Bolsonaro mente sobre vale-gás e o povo segue pagando caro demais, afirma coordenador do Sindipetro MG

Segunda, 09 Agosto 2021 14:41

Em artigo publicado no dia 06 de agosto no jornal Brasil de Fato de Minas Gerais, o coordenador do Sindipetro MG, Alexandre Finamori, ressalta que, enquanto a paridade de preço de importação (PPI) for mantida, a lógica da Petrobrás continuará sendo a de remunerar acionistas e prioridade no lucro e não na soberania

[Por Alexandre Finamori | Foto: Nádia Nicolau/Mídia Ninja]

No dia 30 de julho, foi exibida no programa do Ratinho, do SBT, uma entrevista exclusiva do apresentador com o presidente Jair Bolsonaro. 

Num tom amistoso - Ratinho fez questão de começar o bate bola lembrando da proximidade dos dois -, foram abordados vários temas da política nacional, da pandemia ao voto impresso, com o microfone aberto para Bolsonaro espalhar suas opiniões, sem ser confrontado com fatos, perguntas difíceis, polêmicas.

Lá pelas tantas, Bolsonaro tenta se colocar como um presidente preocupado com o povo e diz que zerou o imposto federal sobre o gás, e que o restante do preço é ICMS estadual, margem de lucro de quem vende e frete. E continua:  

“O novo presidente da Petrobras, o general (Joaquim) Silva e Luna, está com uma reserva de aproximadamente 3 bilhões de reais para atender realmente esses mais necessitados… Seria um vale-gás, seria o equivalente - no que está sendo estudado até agora - a um bujão de graça a cada dois meses”, disse.

No dia seguinte, 31 de julho, a Petrobrás solta um comunicado oficial com o suave título: “Petrobras esclarece sobre notícias da imprensa”. Um parênteses: a notícia não foi da imprensa. A informação veio da boca do próprio presidente e está registrada em vídeo, acessível no youtube, para quem quiser ver. Na nota, a empresa diz: 

“A Petróleo Brasileiro S.A. – Petrobras com relação às notícias veiculadas na mídia esclarece que, como resultado de sua estratégia e seu compromisso de geração de valor, já distribuiu, no ano de 2021, R$ 10,3 bilhões em dividendos, sendo desses, R$ 3 bilhões destinados ao seu acionista controlador”. [Na última semana, a Petrobrás anunciou que vai antecipar aos acionistas o pagamento de R$ 31,6 bilhões, o maior montante de dividendo já pago pela empresa, resultado das privatizações e do aumento abusivo dos combustíveis. Leia aqui a matéria da FUP

Adivinha quem é o acionista controlador? Sim, o governo federal. Reparem então: os R$3 bilhões a que Bolsonaro se refere são do governo federal, e poderiam então ser destinados a políticas públicas para famílias de baixa renda, como, por exemplo, para a criação de um vale-gás. Repare também que esses R$ 3 bilhões não são nem a metade do que a empresa distribuiu em lucros, ou seja, tem muita gente ganhando muito dinheiro com a principal empresa brasileira e entre essas pessoas não estamos nós, os trabalhadores.

A nota segue dizendo das políticas de responsabilidade social da empresa e termina com  o trecho: 

“A Petrobras segue adotando a prática de preços de venda em equilíbrio com os mercados competidores. Sensível ao impacto social do gás de cozinha (GLP), a Petrobras contribui ativamente nas discussões no âmbito do Ministério de Minas e Energia quanto a eventuais programas voltados às famílias vulneráveis. Não há definição quanto à implementação e o montante de participação em eventuais programas. Qualquer decisão estará sujeita à governança de aprovação e em conformidade com as políticas internas da Companhia”. 

Política de preços: prejuízo para população e lucro para acionistas

Sobre a política de preços: desde 2016, a Petrobrás segue o reajuste vinculado ao dólar, segundo a política aprovada por Temer e mantida por Bolsonaro do Preço de Paridade de Importação (PPI). Essa decisão faz com que haja aumentos repetitivos do preço da gasolina, do diesel e do gás de cozinha. Enquanto a inflação acumulou 17% desde então, a gasolina já aumentou 73%, o diesel mais de 54% e o gás de cozinha mais de 190%!!

Em tempos de aumento do desemprego, da fome e do medo do futuro, essas tarifas doem no bolso dos trabalhadores. 

 

Milhares de famílias trocaram o gás pela lenha para cozinhar e dá uma tristeza 

 

Já sabemos que milhares de famílias trocaram o gás pela lenha para cozinhar e dá uma tristeza profunda pensar que isso acontece em um país que recentemente encontrou o pré-sal, que poderia ter sua soberania energética e inclusive ajudar o mundo a pensar alternativas sobre os combustíveis. 

Mas muito longe disso, o que vemos é o desmonte da Petrobrás, no roteiro da privatização, colocando em risco os trabalhadores próprios e terceirizados, o aumento dos preços e o horizonte estreito de quem só pensa em lucro.

Bolsonaro sabe que precisa apontar um culpado para explicar a piora das condições de vida, entre elas o aumento do preço do gás. Já sabemos que ele não é conhecido por sua honestidade, coragem ou bom caráter, por isso novamente tenta inverter a mira e não assume as escolhas de gestão que ele e sua equipe fizeram. 

Há três meses, ele se gabava de interferir no comando da empresa e dizia frases como: “É pra interferir mesmo, sou presidente”, sobre a troca de Roberto Castello Branco pelo general Joaquim Silva e Luna. 

Depois de 100 dias do general à frente do cargo, os reajustes do preço dos combustíveis foram menos frequentes, mas as altas permaneceram (segundo a ANP,  nesse período houve aumento de 9,3% no preço médio do diesel, 7,2% no da gasolina comum e 8,2% no do gás de cozinha).

Não tem milagre. Mantendo a PPI, a lógica de remunerar acionistas e prioridade no lucro e não na soberania, não há como cair o preço do gás. E nem seria a solução distribuir um botijão a cada dois meses. A Petrobrás pode sim atuar para reduzir as desigualdades e melhorar a vida das pessoas. Mas, para isso, é preciso decisão política e colocar a estatal para cumprir seu verdadeiro papel. 

Última modificação em Segunda, 09 Agosto 2021 15:57
Publicado em Sistema Petrobrás

A Federação Única dos Petroleiros (FUP) foi criada em 1994, fruto da evolução histórica do movimento sindical petroleiro no Brasil, desde a criação da Petrobrás, em 1953. É uma entidade autônoma, independente do Estado, dos patrões e dos partidos políticos e com forte inserção em suas bases.