Desde a madrugada do dia 22/10 que os moradores de Morro São Paulo, Garapuá, Boipeba e a prefeitura de Cairu convivem com a chegada do óleo que polui a costa nordestina e já é considerado o maior desastre ambiental da história do litoral brasileiro em termos de extensão.

Morro de São Paulo, localizado no município de Cairu, terceiro local mais procurado pelos turistas, na Bahia, é conhecido por suas belas praias, fauna, flora e mata atlântica abundantes, atraindo cerca de 200 mil turistas por ano.

O Secretário Especial de Administração de Morro de São Paulo, Fabiano Campos, conta que a prefeitura montou uma força tarefa para tentar conter o óleo.  “Todos os dias a gente limpa as praias. Todos trabalham unidos para manter nossas praias limpas: o poder público, a  Marinha, os Fuzileiros Navais, os pescadores, comerciantes, empresariado e a comunidade em geral que tem atuado como voluntários”. 

Técnicos da Petrobrás que estavam ajudando a coletar o óleo – a maioria vindos do Campo de Manati –  se retiraram do local sem maiores explicações, informou o secretário. “Só sabemos que eles receberam ordens para ir para Itacaré. O problema é que no dia seguinte que o pessoal saiu daqui começou a chegar grande quantidade de óleo em praias como Garapuá. Até hoje esperamos a volta da Petrobras. Estamos contando com a Marinha e Fuzileiros Navais ,Corpo de Bombeiros e voluntários na limpeza das praias de Morro de São Paulo.  Vamos continuar lutando com todas as forças, enquanto aguardamos uma resposta positiva dos órgãos competentes que podem nos ajudar nessa questão”.

Segundo o secretário, na ilha todos vivem do comércio proporcionado pelo turismo. “Então, esse desastre vai além dos danos ao meio ambiente, mexe com a economia do local, com a vida da comunidade”, enfatiza.

Exemplos que confirmam a fala do secretário não faltam.

Hugues Carrara, 43 anos, mora há 18 anos em Morro de São Paulo  e é dono de um hotel e de um restaurante. Ele diz que já sente o impacto negativo no seu negócio após a chegada do óleo à ilha. “Apesar de não ter havido ainda cancelamento de reservas, já estamos sentindo a diminuição da procura para o réveillon e para os meses de janeiro e fevereiro. Neste momento, o consumo do pescado no restaurante  também caiu, em pelo menos 50%”.

Nascido e criado na beira da praia, em Morro de São Paulo, Fernando Santos de Oliveira, 34 anos, é pescador desde criança.  Segundo ele a chegada do óleo causou um grande  impacto  na ilha  “porque aqui tudo gira em torno do turismo e o turista que chega  tem receio de consumir o pescado e, com isso, a gente também não tem como e nem para quem vender. Nem os restaurantes estão mais querendo comprar o produto da nossa pesca”. No entanto, Fernando diz que ainda não encontrou nenhum peixe com resíduo de óleo.

Doações

De acordo com a prefeitura de Cairu já foram removidas mais de 70 toneladas de óleo.  O material foi armazenado de acordo com as recomendações dos órgãos ambientais e aguarda as providências dos mesmos para retirada dos resíduos da ilha. Fabiano  enfatiza os gastos com os  EPIs. “É tudo muito rápido, o óleo chega e a gente corre para limpar, por isso a quantidade de EPIs precisa ser sempre reposta para estarmos preparados”.

Na terça-feira (5), a prefeitura recebeu a doação de EPIs do Sindipetro Bahia através dos diretores Gilson Sampaio (Morotó) e Francisco Ramos (Chicão), que foram até à ilha para se inteirar sobre a situação da comunidade local e oferecer a ajuda da entidade sindical e dos petroleiros. O Sindipetro doou botas, luvas, máscaras e macacões, que protegem e evitam que o voluntário entre em contato direto com o óleo, o que pode causar problemas de saúde.

O coordenador do Sindipetro Bahia, Jairo Batista, ressalta a importância da Petrobras nesse processo, “mesmo com a morosidade do governo federal, a Petrobras vem colocando sua estrutura à disposição para minimizar os impactos e limpar nossas praias. Fica a pergunta: uma empresa privada disponibilizaria estrutura,  empregados sem custo algum?  Esperamos que a Petrobras continue a desempenhar o seu papel de indutora do desenvolvimento econômico,  tecnológico e social, e  prossiga atuando com responsabilidade  ambiental”. 

Garapuá foi uma das mais atingidas

Garapuá é uma pequena vila de pescadores, localizada a leste da Ilha de Tinharé, logo após a Quinta Praia de Morro de São Paulo e tem cerca de mil habitantes. Desde que o óleo chegou à praia os moradores da pequena vila não têm sossego. “Quando esse óleo chegou aqui foi uma loucura. A gente viu face a face o que a gente não queria ver. Foi aquela correria. Pegamos luvas, peneiras e começamos a limpar, teve um bocado de voluntários”, conta o Presidente da Associação de Pescadores e donos de Barcos de Garapuá (APEGA), Antônio Carlos da Cruz Santos, 47 anos.

Os moradores conseguiram se organizar e com a ajuda e orientação do IBAMA, INEMA e Petrobrás estavam fazendo um “bom e rápido trabalho de contenção do óleo”, explica Antônio. Mas a situação, segundo ele, ficou insustentável após a decisão dos órgãos e da estatal de se retirarem do local. “Eles suspenderam o trabalho na praia e a ajuda que estavam dando. E a gente como fica? Ninguém pode trabalhar todos os dias de forma voluntária. As pessoas têm filhos para criar, para alimentar. Não temos como exigir isso delas”.

Além das praias, o óleo atingiu a área de mangue de Garapuá, o que segundo os moradores torna-se um problema ainda maior. “Só as marisqueiras sabem como andar dentro do mangue, como entrar e sair de lá sem se cortar nas ostras ou se perder. Mas elas precisam de orientação para fazer esse serviço”, revela José Carlos da Cruz Santos, o Zequinha, 52 anos, pescador, filho de marisqueira e dono de uma pousada no local.

“Encontramos uma grande quantidade de óleo nas raízes aéreas dos mangues. Fotografamos e enviamos para o INEMA, IBAMA e Petrobras. A orientação é para que a gente não entre no local. Mas enquanto isso a situação só piora. Se a ajuda demorar muito não sei o que será de nós”, fala, angustiada, a Presidente da Associação de Moradores e Amigos de Garapuã (Amaga), Jailma Rafael Santos, 34 anos.

Jailma tem outra grande preocupação. “Somos uma comunidade que vive da pesca, do turismo e da mariscagem. Tudo isso está nos afetando profundamente. Se o turista não vem, se não comprarem nosso pescado, nosso marisco. Como vamos sobreviver? Acreditamos que com ajuda, possivelmente, podemos conseguir resolver essa situação até a chegada do verão”.

[Via Sindipetro Bahia -Fotos- Milly Lima]

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Os impactos do maior derramamento de petróleo da história do país foram subestimados pelo governo brasileiro.

Além de demorar a agir e não seguir o protocolo para estas emergências, o governo neste ano reduziu o orçamento de órgãos que deveriam ter atuação fundamental na contenção do óleo. William Nozaki, diretor-técnico do Instituto de Estudos Estratégicos do Petróleo (Ineep) levou os dados em entrevista ao serviço em espanhol do Russia Today, canal internacional russo. 

"O governo parece ter subestimado o impacto que este evento poderia causar e tratou inicialmente como se fosse um vazamento ordinário. As Forças Armadas tiveram um bloqueio de 44%, somando um total de R$ 5,8 bilhões. No Ibama, o corte foi de 24%", explica. 

Nozaki detalhou ainda que apesar de o óleo cru ser matéria orgânica, ele pode ficar no mar por duas ou três décadas até ser reabsorvido pela natureza, e deixando danos para os seres vivos e para os biomas, daí a importância de se identificar rapidamente e retirar esse óleo dos oceanos.

Na última sexta-feria (1º), a Polícia Federal apontou um navio grego como responsável pelo derramamento de óleo que afetou as praias do Nordeste. Os responsáveis pela embarcação negam.

[Via INEEP | ]Foto: Carlos Ezequiel Vannoni/Agência Pixel Press/Folhapress]

 

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Óleo nas praias do Nordeste. Fogo na Amazônia. Lama de mineradoras em Minas Gerais. Proliferação de agrotóxicos por todo o país. Ao comentar as “catástrofes” que em diferentes dimensões assolam o Brasil nos últimos tempos, o professor, escritor e sociólogo Jessé Souza explica que os cidadãos jamais serão suficientemente informados sobre as causas dessas tragédias pelos meios de comunicação convencionais. Para ele, a mídia comercial produz “informação aparente, aquela que informa sem esclarecer”, por isso é parte da desinformação.

Jessé Souza denuncia o capitalismo norte-americano como principal interessado no desmantelamento da capacidade dos Estados nacionais de exercer qualquer regulação e de intermediar o processo de desenvolvimento. O sociólogo cita o investimento de grandes magnatas do capitalismo em ações de comunicação como forma de propagar o ideário neoliberal conservador.

E menciona os irmãos Charles e David Koch (este morto em agosto) entre os grandes financiadores de grupos de direita pelo mundo, movidos justamente pelo interesse no desmonte do Estado. (Os irmãos Koch são apontados, por exemplo, como patrocinadores da movimentação midiática – sobretudo nas redes sociais – que inflamou os protestos de 2013 e deu origem ao clima que levaria ao impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff.)

O sociólogo, autor de A Classe Média no Espelho e de A Elite do Atraso, conta que está finalizando mais um livro. Ele afirma que o desprezo pelas questões ambientais, encorajado pelos governos de Donald Trump e de Jair Bolsonaro, são uma evidência de que a união do campo de resistência democrática nos dias de hoje deve necessariamente agregar a defesa da sustentabilidade, das liberdades civis e dos direitos sociais sociais.

Assista: 

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Quase 60 dias após o surgimento das primeiras manchas de óleo surgirem no litoral nordestino, o governo de Jair Bolsonaro (PSL) continua o jogo de ataques e acusações a ONGS ou a Venezuela, contrainformações e nenhuma ação concreta para investigar o vazamento, conter o óleo antes que ele atinja as praias e garantir que as informações oficiais sejam claras e reais para ajudar a população e os governos locais a enfrentar a tragédia.

Os nordestinos não sabem sequer os reais riscos de saúde que estão correndo ao trabalhar como voluntários para tirar o óleo das praias sem um equipamento adequado, apesar do petróleo cru já ter atingido 92 municípios e 249 praias dos em nove estados da Região. A extensão do impacto já supera 2.000 quilômetros.

“Bolsonaro e seu ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, mentem até para  as entidades federativas e o Ministério Público Federal, acusa o secretário de Meio Ambiente da CUT, Daniel Gaio. Segundo ele, o governo tem escondido informações dos Estados, que tiveram que entrar com uma ação contra a União para ter acesso a dados que os ajudem a montar uma estratégia para enfrentar a tragédia. “Bolsonaro e Salles escondem os verdadeiros culpados pelo vazamento de petróleo. Não tem um agente público do governo federal que esteja atuando efetivamente no socorro imediato aos atingidos pelo óleo,  nem medidas importantes para a redução dos impactos no meio ambiente”.

 Isso sem falar sobre o mistério dos “barris da Shell encontrados nas praias ”, critica Gaio, lembrando que a situação piorou porque o governo extinguiu os conselhos, comissões, comitês, juntas e outras entidades criadas por decretos ou por medidas administrativas no primeiro semestre, que poderiam ter combatido o desastre ambiental com maior eficiência e em menor tempo.

O secretário se refere a extinção este ano de comitês e comissões do Plano Nacional de Contingência para Incidentes de Poluição por Óleo em Água. Confira aqui

Uso do mar por banhistas

As informações sobre o uso da praia também são desencontradas. O ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio (PSL) e o vice- presidente da República, Hamilton Mourão (PRTB), disseram que a população pode entrar no mar, sem qualquer risco à saúde, mas especialistas têm mais cuidado e dizem que é melhor esperar os resultados das pesquisas que estão sendo feitas na Região.

Segundo a professora da Universidade de Pernambuco, Mariana Guenther, a recomendação é de que se evite o banho até que se tenha o resultado das análises das concentrações de hidrocarbonetos na água, que são as principais substâncias presentes nesse óleo e que são extremamente tóxicas.

“Essas análises já estão sendo realizadas por pesquisadores em parceria com a Agência Estadual de Meio Ambiente aqui de Pernambuco e devem estar sendo divulgadas em breve”, disse a professora.

Sobre a origem do óleo, os pesquisadores da Universidade Federal da Bahia (UFBA) analisaram amostras coletadas das praias da Bahia e de Sergipe, e afirmaram que o óleo foi produzido na Venezuela.

Diferente do que diz Salles, isso não significa que o governo venezuelano seja o culpado pelo derramamento, já que o país é um grande exportador do produto e navios de todo o mundo são abastecidos por lá.

“Infelizmente ainda não podemos precisar se ainda haverá mais óleo chegando às praias, pois ainda não sabemos sua fonte. O trabalho de remoção manual do óleo que ainda se encontra nas praias, nos costões rochosos e nos manguezais continua, já que encontramos manchas, inclusive submersas”, Guenther.

População é informada pela imprensa

A equipe do governo só tocou no assunto 41 dias após os primeiros registros de óleo terem sido confirmados pelo Ibama, na Paraíba, no dia 30 de agosto. E a população atingida está refém das informações contraditórias que recebem pela imprensa, acredita o secretário do Meio Ambiente da CUT.

Ele cita como exemplos, reportagem do jornal Valor Econômico, desta segunda-feira (28), em que o comandante de Operações Navais, almirante Leonardo Puntel, um dos responsáveis pelo monitoramento dos vazamentos de óleo no Nordeste, afirmou que diminuiu o volume de registros de óleo nas praias nordestinas.

Já outra reportagem, também nesta segunda, na Folha de São Paulo, a coordenadora de Emergências Ambientais do Instituto Natural do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama),  Fernanda Pirillo, responsável pelas operações de limpeza dos locais atingidos , disse que o desastre ambiental é um caso inédito no mundo e ainda não é possível prever o seu fim.

[Via CUT | Foto: Salve Maracaípe]

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A Federação Única dos Petroleiros (FUP) foi criada em 1994, fruto da evolução histórica do movimento sindical petroleiro no Brasil, desde a criação da Petrobrás, em 1953. É uma entidade autônoma, independente do Estado, dos patrões e dos partidos políticos e com forte inserção em suas bases.

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