, nos últimos anos da ditadura, e se vê agora às voltas com um “neoconservadorismo” simbolizado por Jair Bolsonaro, declarado inimigo dos movimentos sociais e assumido admirador do regime de 1964. Sob essa perspectiva, com um de seus principais fundadores preso e cerrado ataque a direitos, a central realiza desta segunda (7) a quinta-feira (10) o seu 13º congresso nacional, o Concut, em um ginásio de Praia Grande, no litoral sul paulista. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva será homenageado. O lema do encontro é “Sindicatos fortes = direitos, soberania e democracia”.

“É um lugar simbólico, ali foi o pré-nascimento da CUT”, diz à TVT o secretário-geral da entidade, o metalúrgico Sérgio Nobre, 54 anos, referindo-se a Praia Grande. Foi naquela cidade a menos de 80 quilômetros da capital paulista que ocorreu a 1ª Conferência Nacional da Classe Trabalhadora, a Conclat, em agosto de 1981, reunindo todas as correntes de pensamento do movimento sindical, que se rearticulava após anos de repressão. O Brasil ainda estava sob o governo de João Figueiredo, último dos generais-presidentes, e convivia com instabilidade política.

Grupos de extrema-direita não aceitavam o já lento processo de “abertura” política: em 1980, uma bomba matou a secretária Lyda Monteiro da Silva na sede da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) do Rio de Janeiro. Em maio do ano seguinte, exatamente o da Conclat, outra bomba explodiu antes do tempo e matou um militar no Riocentro, que realizava um festival de música. Documentos mostram que a própria Conclat foi monitorada por arapongas do regime.

Sérgio lembra que, ao longo dos anos, a CUT consolidou o conceito de sindicalismo cidadão, que procura não se ater a questões trabalhistas. E também prevaleceu a ideia da negociação, do diálogo. “Nós somos combativos, vamos para a rua, fazemos greve, mas apresentamos soluções.”

Ataque aos sindicatos

Agora, na atual conjuntura, os desafios são enfrentar um mundo do trabalho em rápida transformação, recuperar a democracia e buscar a retomada do crescimento econômico. Em um contexto de ataque às entidades sindicais. Um tema central do 13º Concut será o da liberdade para Lula, um dos fundadores da entidade, em 28 de agosto de 1983, durante congresso em São Bernardo do Campo, no ABC paulista – de 1975 a 1981, ele comandou o então Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo e Diadema. A CUT foi a primeira central brasileira, ainda fora da estrutura sindical, cuja instância máxima eram as confederações profissionais. As centrais só foram reconhecidas formalmente em 2008, com a Lei 11.648, assinada pelo então presidente Lula.

Essa deverá ser a tônica do ato de abertura do congresso, marcado para as 18h desta segunda-feira, com a presença da ex-presidenta Dilma Rousseff, do ex-candidato Fernando Haddad, da presidenta do PT, deputada Gleisi Hoffmann (PR), e do ex-chanceler Celso Amorim. São esperados 2 mil delegados de todo o país. Também estarão presentes perto de 100 representantes de entidades sindicais e sociais, incluindo dirigentes de 40 países. Antes, estão previstos dois seminários internacionais, sobre o futuro do sindicalismo e a desregulamentação e precarização do trabalho.

No último dia, será escolhida a nova direção – nos dois últimos mandatos, a presidência foi exercida pelo bancário Vagner Freitas. O 11º Concut, em 2012, aprovou a paridade de gênero, com os cargos divididos igualmente entre homens e mulheres. Essa resolução foi implementada a partir de 2015.

Desde então, a situação econômica se deteriorou e a política mudou drasticamente. Um processo de impeachment tirou Dilma da Presidência da República em 2016. No ano passado, Lula foi preso. Nesse hiato, um deputado obscuro, Jair Bolsonaro, elegeu-se com retórica moralista e antipolítica, apesar de viver da política há três décadas. Movimentos extremistas ganharam espaço e a agenda parlamentar foi ocupada pelo discurso de ajuste fiscal e de reformas, com destaque para a da Previdência, ainda em discussão no Senado – a trabalhista, dois anos atrás, ajudou a deteriorar o mercado, que agora cria empregos predominantemente informais e sem proteção social. Nesse cenário já adverso, sindicatos perderam fonte de receita e se enfraqueceram. Além de se reorganizar para sobreviver, o movimento sindical tem o desafio de combater o contínuo desmonte das políticas e leis de proteção social.

[Via Rede Brasil Atual]

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A Federação Única dos Petroleiros (FUP) foi criada em 1994, fruto da evolução histórica do movimento sindical petroleiro no Brasil, desde a criação da Petrobrás, em 1953. É uma entidade autônoma, independente do Estado, dos patrões e dos partidos políticos e com forte inserção em suas bases.

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