Sindipetro destaca história de petroleiras que marcaram a luta sindical em Minas

Segunda, 05 Março 2018 14:53

Antes mesmo de ser inaugurada, a Refinaria Gabriel Passos (Regap) – primeira unidade da Petrobrás em Minas Gerais – já tinha mulheres para seu quadro de funcionários.

Uma de suas primeiras funcionárias foi Sandra Meira Starling, que ingressou na empresa em 1962, aos 18 anos. Ela participou não só da fase de elaboração do projeto de construção da Regap, como também da fundação do Sindicato dos Trabalhadores da Indústria do Petróleo (Sindipetro), que oficialmente ocorreu em 1963.

Participou ainda da primeira diretoria do Sindipetro/MG, ocupando o cargo de secretária-geral. No entanto, em virtude do golpe militar dado em 31 de março de 1964, o Sindicato sofreu intervenção e todos os seus diretores foram cassados. Por causa das pressões políticas, Sandra foi obrigada a abandonar a Petrobrás em setembro de 1964.

Também foi nesse contexto que a atual diretora do Sindipetro/MG, Letícia Staela Mansur Duval, de 75 anos, entrou para a Petrobrás. Aprovada em concurso público, ela começou a trabalhar em 1965 na elaboração do projeto de construção da refinaria, inaugurada em 1968. No entanto, saiu em 1966 e só retornou à empresa em 1984, já com a Regap em operação.

mulheres-3-porta-regap

Por mais de 30 anos, ela trabalhou no setor administrativo da refinaria, entrando para a diretoria do Sindicato em 2011, onde permanece até hoje. “Eu sempre fazia greve, sempre fui grevista. Então, quando voltei para a Petrobrás eu já me sindicalizei. E, na época, tinha a Terezinha no sindicato, que era daquelas que fervia e tinha muita gente que participava das coisas que o Sindicato fazia. Então, eu fui me aproximando e, em 2011, a convite do Leopoldino eu entrei para a chapa”.

Terezinha Caldeira Lacerda foi outra importante mulher que esteve à frente do Sindipetro/MG na década de 90 e encabeçou importantes lutas em prol da melhoria das condições de trabalho na Regap. Hoje, aos 67 anos e já aposentada, Terezinha conta que entrou para a Regap em 1986 e para o Sindicato em 1990. Foi uma das primeiras mulheres a disputar uma vaga para a operação, quando a Petrobrás passou a admitir pessoas do sexo feminino no setor.

“Minha experiência no Sindicato foi muito enriquecedora. Nós tínhamos que matar uma leão por dia para obter as conquistas pelas quais lutávamos, mas foi uma época muito boa”, conta a aposentada, que ficou na direção do Sindicato até 1993 e, em seguida, no Conselho Fiscal da entidade na gestão de 1999 a 2002.

rosangela2

Terezinha tirava de letra as duplas jornadas, típicas na vida de quase toda mulher até os dias atuais e um dos principais fatores que afastam algumas mulheres da escola, da política e de diversos outros ambientes. Na época que entrou para o Sindicato, ela era separada e tinha dois filhos ainda menores de idade: “eu levava meus filhos comigo. Eles iam para as greves, congressos, e até uma viagem que fizemos à Brasília”.

No entanto, uma das mais árduas batalhas enfrentadas por ela na Refinaria e também no próprio Sindicato era a luta contra o machismo e a discriminação sofrida pelas mulheres. “A Regap era muito ditatorial e as mulheres quase não tinham chances. Lembro-me que, nesta época, só havia duas ou três mulheres na chefia da refinaria e o machismo dentro da empresa era muito grande. E quando eu entrei para o Sindicato éramos só eu e Rosângela [Maria Lage] na diretoria, o restante eram homens”.

Ela relembra ainda que, até final dos anos 90, havia setores na Petrobrás onde apenas homens podiam trabalhar. Até mesmo os concursos públicos tinham vagas separadas por sexo. “Se eu não estou enganada, foi por volta de 1997 que abriu-se a possibilidade de mulher trabalhar na operação, o que até então era proibido. E então foram três mulheres, a Regina, uma moça do Secra e a Ana Lúcia. Em 1999, eu me candidatei e passei a trabalhar como operadora, juntamente com a Rosane e a Euda. Éramos cinco ou seis operadoras em toda a Regap nesse período”.

img_8194

Esse é um outro capítulo da história de Terezinha, onde o machismo deixou marcas. “Eu sofri muita perseguição na operação por ser mulher. Eles fizeram de tudo para eu poder desistir e, por fim, me tiraram em 2004 ou 2005. Eu relatava tudo que acontecia nos relatórios diários e denunciava tudo que via de errado acontecendo. Até na ouvidoria eu entrei. Mas, depois que fui tirada da operação, a perseguição já era tanta que pedi transferência para o Espírito Santo, onde me aposentei em 2016”, contou.

A luta de todas essas mulheres na Regap e nas unidades da Petrobrás em todo o País resultou em um número maior de mulheres na empresa, um aumento da presença feminina em cargos de chefia e também nos sindicatos e entidades de classe. Hoje, a diretoria do Sindipetro/MG, por exemplo, tem quatro mulheres em sua composição: Cristiane Reis (Usina de Biodiesel Darcy Ribeiro), Letícia Staela (aposentada), Márcia Nazaré de Lima (Regap) e Maria Edna Vieira (Regap). Em outros sindicatos já tivemos mulheres na coordenação, como a Cibele Vieira, no Sindicato Unificado de São Paulo, na gestão passada. Um cenário que aos poucos está mudando, mas que ainda demanda muita luta das mulheres para conquista de mais espaço, respeito e representação.

EXEMPLO DE LUTA

cidinha

Em 1979, Maria Aparecida de Souza, mais conhecida como Cidinha, de 70 anos, começou a trabalhar em uma empresa terceirizada na Petrobrás. Ao longo de quase 40 anos, ela já passou por várias terceirizadas e acompanhou diversas mudanças dentro da estatal.

“Eu tenho sete filhos e, quando entrei, contava com a ajuda de uma mulher para olhá-los enquanto eu trabalhava. Eu cheguei a pegar serviço às 6h e voltava para casa só meia-noite porque quando eu saía do trabalho, eu ia dar faxina na casa de operadores da empresa e lavar seus uniformes na mão para completar a renda”.

Ela conta ainda que o marido não aceitava que ela trabalhasse fora.
«Meu marido não ajudava em nada e, na época, a fama de uma mulher que trabalhava na Petrobrás era ruim. Hoje é muito diferente”.

Algum tempo depois ela se separou do marido e, com muita luta, conseguiu criar os filhos, alguns deles inclusive chegaram a trabalhar em empresas que prestam serviço para a Regap.

[Via Sindipetro-MG]

Mídia

A Federação Única dos Petroleiros (FUP) foi criada em 1994, fruto da evolução histórica do movimento sindical petroleiro no Brasil, desde a criação da Petrobrás, em 1953. É uma entidade autônoma, independente do Estado, dos patrões e dos partidos políticos e com forte inserção em suas bases.

Instagram