[Do Brasil de Fato | Entrevista concedida a Guilherme Weimann, da imprensa do Sindipetro Unificado SP]

A atual estratégia adotada pela Petrobras não é compartilhada por nenhuma grande petroleira mundial. Essa é a avaliação do economista Rodrigo Leão, coordenador técnico do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep). 

Na verdade, muito mais do que uma avaliação individual, essa é uma das sínteses contidas no livro “Desinvestimento e desregulação da indústria de óleo e gás: o caso brasileiro e as lições internacionais”, recém lançado pelo Ineep, em parceria com a Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (FLACSO) Brasil. 

Um dos organizadores da publicação, que reúne uma série de 22 artigos de oito pesquisadores, Leão acredita que a sua função é mostrar uma visão sobre o petróleo pouco encontrada na imprensa. “O Ineep tem o papel de gritar na grande mídia: ‘Não é bem assim, existe uma outra visão sobre o petróleo’”, opina.

Nas brechas que encontra, a entidade tem feito uma crítica contundente contra a atual gestão da Petrobras, que está justificando uma série de privatizações pela necessidade de diminuir a dívida da empresa. “A discussão aí é a seguinte: como e por que a estratégia central de uma empresa passa a ser a venda de ativos?”, questiona.

Além disso, a direção da estatal tem como meta restringir sua atuação no Sudeste e, consequentemente, entregar seus ativos localizados em outras regiões do país. No caso do Nordeste, Leão acredita haver uma retaliação política. “Eu não consigo ver um argumento econômico e técnico, neste caso nem isso existe”, avalia.

Essa retirada do Nordeste, que inclui a privatização das refinarias Abreu e Lima (RNest), em Ipojuca (PE), Landulpho Alves (RLAM), em São Francisco do Conde (BA), Lubrificantes e Derivados do Nordeste (Lubnor), em Fortaleza (CE), causará, provavelmente, uma perda de investimentos em toda a região. 

“Quando a Petrobras sai de um campo de terra lá no interior do Rio Grande do Norte ou do Ceará, quem vai entrar é uma empresa que tem capacidade de investimento milhares de vezes menor que a da Petrobras. Por isso, toda a estrutura que vai cercar aquela área terá um empobrecimento relativo”, explica.

Entretanto, a maior perda em relação ao potencial de geração de riquezas para o Estado brasileiro já ocorreu, na opinião do economista, com o fim da obrigatoriedade de participação da Petrobras na exploração do pré-sal, diminuição do conteúdo nacional e aceleração dos leilões.

“A Petrobras tinha que estar em todos os campos, com a aquisição de materiais brasileiros. Por isso, o ritmo de evolução da produção seria dado por esse viés. A Petrobras daria o ritmo da nossa indústria que, por outro lado, influenciaria no ritmo de exploração do pré-sal. Quando há a redução do conteúdo nacional e a retirada da Petrobras de todos os leilões, o coração deste processo é quebrado”, recorda.

Diante desse cenário, o terceiro livro do Ineep, que está disponível para download gratuito, pretende servir como uma voz dissonante e que reflete a perspectiva de grande parte dos defensores da Petrobras como motor do desenvolvimento nacional. “A gente precisa furar a bolha e eu acredito que estamos tendo êxito nesse sentido. Nós queremos falar com todo mundo”, aponta.

Confira abaixo a entrevista completa:

A primeira parte do livro aborda como o desinvestimento se tornou elemento central das últimas gestões da Petrobras. Esse desinvestimento, na verdade, não significa um investimento maior na exploração e produção do pré-sal em detrimento de outras áreas? 

Na discussão sobre desinvestimento como eixo central da atual estratégia da Petrobras, a gente não está se preocupando tanto com o valor ou se o investimento é destinado mais para a exploração e produção. A discussão aí é a seguinte: como e por que a estratégia central de uma empresa passa a ser a venda de ativos? 

A gente entende que os desinvestimentos são parte de um processo de qualquer empresa, que compra e vende ativos ao longo da sua vida útil, isso é natural. Para dar um exemplo, as empresas de petróleo da Europa tem saído do refino, porque elas são obrigadas a investir em energia renovável, mas levando seus investimentos no setor de derivados para a Ásia. 

O caso da Petrobras é novo, de uma empresa que está adotando como centro da sua estratégia o desinvestimento. 

Qual a implicação disso? A empresa vai ficar muito mais refém das variações internacionais do preço do barril do petróleo, vai encolher e perder capacidade de formulação de planejamento. 

Hoje, a Petrobras é uma empresa preocupada em gerar receita em um curtíssimo prazo. A gente não sabe qual o limite dessa tentativa de reduzir o endividamento por meio do desinvestimento. Essa é uma discussão que estamos propondo. Qual a estratégia da Petrobras e como ela dialoga com a pandemia e outros momentos conjunturais desfavoráveis? No fundo, a provocação que a gente faz é que não existe uma estratégia clara de longo prazo, que é fundamental para uma empresa de petróleo.     

O artigo da pesquisadora Isadora Coutinho aponta que, durante a pandemia, a empresa caminhou na contramão do seu próprio Plano de Negócios e Gestão (PNG), que prevê a privatização de 50% da sua capacidade de refino, ao utilizar suas refinarias para aumentar a exportação de óleo combustível, especialmente o combustível marítimo (bunker oil), em um momento de queda do consumo interno. Existe alguma justificativa plausível, mesmo do ponto de vista puramente econômico, para a venda de parte do seu parque de refino?

A agenda da Petrobras é: “eu preciso me desfazer de ativos, porque eu tenho uma dívida muito alta”. Como o refino dá menos lucro que a exploração e produção, ela decidiu privatizar parte dessa área. Isso não está tecnicamente equivocado. O problema aí é que embora a Economia seja uma ciência que tem a matemática e estatística como elementos importantes, você pode tomar decisões completamente diferentes e ter argumentos econômicos para justificá-las. A questão, nesse caso, não é argumento econômico, para ser sincero. A questão, para mim, é a visão do que é ser uma empresa de petróleo.

Atualmente, a Petrobras avalia que uma empresa de petróleo tem que apenas produzir óleo cru e ponto. 

Ela está olhando para o ativo que, em tese, dá mais rentabilidade. Mas está ignorando vários outros fatores que interferem na gestão de uma empresa. Ela não considera que eles têm uma relevância a ponto de fazê-la rever essa estratégia. Nesta crise provocada pelo coronavírus, ocorreu exatamente o que o Ineep já vinha afirmando, ou seja, o refino está ajudando a Petrobras a mitigar os efeitos negativos.

Nesse segundo trimestre, inclusive, a Petrobras aumentou sua participação na venda de derivados. O refino dá a oportunidade de realizar novas ações frente às mudanças que são constantes no mercado internacional do petróleo. Mas a companhia prefere adotar outra postura. Então, não é apenas uma questão econômica, na verdade é como a gestão de hoje entende e enxerga uma empresa de petróleo. 

A segunda parte do livro aborda os efeitos da desregulação na indústria nacional. Em um dos artigos, o pesquisador do Ineep e professor do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Eduardo Costa Pinto, aponta como um dos efeitos colaterais do impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff (PT) a retirada da Petrobras como operadora única do pré-sal e a exigência de conteúdo nacional nos leilões. Qual é do impacto dessas medidas em relação aos recursos para o Estado brasileiro e para a geração de empregos?

É brutal porque o projeto que foi adotado no final da primeira década deste século tinha como centro a Petrobras criando uma espécie de nova indústria. Ela geraria uma cadeia produtiva no entorno da Petrobras e isso criaria um volume gigantesco de empregos. O setor de petróleo e refino não geram muitos empregos. A relação emprego-capital da Petrobras é relativamente pequena. Por isso, a geração grande de empregos está no seu entorno, nas indústrias de construção pesada, civil, naval e por aí vai. Nesse sentido, o Brasil estava tentando criar um movimento de expandir a indústria pesada por meio da Petrobras.


"Como e por que a estratégia central de uma empresa passa a ser a venda de ativos?”, questiona o economista Rodrigo Leão / Reprodução

Por que a lei da partilha e o conteúdo nacional eram essenciais nesse processo? Porque eles eram a sua estruturação. Ao ter a obrigatoriedade de explorar todos os campos do pré-sal, a Petrobras podia controlar o ritmo de exploração do pré-sal segundo seus interesses e possibilidades de fornecimento da nossa indústria, dado que o conteúdo local era muito alto. A Petrobras tinha que estar em todos os campos, com a aquisição de materiais brasileiros. Por isso, o ritmo de evolução da produção seria dado por esse viés. A Petrobras daria o ritmo da nossa indústria que, por outro lado, influenciaria no ritmo de exploração do pré-sal.

Quando há a redução do conteúdo nacional e a retirada da Petrobras de todos os leilões, o coração desse processo é quebrado.
 

O pré-sal abre uma janela de oportunidades gigantescas não apenas para outras empresas explorarem petróleo, mas também para venderem equipamentos e gerarem empregos no país. Toda vez que se abre uma janela dessas, a discussão não se dá apenas nas reservas que estão embaixo da terra, mas nos milhões de empregos que serão gerados. O petróleo é um recurso relativamente escasso, existe em poucos países. Então, há uma disputa global para entrar nessa indústria de fornecimento. São grandes tubarões que estão disputando a tapa tudo isso.

A minha avaliação, e o ex-presidente da Petrobras José Sérgio Gabrielli também tem defendido isso, é que mataram a possibilidade de tentar usar esse modelo de desenvolvimento pensado anteriormente, nos governos petistas. Ele se tornou inviável, não tem mais condições, outras empresas já entraram.  

De acordo com documento publicado pelo Wikileaks, o senador José Serra (PSDB-SP), hoje denunciado por corrupção fez uma promessa para a petroleira Chevron, em 2017, que acabaria com o modelo de partilha. Esse é o principal objetivo, ou seja, retomar com o modelo de concessão?

Eu acho que as empresas já conseguiram o que elas queriam, de alguma maneira, que era o fim do conteúdo nacional, o fim da preferência da Petrobras nos campos e a aceleração dos leilões. Com isso, eles mataram o modelo pensado anteriormente porque o ritmo dos leilões agora é ditado pela ANP [Agência Nacional do Petróleo]. Não existe mais um controle baseado na indústria. O conteúdo nacional, atualmente, é baixíssimo. Além disso, como o ritmo está muito acelerado e, com isso, a Petrobras não tem mais condições de entrar em todos os leilões.

Quando você olha o cronograma todo, da queda da presidenta Dilma à chegada do Temer (MDB), toda a desregulamentação do setor do petróleo foi muito acelerada. 

Eles mataram exatamente três coisas em menos de um ano: acabaram com o conteúdo nacional, retiraram a obrigatoriedade da Petrobras explorar todas as áreas e, logo na sequência, saiu um cronograma com dois ou três leilões por ano. Esses eram os grandes objetivos deles.

Mas é óbvio que a concessão ainda é melhor que a partilha, do ponto de vista do capital privado. Mas não acho que seja prioritário na agenda acabar com esse modelo de partilha. Se eles quisessem, teriam acabado com a partilha já em 2015, 2016. Obviamente, o campo progressista agora está muito mais enfraquecido e ao ver a oportunidade podem querer acabar com a partilha de uma vez. Não é novidade para ninguém que essa é a pauta do José Serra, ele está ali para isso. Mas, sinceramente, não acho que seja a prioridade das empresas.

Apesar do seu evidente avanço em relação aos ganhos do Estado brasileiro, o modelo de partilha não poderia ser apontado como uma síntese da política de conciliação de classes dos governos petistas, ou seja, com data de duração limitado?

Eu acho que temos que tomar muito cuidado. Eu acho que lei da partilha foi implementada dessa forma porque é inviável para a Petrobras explorar todo o pré-sal sozinha. A leitura que se tinha naquela época era: “a gente vai controlar a produção, mas ela não pode ser tão lenta ao ponto de não gerar demanda para fortalecer a indústria nacional”. Então, de alguma maneira era necessário do apoio de capital privado. Mas a Petrobras estava no centro do processo, tanto operacional, como operadora única, como tecnológico. Seria atraído investimento estrangeiro, mas isso é diferente do processo político que ocorreu com o PT.

Acho que em alguns momento o PT abriu mão de algumas bandeiras prioritárias nesse processo de coalizão de classes. Acredito que são processos complexos e diferentes. Não dá para transferir uma situação para a outra. A partilha é um pouco diferente. Estava se buscando atrair empresas estrangeiras, mas ainda com controle do Estado. Já no governo, o PT perdeu centralidade em alguns momentos. Eu concordo que você possa ter uma leitura que a partilha era uma forma de coalizão. Mas eu diria que o centro do controle estava muito mais na mão do Estado do que o processo de coalizão política, no qual o PT perdeu a capacidade de coordenação em muitos momentos.

Em um dos seus artigos, você destaca que a estratégia da atual direção da Petrobras de focar toda sua operação no Sudeste soa como retaliação ao Nordeste. Você acredita que haja um revide político do governo aos nordestinos? Além disso, você destaca que a saída da Petrobras de alguns setores não tem significado a entrada do capital privado. Qual será o impacto para territórios inseridos fora do eixo Rio-São Paulo dessa atual política da Petrobras?

Existe um pensamento muito simples e aparentemente lógico que convence muita gente, mas que é necessário ser problematizado. O raciocínio é o seguinte: com a saída da Petrobras dessas áreas, milhares de empresas entrarão, logo os investimentos crescerão. Somando toda a capacidade de investimentos dessas empresas, ela nunca será maior que a da Petrobras. Esse é um raciocínio simplista. Quando a Petrobras sai de um campo de terra lá no interior do Rio Grande do Norte ou do Ceará, quem vai entrar é uma empresa que tem capacidade de investimento milhares de vezes menor que a da Petrobras. Por isso, toda a estrutura que vai cercar aquela área terá um empobrecimento relativo. 

Essa empresa vai investir menos e pagar menores salários, por exemplo. As grandes empresas concorrentes da Petrobras, do ponto de vista global, não se interessam por essas áreas. A gente não vai ver a Exxon ou a Total comprando campos de terra que produzem 10 a 15 mil barris por dia no Nordeste. Por isso, uma transição abrupta e até de certa maneira violenta, como a que está acontecendo agora, terá um impacto regional gigantesco. Isso vai gerar pobreza inevitavelmente. 

Quando você olha a saída da Petrobras da produção de terra do Nordeste e de algumas outras áreas, como biocombustível, você vai cair no debate da estratégia e poderá concordar ou não. Agora quando a Petrobras sai dos setores de refino e petroquímica do Nordeste, aí soa retaliação porque ela vai manter o PGN no Rio de Janeiro, no Comperj, e as refinarias em São Paulo, por exemplo. 

Qual o argumento para vender a Refinaria Abreu e Lima (RNest), que é nova e produz óleo bunker, que é valiosíssimo para a companhia? Qual argumento de vender essa refinaria para manter uma outra antiga no interior de São Paulo, por exemplo? O argumento de que a Petrobras vai ficar apenas no maior mercado, que é São Paulo, também não é verdade. A Replan, por exemplo, vende gasolina para o centro-oeste. Eu não consigo ver um argumento econômico e técnico, nesse caso nem isso existe.

Por que ela escolheu a RNest [Refinaria Abreu e Lima, em Ipojuca (PE)] e a RLAM [Refinaria Landulpho Alves, em São Francisco do Conde (BA)] e não a Recap [Refinaria Capuava, em Mauá (SP)] e RBPC [Refinaria Presidente Bernardes, em Cubatão (SP)], por exemplo? O que diferencia uma refinaria da outra? Qual a lógica de abrir mão de todas as refinarias do Nordeste? Quando você olha o conjunto da obra e vê que não sobrará nada no Nordeste é inviável não pensar que existe um processo para além da decisão econômica e técnica. Quando você coloca todas essas peças no tabuleiro, é impossível não achar que haja uma retaliação. Porque são dois pesos e duas medidas.  

Grande parte dos artigos do livro foram publicados originalmente em veículos da grande imprensa. Qual a estratégia do Ineep em relação a esse diálogo com a mídia hegemônica? 

Eu acho que é preciso fazer um resgate histórico rápido. O Ineep nasceu ligado umbilicalmente às mídias sindicais. Ele é criado dentro da FUP, por isso, sua origem tem uma proximidade grande com a imprensa sindical. Evidentemente, as pautas do Ineep nem sempre coincidem com as pautas sindicais. Óbvio que os sindicatos se interessam por muita coisa que o Ineep produz, mas há uma série de questões que são próprias e voltadas para a categoria.

O Ineep tem uma importância para a mídia sindical, mas nunca será o centro. O centro é o movimento sindical. Partindo disso, o Ineep entende que precisa diversificar o seu espaço de atuação. A imprensa sindical não seria suficiente para a gente dar voz às nossas produções. Nesse sentido, começamos a buscar espaço com outras mídias. Evidentemente que essa aproximação foi mais fácil com alguns veículos do campo progressista, o que era algo fácil de imaginarmos. Carta Capital, Revista Fórum, Le Monde Diplomatique foram alguns deles.

O trabalho com a grande mídia é naturalmente mais difícil, não é tão simples. O Ineep começou a se preparar nesse processo para poder chegar nesses espaços. Tivemos que investir mais na nossa comunicação, que no início era muito precária. O trabalho de assessoria de imprensa da Federação Única dos Petroleiros (FUP) também foi fundamental. E por que a grande mídia é importante, do nosso ponto de vista? Porque quando você fala com um grande veículo, como o Valor Econômico e O Estado de São Paulo, é sinal que você tem alguma credibilidade técnica para poder tratar do tema. Independentemente do que esses jornais pensam, eles respeitam o que o Ineep está dizendo. Isso é fundamental para a gente.

E quando a nossa voz está dentro desses grandes meios, nós entendemos que o Ineep está cumprindo um papel importante para o movimento sindical e para o campo progressista. Ou seja, é uma forma de colocar um ponto de vista que muitas vezes não tem espaço na grande imprensa. O Ineep tem o papel de gritar na grande mídia: ‘não é bem assim’. A gente tem que entrar na grande mídia pra gritar essa frase, em resumo. ‘Não é bem assim, existe uma outra visão sobre o petróleo’. O Ineep se fortalece institucionalmente fazendo isso. A gente precisa furar a bolha e eu acredito que estamos tendo êxito nesse sentido. Nós queremos falar com todo mundo. 

[Edição: Mariana Pitasse]

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[Do Brasil de Fato | Reportagem: Jaqueline Deister]

Demissões, redução de salários, aumento de jornada, falta de transparência com relação ao número de trabalhadores contaminados pela covid-19 e fechamento de plataformas são alguns dos problemas vivenciados diariamente pelos trabalhadores da Petrobras durante a pandemia.

De janeiro a junho deste ano, 56.473 trabalhadores terceirizados da Petrobras nas atividades de “Apoio à Operação Direta e Indireta” e “Parada de Manutenção” foram demitidos. O levantamento foi compilado pelo economista e técnico do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), Cloviomar Cararine, com base em dados de sindicatos representantes de profissionais terceirizados da companhia em todo o país.

O Sudeste concentra o maior número de funcionários deste setor, somando, ao todo, 37.245 trabalhadores e 5.146 demissões no período. Na região, o estado do Rio de Janeiro foi um dos mais impactados: além de encerrar contratos de terceirizados, perdeu arrecadação com a diminuição da produção.

“O principal efeito para o Rio foi a redução de arrecadação, o segundo efeito é o emprego. A gente começa a perceber que os trabalhadores do setor também sofrem. Por conta da pandemia, vários trabalhadores tiveram que ir para as suas casas. O caso do Comperj [Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro], por exemplo, que as obras estavam andando e teve que parar. E as empresas terceirizadas demitiram alguns trabalhadores porque a Petrobras reduziu a demanda”, detalha o economista.

Durante a crise causada pela pandemia, a empresa adotou o chamado “Plano de Resiliência da Petrobras”, que entrou em vigor em 1º de abril. Dentre as medidas, o programa estabelece a redução temporária da jornada de trabalho dos empregados do regime administrativo, de oito para seis horas diárias, com a redução proporcional da remuneração em 25%, nos meses de abril, maio e junho de 2020. 

No Rio, no entanto, a decisão foi barrada no mês de maio pelo presidente do Tribunal Regional do Trabalho da 1ª Região (TJ-RJ) em resposta a uma ação civil pública protocolada por cinco sindicatos da categoria. A medida afetaria aproximadamente 16 mil funcionários do setor administrativo da companhia que estão alocados no estado. Ao todo, a Petrobras tem 21 mil funcionários no setor.

Covid-19

Já parte dos trabalhadores da área operacional, cerca de 49% das plataformas e 37% das refinarias, que se enquadram no grupo de risco, foram deslocados para home office, também com redução de salário. Entre os que continuaram atuando nas plataformas e refinarias, há a preocupação diária do risco de contágio pela covid-19. 

Brasil de Fato conversou com um profissional que atua embarcado na Bacia de Campos dos Goytacazes, no Norte Fluminense, que preferiu não se identificar, sobre os protocolos de segurança adotados pela Petrobras para proteger os trabalhadores que atuam em plataformas. Segundo o trabalhador, que contraiu a covid-19 na plataforma, as medidas da empresa não foram colocadas em prática desde o início por algumas gerências de plataforma e isso gerou uma explosão de casos da doença entre os meses de maio e junho.

“Houve negligência no início. A empresa adotou um bom protocolo. No meu caso, a minha gerência optou por não seguir aquele protocolo inicial e houve esse impacto. Diante do que aconteceu, inicialmente a estrutura era bem mais precária, cheguei no hotel em Itaboraí [RJ] e não tinha uma ambulância disponível. O hospital era público, não era de rede conveniada. Depois que nos transferiram para um hotel com mais condições de estrutura médica”, conta.

De acordo com o médico Ricardo Duarte, que atua no Sindicato dos Petroleiros do Norte Fluminense (Sindipetro-NF), a Petrobras não tem sido transparente com a divulgação de dados de contaminados por covid-19 na empresa e isso dificulta o acompanhamento do real panorama da doença. A contagem é feita de forma parcial e por semana desconsiderando o número total. 

"Hoje dizem que testam e tem testado, mas fazem testagem rápida e não molecular, mas a interpretação que dão para as testagem tem colocado em risco os trabalhadores, porque dizem que num teste rápido independente, que pode não dar um resultado verdadeiro, se ele der os anticorpos, principalmente, o IgG, eles dizem que a pessoa não precisa testar nunca mais, é uma pessoa considerada com anticorpo para a doença. E isso não é verdade”, detalha o médico.

Outra questão é a segurança para atender o funcionário contagiado e evitar o contato com aquele que não está. “O primeiro problema é transporte, chegar e sair para o embarque e pegar helicóptero que não tem garantia do distanciamento mínimo necessário. Tem muito problema com a comida nas refinarias e terminais, a pessoa tem que sair e ir para um restaurante central porque as copas foram fechadas", complementa.

Responsabilidade

Em meio ao cenário de incertezas, na última quinta-feira (24), a Federação Única dos Petroleiros (FUP) entregou à Petrobras a pauta de reivindicações da categoria petroleira no processo de aprovação do Acordo Coletivo de Trabalho (ACT) de 2020. 

O documento exige que a empresa tenha previsibilidade nas ações da companhia em relação a seus trabalhadores, o que inclui negociar com os representantes sindicais medidas como o retorno às atividades presenciais durante a pandemia de covid-19 e as regras para implementação do teletrabalho. 

Deyvid Bacelar, coordenador geral da FUP, explica que a pauta de reivindicação tem como base a defesa dos direitos dos trabalhadores, da soberania nacional e da energia renovável. 

“Várias empresas privadas estão renovando os acordos. Ninguém quer confusão. A gestão Castello Branco [presidente da Petrobras] quer impor uma série de mudanças neste momento. A Petrobras é uma empresa integrada que vai desde a exploração e produção de petróleo e gás até à termelétricas, biocombustíveis, energias renováveis. Essa gestão quer se desfazer de tudo isso. Cobramos o início de uma negociação sobre o pós-pandemia, a retomada das atividades das pessoas que estão em teletrabalho, uma posição contrária as privatizações e a pauta da negociação coletiva do acordo coletivo de trabalho”, ressalta Bacelar.

[Edição: Mariana Pitasse]

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[Da imprensa da FUP]

Enquanto as principais empresas de petróleo aumentam os investimentos em fontes limpas de energia, a Petrobrás caminha na direção contrária, abandonando o setor de biocombustível. A PBIO é mais um ativo estratégico que a gestão Castello Branco colocou à venda em meio à pandemia, num momento em que os preços estão depreciados, em função da retração do setor de óleo e gás.

Na próxima segunda-feira, 03/08, a FUP fará uma reunião por videoconferência, às 19h, com os Sindipetros Bahia, Ceará e Minas Gerais para discutir as ações em curso para barrar a venda das unidades de biocombustível e alinhavar uma estratégia conjunta com todos os sindicatos que tenham bases da PBIO. Por isso, é importante que o Sindipetro-RJ, que representa os trabalhadores da sede, também participe da reunião. 

Além de um péssimo negócio para a Petrobrás, a venda da PBIO é ilegal, conforme parecer da Advocacia Garcez, que assessora os sindicatos da FUP que estão na linha de frente para impedir a venda das usinas de Quixadá (CE), Montes Claros (MG) e Candeias (BA). O documento aponta que, para burlar a legislação, a gestão Castello Branco transferiu em novembro de 2019 o controle das três usinas para a subsidiária PBIO, numa manobra jurídica para poder vender os ativos sem licitação e sem autorização do legislativo, favorecendo-se da decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), que permitiu esse tipo de negociata, em se tratando de subsidiária.

O parecer da Garcez ressalta que “o que a Petrobrás está vendendo, basicamente, não é a PBIO, mas as três usinas de biodiesel que, até 8 de novembro de 2019 eram ativos da empresa-matriz”. O documento também chama a atenção para o fato da “suposta autorização concedida pela liminar do Plenário do STF” ter sido baseada no “voto médio em liminar plenária”, ressaltando que “está pendente, ainda, a decisão de mérito das ADIs nº 5.624, nº 5.846 e nº 5.924”.

“Além de amoral, a privatização das usinas da PBIO é ilegal”, afirma o coordenador do Sindipetro-MG, Alexandre Finamori. Ele lembra que a FUP e seus sindicatos vêm se mobilizando há pelo menos quatro anos para impedir o desmonte do setor de biodiesel. Diversas audiências públicas foram realizadas, além de paralisações e reuniões com os gestores.

Em outubro de 2016, quando a então gestão de Pedro Parente anunciou o fechamento da usina de Quixadá, no Ceará, a FUP e o Sindipetro-CE/PI denunciaram os impactos que essa medida teria sobre as nove mil famílias de pequenos agricultores do semiárido que abasteciam a unidade com oleaginosas. A resistência impediu o fechamento da usina, mas a gestão da Petrobrás seguiu adiante no desmonte do setor e colocou a unidade em hibernação em 2017. Hoje, somente as usinas de Montes Claros e Candeias continuam em atividade.

“Quando em 2004, o governo Lula lançou o PNPB (Plano Nacional Produção de Biodiesel), com foco no desenvolvimento da agricultura familiar e na sustentabilidade energética, nenhuma empresa privada se interessou, mesmo com os incentivos econômicos e tributários. Em 2008 e em 2009, a Petrobrás inaugurou suas três primeiras usinas de biodiesel, todas em locais de vegetação semiárida e baixo nível de industrialização, possibilitando, assim, ferramentas de desenvolvimento da agricultura familiar e desenvolvimento regional”, explica Alexandre Finamori.

A PBIO chegou a ter participação em 10 usinas de etanol, capacidade de moagem de 24,5 milhões de toneladas de cana, produção de 1,5 bilhão de litros por ano e 517 GWh de energia elétrica a partir de bagaço de cana e meta de chegar a um volume de 5,6 bilhões de litros de biodiesel. A Petrobrás já abriu mão de quase todas as participações societárias da subsidiária. Hoje, tem apenas 50,0% de participações na BSBios e 8,4% na Bambuí Bioenergia, além do controle integral das três usinas de biocombustível, que foram colocadas à venda.

Segundo a própria Petrobrás informou ao mercado, a PBIO “terá um crescimento expressivo de 25% do mandato de mistura de biodiesel nos próximos três anos (B12 to B15)”, é “porta de entrada e expansão no 3º maior mercado de biodiesel do mundo", "localização estratégica, com acesso privilegiado aos mercados brasileiros das regiões Sudeste e Nordeste”, entre outros atributos.

“Como aconteceu no refino, o setor privado não quis construir as usinas de biodiesel. A Petrobrás foi lá e fez, mostrando que era possível. Depois que as usinas se tornaram realidades e economicamente viáveis, querem privatizar. Essa é a lógica dos que querem o desmonte do Brasil, estatizar os investimentos e privatizar os lucros”, afirma Finamori.

Através de ações jurídicas e políticas, a FUP e seus sindicatos continuam defendendo a PBIO e a Petrobrás como empresa integrada de energia. "A gestão Castello Branco se aproveita do isolamento social, que limita as mobilizações da categoria, para acelerar o seu plano de desmonte. Mas, a pandemia vai passar e esse governo, também. Retomaremos as lutas nas ruas e nas unidades. A Petrobrás não será reduzida a uma empresa apequenada, suja e sem projetos estratégicos de energia", afirma o coordenador geral da FUP, Deyvid Bacelar.

Defender a PBIO é defender a Petrobrás, é defender investimento em energias renováveis, é defender a indústria Brasileira. Defender a PBIO é defender o Brasil.

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Enquanto propõe aos trabalhadores reajuste zero, Castello Branco quadruplica a sua remuneração e a dos demais integrantes da diretoria da Petrobrás. Juntos, eles consumirão R$ 43,3 milhões da receita anual da empresa, o que representa uma média de R$ 400 mil mensais para cada um. A gestão informou à imprensa que o aumento da remuneração está alinhado “ao novo foco da Petrobras de valorizar a meritocracia e maximizar os resultados.”

Ou seja, a gestão Castello Branco aproveita-se da pandemia não só para acelerar as privatizações e reduzir gastos às custas dos trabalhadores, mas também para premiar os que contribuem para o desmonte da empresa e do ACT.

As medidas de resiliência impostas aos trabalhadores em abril, com cortes de direitos e reduções de salários, pelo visto serviram para bancar o reajuste da diretoria. Mais de 20 mil trabalhadores do administrativo teve que amargar 25% de redução salarial e milhares de outros petroleiros de áreas operacionais foram sumariamente desimplantados do turno, com impactos de 50% em suas remunerações.

A FUP denunciou na época que se a Petrobrás suspendesse a distribuição de dividendos aos acionistas e o pagamento de reajustes, bônus e programas de remunerações variáveis para os gestores, pouparia R$ 4,406 bilhões, praticamente o dobro dos 2,4 bilhões que anunciou que economizaria com as medidas de resiliência. [Veja aqui]

Enquanto exige sacrifício dos trabalhadores, a gestão Castello Branco protege os interesses da diretoria e dos acionistas a quem destinou mais R$ 1,7 bilhão em plena pandemia, lembrando que eles já haviam recebido R$ 9 bilhões em 2019. Só para ter uma ideia do que isso representa para os trabalhadores, os R$ 10,7 bilhões pagos aos acionistas equivalem a quase o dobro do que a Petrobras investe em SMS.

Que desculpa a diretoria da Petrobrás usará se insistir em desmontar o Acordo Coletivo e continuar impondo perdas salariais aos trabalhadores?  

[Texto FUP/Imagem:figurinha dos grupos de aplicativos de mensagem da base]

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[Da imprensa do Sindipetro-NF]

A gestão bolsonarista da Petrobrás não é diferente em nada do governo que lhe serve de inspiração. Nem nos projetos fascistas de cerceamento do direito de comunicação e organização sindical. Nesta semana, o Sindipetro-NF obteve provas de que a companhia está bloqueando, pelo menos desde o mês de abril deste ano, os e-mails enviados pela entidade aos trabalhadores que se cadastraram para receber informes do sindicato utilizando endereço com @petrobras.

O sindicato vinha desconfiando da ausência de interações da categoria por meio deste canal de comunicação. Mas, como os e-mails não voltavam com acusação de algum problema de recebimento, a entidade não tinha certeza de que estavam sendo recebidos. Muitos trabalhadores, no entanto, confirmaram que não estavam recebendo as mensagens.

O NF solicitou à empresa que dá suporte ao site da entidade, e faz o envio das newsletters para os e-mails dos trabalhadores, que fizesse uma investigação sobre o que estava acontecendo. A empresa descobriu o bloqueio e enviou as provas para o sindicato.

“Enviamos um ofício para a Petrobrás e o nosso Jurídico está preparando a ação para garantirmos que todos aqueles que se cadastraram para receber os nossos informes tenham acesso de modo transparente e livre”, informa o coordenador do Departamento de Comunicação da entidade, Rafael Crespo.

A censura da empresa, além de ilegal, contraria documentos da própria companhia lançados no mês passado, como o Código de Conduta Ética e as Diretrizes de Direitos Humanos.

Publicado em SINDIPETRO-NF

[Da imprensa do Sindipetro-NF]

A gestão bolsonarista da Petrobrás continua a aproveitar a pandemia para “passar a boiada”, como é da lógica deste governo. Ontem, a companhia anunciou a conclusão da entrega de quatro plataformas da Bacia de Campos: a PPM-1, a P-08, a PCE e P-65. Elas fazem parte do pacote de dez campos à venda pela empresa, que abrangem os Polos Pampo e Enchova. Os novos donos de 100% um negócio que poderia dar lucro para o país por muitos anos é a Trident Energy do Brasil, subsidiária da multinacional Trident Energy L.P.

A empresa comemorou a entrega em posts nas redes sociais, com o requinte de crueldade de divulgar foto com chave simbólica da plataforma passada às mãos dos novos proprietários. Vídeo divulgado pelos trabalhadores mostra o último voo de petroleiros da Petrobrás, deixando a P-08, tendo que ainda serem submetidos a uma mensagem de “agradecimento” da gestão da companhia pelos serviços prestados na unidade.

Os neoliberais que estão desmontando a Petrobrás chamam a venda de “otimização de portfólio”, para “melhoria de alocação do capital da companhia, passando a concentrar cada vez mais os seus recursos em águas profundas e ultra-profundas”. De acordo com a Petrobrás, a produção total de óleo e gás desses campos, de abril a junho de 2020, foi de cerca de 22 mil barris de óleo equivalente por dia, através das quatro plataformas que agora se tornam privadas.

“A operação foi concluída com o pagamento de US$ 365,4 milhões para a Petrobras, após o cumprimento de todas as condições precedentes, e considerando ajustes previstos no contrato e outras condições posteriormente acordadas entre as partes, e prevê o pagamento contingente de um valor adicional de US$ 650 milhões, incluindo US$ 200 milhões divulgados em 24/07/19. O valor recebido no fechamento da transação se soma ao montante de US$ 53,2 milhões pagos à Petrobras na assinatura dos contratos de venda, totalizando US$ 418, 6 milhões”, afirma a empresa, atestando o crime de entregar um patrimônio que, além de estratégico, vai gerar lucro muito maior do que o valor recebido pela venda — do contrário, não teria interessado a uma empresa privada.

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Em menos de dois anos de gestão Castello Branco, os quadros de trabalhadores da Petrobrás já retrocederam aos anos 90. A meta dele, no entanto, é reduzir os efetivos da empresa aos níveis anteriores à descoberta da Bacia de Campos e à expansão do parque de refino. Em 1973, a Petrobrás empregava 32 mil trabalhadores. Castello Branco quer chegar a, no máximo, 30 mil.

Só no primeiro semestre deste ano, as demissões em massa, via planos de desligamentos, cortaram 22% do atual efetivo da empresa, que gira em torno de 45,5 mil trabalhadores próprios. Segundo comunicado da estatal à imprensa, 10.082 petroleiros aderiram ao Programa de Aposentadoria Incentivada (PAI), lançado em abril, e aos PDVs direcionados aos trabalhadores de unidades que estão sendo vendidas ou desativadas. 

É a maior saída em massa de trabalhadores da Petrobrás em um espaço tão curto de tempo. As adesões que os planos de desligamentos tiveram nos últimos meses equivalem a cerca de 60% de todos os 17.590 petroleiros que deixaram a empresa nos PDVs dos últimos cinco anos. Os gestores, no entanto, querem dispensar mais 15 mil trabalhadores. Na Transpetro, também está em curso um PDV, com o objetivo de atrair 557 petroleiros, cerca de 10% do efetivo da subsidiária.

Castello Branco reproduz na Petrobrás a mesma tática do governo Bolsonaro: aproveita-se da pandemia da covid-19 para passar a boiada, acelerando as privatizações e o encolhimento da empresa. Hoje, 49 ativos estão à venda, 17 deles anunciados no primeiro semestre de 2020, em meio ao avanço do coronavírus. A atual gestão é responsável por 88% de todas as ofertas em curso neste feirão, incluindo refinarias, dutos, terminais, campos de petróleo, termoelétricas, usinas de biodiesel, plataformas e muito mais.

O desmonte passa diretamente por demissões em massa, não só de trabalhadores próprios, como também dos contratados. Levantamento da subseção Dieese da FUP aponta que pelo menos 9.200 trabalhadores terceirizados que atuavam em áreas de apoio à operação e manutenção das unidades foram demitidos entre abril e junho deste ano.

O coordenador da FUP, Deyvid Bacelar, chama a atenção para o aspecto coercitivo dos PDVs que estão sendo oferecidos aos empregados das áreas hibernadas, vendidas e em processo de privatização. “Os trabalhadores estão sendo compulsoriamente transferidos, num processo cruel de desestruturação das famílias, o que faz com que muitos optem pelos PDVs”, afirma.

“Está havendo uma ruptura na cultura de gestão da Petrobrás que terá graves consequências para a empresa. Nós tínhamos uma política de retenção de talentos e agora nós temos um processo de perda desse capital intelectual e da memória técnica da Petrobrás, o que comprometerá o desenvolvimento de novas tecnologias e o conhecimento técnico da própria empresa”, explica o coordenador da FUP.

Outra consequência desse desmonte é o aumento dos acidentes, devido à insegurança que compromete as unidades operacionais operadas por efetivos cada vez mais reduzidos. “Esses petroleiros, que já estão trabalhando em condições extremamente inseguras, com regimes e jornadas desrespeitados, serão ainda mais penalizados. A FUP e seus sindicatos têm alertado para a iminência de um grande acidente ampliado no Sistema Petrobrás. Mas, em vez de repor efetivos, a empresa reduz ainda mais os quadros, transformando as unidades em bombas relógio”, alerta Deyvid.

[FUP]

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Sob a gestão predatória de Castello Branco, a Petrobrás está se transformando eminentemente em uma exportadora do petróleo de altíssima qualidade produzido no pré-sal. A empresa já exporta metade da sua produção diária, cerca de um milhão de barris de petróleo, enquanto o povo brasileiro é obrigado a consumir derivados importados. Não é de hoje que a FUP e seus sindicatos denunciam os riscos desta equação, cujo resultado tem sido sempre desfavorável para o consumidor. Além de pagar preços internacionais nas bombas de gasolina e diesel, ele é também enganado com combustível adulterado, como aconteceu agora com a gasolina de aviação importada pela gestão bolsonarista da Petrobras.

A Associação de Pilotos e Proprietários de Aeronaves (Aopa) levantou a suspeita sobre a qualidade do produto, ao denunciar os danos causados nos tanques de combustível, como corrosões e derretimento de peças. Os problemas, segundo os pilotos, vêm ocorrendo desde junho, com consequências graves para a segurança dos voos, o que levou a entidade a suspeitar da qualidade do combustível, que deixou de ser produzido pela Petrobrás e hoje é 100% importado.

A única refinaria que fornecia gasolina de aviação para o país é a RPBC, em Cubatão (SP), cuja produção foi interrompida pela Petrobrás devido às obras na unidade. O combustível é usado no abastecimento de cerca de 12 mil aviões de pequeno porte, a maioria deles taxi aéreos e aeronaves privadas. No final de semana, a empresa interrompeu o fornecimento da gasolina importada, o que causou a suspensão de voos em 19 aeroportos.

A Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) e a Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) estão investigando o caso. A aviação comercial não foi afetada pelo desabastecimento, pois as aeronaves de médio e grande portes utilizam combustível diferente, o querosene de aviação.

Para o coordenador da FUP, Deyvid Bacelar, o fato é grave e deve servir de alerta para todos os brasileiros. “A decisão deliberada da gestão da Petrobrás de reduzir a produção das refinarias, priorizando a exportação de óleo cru, em detrimento do mercado nacional, deixou o Brasil refém das importações de derivados. O risco de crises internacionais e desabastecimento que nós prevíamos já estão acontecendo. Hoje o problema é com a gasolina de aviação, amanhã pode ser com a gasolina comum e o diesel”, alerta Deyvid, ressaltando que a situação pode piorar, se as refinarias da Petrobrás forem privatizadas, como quer o presidente da empresa.

[FUP, com informações da AOPA | Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil]

 

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[Do portal Petróleo dos Brasileiros | Por Guilherme Weimann]

Mesmo com o apoio irrestrito à privatização por parte do governo de Jair Bolsonaro (sem partido), principalmente do ministro da Economia, Paulo Guedes, a direção da Petrobrás está recorrendo a uma manobra jurídica para fugir da decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre o tema e acelerar as vendas de ativos.

Em plena pandemia do novo coronavírus, a companhia criou duas subsidiárias, com ativos na área de refino e logística. A subsidiária Nordeste reúne as refinarias Landulpho Alves (RLAM), na Bahia, e Abreu e Lima (RNEST), em Pernambuco, além de dutos e terminais interligados. Já a subsidiária Sul contempla as refinarias Alberto Pasqualini (Refap), no Rio Grande do Sul, e Presidente Getúlio Vargas (Repar), no Paraná, além de dutos e terminais aquaviários.

No final de abril, a Petrobrás anunciou que pretende se desfazer de 60% da sua participação acionária nas novas empresas. A medida, entretanto, é considerada por diversos setores como uma tentativa de driblar sentença do STF, de junho do ano passado, quando os ministros liberaram a venda de subsidiárias pelo governo sem necessidade de lei específica ou licitação.

O veredito da Corte derrubou liminar do ministro Ricardo Lewandowski, de junho de 2018, que havia proibido a venda do controle acionário de empresas públicas e de suas subsidiárias sem aval do Legislativo e licitação prévia. Na ocasião, o magistrado justificou o parecer pela “crescente vaga de desestatizações que vem tomando corpo em todos os níveis da federação, a qual, se levada a efeito sem a estrita observância do que dispõe a Constituição, poderá trazer prejuízos irreparáveis ao país”.

Como alegação central, Lewandowski citou que a Constituição prevê lei específica, aprovada pelo Legislativo, para criar empresas públicas e suas subsidiárias, e, com isso, o mesmo processo deveria ser feito no sentido de se desfazer desses patrimônios.

No julgamento em plenário, todavia, apenas Edson Fachin votou a favor dessa argumentação. Todos os demais, por outro lado, entenderam que a venda de subsidiárias pode ser realizada como parte da gestão do governo. Na ocasião, o ministro Luís Roberto Barroso justificou o voto dizendo que era necessário “superar esse fetiche do Estado como protagonista de tudo”.

Apesar do aceno positivo ao processo de desestatização, o STF manteve a necessidade de lei específica, licitação e aprovação do poder Legislativo para a venda do controle acionário da “empresa-mãe”. Com base nisso, o Congresso Nacional entrou com uma petição questionando a criação de novas empresas subsidiárias pela direção da Petrobrás, o que eles consideram uma manobra para burlar a própria decisão do Supremo.

O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), enviou manifestação ao STF denunciando a manipulação. “Essas novas empresas serão criadas artificialmente com o exclusivo propósito de propiciar a posterior venda direta ao mercado. A prática, se for levada a efeito de maneira gradual e contínua, abrirá caminho para que meros atos do Conselho de Administração da Companhia, do qual participam, por óbvio, representantes do Poder Executivo, e não do Legislativo, permitam o desmembramento da ’empresa-mãe’ em várias subsidiárias para, a seguir, alienar o controle de cada uma delas. Ao fim e ao cabo, por essa sistemática, será possível dispor, paulatinamente, de todo o patrimônio estratégico da empresa”.

Desmonte

Em 2019, no primeiro ano do governo Bolsonaro, a Petrobrás se desfez de um total de US$ 16,3 bilhões em ativos, incluindo a venda da Transportadora Associada de Gás (TAG) e de parte da BR Distribuidora.

Em dezembro passado, durante evento em Nova York, o presidente da companhia, Roberto Castello Branco, foi explícito ao afirmar que o objetivo da atual gestão é restringir a atuação da Petrobrás ao Sudeste, focada apenas na exploração do pré-sal. “A Petrobras vai ser uma companhia bem focada em exploração e produção de petróleo e gás natural em águas profundas, geograficamente concentrada no Sudeste brasileiro, em três estados: Espírito Santo, Rio de Janeiro e São Paulo”, especificou.

Neste ano, a estratégia está sendo levada a cabo, apesar da pandemia do novo coronavírus, que já contaminou 1.391 trabalhadores, de acordo com a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) – ao menos três faleceram.

Apenas durante a pandemia, a estatal já anunciou a venda da totalidade de suas participações em quatro campos terrestres, localizado na Bacia de Tucano, no interior da Bahia; de 35% do que detinha no campo de Manati, localizado na Bacia de Camamu, também na Bahia; da totalidade de suas ações nos sete campos de produção terrestre na Bacia do Potiguar, no Rio Grande do Norte; de três campos de águas rasas do Polo Pescada, também na Bacia do Potiguar; e da totalidade do que detinha nos sete campos terrestres do Polo Urucu, na Bacia de Solimões, no Amazonas.

A Petrobrás também divulgou o início do processo de venda integral da Petrobras Biocombustível S.A. (PBIO), incluindo três usinas de biodiesel, e de sua participação remanescente de 10% no capital da Nova Transportadora do Sudeste (NTS). Além disso, informou a intenção de se desfazer de 51% do restante das ações que ainda possui na Petrobras Gás S.A. (Gaspetro) – os outros 49% já foram vendidos à Mitsui em 2015 – e de oito refinarias – de um total de 13.

Durante teleconferência com analistas em fevereiro, em plena greve dos petroleiros que paralisou 121 unidades da companhia, Castello Branco afirmou que “a falta de competição é ruim para a Petrobrás, porque se não tem competidores, [a empresa] acaba virando um fat cat [gato gordo]. Por que vou cortar custos, produzir inovações? Não tem ninguém aí para desafiar”, opinou.

No entanto, um estudo da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC – Rio) contradiz a principal argumentação a favor da privatização do parque de refino. A falta de infraestrutura de interligação do mercado impossibilitará a competição e poderá facilitar o surgimento de monopólios regionais, caso as privatizações sejam realizadas.

O coordenador da Federação Única dos Petroleiros (FUP), Deyvid Bacelar, critica o que considera ser um encolhimento da estatal. “Temos certeza de que a população brasileira não quer ver uma Petrobrás pequena, refém do mercado internacional, o que fará com que nós, consumidores, paguemos mais pelos derivados que deveriam ser vendidos a preços justos. Por isso, é fundamental que a população se junte a nós para que possamos defender essa empresa que é patrimônio do povo brasileiro e assim, defendermos preços justos para os derivados de petróleo”, avalia.

O STF ainda não se pronunciou sobre a manifestação apresentada pelo Congresso Nacional na ação mencionada.

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[Com informações da imprensa do Sindipetro-BA]

A direção da Petrobras anunciou a venda da Petrobras Biocombustível S.A, a PBIO, que possui três plantas de produção localizadas nos estados de Minas Gerais, Bahia e Ceará.

Ao anunciar a venda da subsidiária, a atual gestão da Petrobrás lançou um comunicado ao mercado para mostrar aos prováveis compradores o bom negócio que farão ao adquirir a empresa.

Segundo a própria Petrobras, a PBIO terá um crescimento expressivo de 25% do mandato de mistura de biodiesel nos próximos 3 anos (B12 to B15), é porta de entrada / expansão no 3º maior mercado de biodiesel do mundo com localização estratégica com acesso privilegiado aos mercados brasileiros das regiões Sudeste e Nordeste, entre outros atributos.

Por que então a Petrobrás está vendendo um potencial negócio em um momento de pandemia, crise econômica e crise do setor petróleo? A resposta é simples. Assim como o Ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, a direção da Petrobrás e o governo Bolsonaro estão aproveitando o período conturbado para “ir passando a boiada”. Ou seja, eles dão continuidade ao projeto de privatização da Petrobrás vendendo de imediato as unidades menores para não chamar a atenção. E fazem isso como se nada estivesse acontecendo no Brasil e no mundo.

Além de depreciar a PBIO, colocando-a à venda em um momento de crise, onde o preço do ativo está em baixa, a direção da Petrobrás, está se colocando na contramão das grandes empresas que valorizam e pensam estratégias ecológicas e de proteção ao meio ambiente.

Como empresa que produz e refina petróleo, a Petrobrás, no mínimo, deveria dar uma contrapartida para proteger o meio ambiente. Uma fábrica de produção de biocombustíveis é ideal nesse caso. Dá lucro e tem mercado em expansão. Além de ser naturalmente menos poluente, o biodiesel também reduz as emissões poluentes dos derivados de petróleo. Mas a atual gestão da Petrobrás, com DNA bolsonarista, não se importa com meio ambiente ou soberania nacional. Eles querem mesmo é vender tudo (a preços baixos) e privatizar o Sistema Petrobrás. Para isso eles seguem “passando a boiada”.

Expressão

A expressão “ir passando a boiada” foi dita pelo Ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, em reunião com o presidente Bolsonaro e outros ministros em 22 de abril, cuja gravação foi divulgada pelo STF. Salles disse que a pandemia da Covid-19 era uma oportunidade e que o governo deveria aproveitar para mudar regras que podem ser questionadas na Justiça (…) “e passar as reformas infralegais de desregulamentação”, ressaltando que isso serviria também para outros ministérios.

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A Federação Única dos Petroleiros (FUP) foi criada em 1994, fruto da evolução histórica do movimento sindical petroleiro no Brasil, desde a criação da Petrobrás, em 1953. É uma entidade autônoma, independente do Estado, dos patrões e dos partidos políticos e com forte inserção em suas bases.

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