updated 1:02 PM BRT, Jun 26, 2017
Segunda-Feira, 26 de Junho de 2017

OPINIÃO

Por Jandyra Uehara Alves, Secretária de Políticas Sociais e Direitos Humanos da CUT

Em 2012, o governo federal através da Secretaria Nacional de Direitos Humanos apresentou relatório apontando cerca de 1.200 mil camponeses mortos e desaparecidos durante o regime militar até o ano de 1988.

Entre 1984 e 1988 houve o maior índice de assassinatos, com mais de 100 crimes de morte por ano, num contexto de ascensão dos movimentos sociais, criação oficial do MST em 1984, de expectativa de redemocratização do país e de Reforma Agrária, de lutas e ocupações que os latifundiários responderam reprimindo, emboscando e assassinando trabalhadores rurais.

A violência no campo combinada com a ação do aparelho de estado a favor do latifúndio e a omissão em relação às demandas dos trabalhadores tem sido preponderante nos últimos 30 anos, com a priorização e o avanço do modelo agrário exportador, inclusive no último período.

Nos últimos 30 anos, de acordo com a CPT mais de 1.700 pessoas, entre indígenas, quilombolas, pescadores, agricultores, sem terras foram assassinados em conflitos ocorridos de norte a sul do país, em todos os estados brasileiros.  Menos de 10% foram a julgamento, nada mais eloquente para comprovar a conivência dos aparatos de segurança e do sistema judiciário com a matança promovida pelos latifundiários.

Em 2015 foram 49 assassinatos de trabalhadores rurais decorrentes de conflitos no campo.

Falar em retroceder na democratização do país para os lutadores e lutadoras do campo é no mínimo desrespeitar o suor e o sangue que seguem derramados na imensa vastidão de terras dominadas pelo latifúndio e pelo agronegócio.

A frágil democracia construída nos últimos anos não chegou ao campo, não foi capaz de deter o poder do latifúndio, de avançar na Reforma Agrária e persiste a versão “moderna” dos coronéis com seus jagunços e organizações paramilitares, que com o apoio das polícias e do judiciário segue tocando o terror, em lugares que o nosso olhar não alcança. A dor e a luta dessa gente que quer o direito de trabalhar e produzir de forma saudável o que irá para as nossas mesas não sai no Jornal Nacional.

A violência contra os que lutam e a sede de matança no campo estão exacerbadas pelo ambiente de ódio que disseminam pelo país através dos meios de comunicação. Não é de se estranhar que os mandantes, a polícia, os jagunços se sintam à vontade para suas ações covardes. A “licença” está dada e vai ao ar cotidianamente em rede nacional.

Nesta semana no Paraná, a emboscada de jagunços e policiais no Acampamento do MST e o assassinato dos jovens Vilmar Bordim e Leonir Orback ; na Paraíba o assassinato do militante da reforma agrária e presidente do PT de Mogeiro, Ivanildo Francisco da Silva.

A direita partidária, social e econômica tenta destruir a nossa frágil democracia, golpear a classe trabalhadora, retirar direitos, alinhar-se ao imperialismo norte americano e deter qualquer possibilidade de realização das nossas bandeiras históricas, a exemplo da Reforma Agrária.

Segue firme o Abril Vermelho, aos 20 anos do Massacre de Eldorado de Carajás . Não permitiremos retrocesso. Golpistas, ladrões de direitos, entreguistas, fascistas e assassinos não tomarão novamente os rumos deste país. Não sem enfrentar muita luta e resistência da classe trabalhadora brasileira.

MANIFESTAÇÃO CONTINENTAL DAS TRABALHADORAS E TRABALHADORES DAS AMÉRICAS

Por Divanilton Pereira*

A situação política internacional continua refletindo o desenvolvimento desigual das nações. O predomínio do rentismo no capitalismo contemporâneo atinge patamares incontroláveis e, também por isso, essa hegemonia ameaça o já débil padrão civilizacional atual. A crise capitalista em curso acelera essas contradições.

O arcabouço político e econômico constituído no pós-guerra não tem mais correspondência com as condições atuais. O consórcio imperialista liderado pelos EUA busca a manutenção de sua hegemonia e novos centros políticos enfrentam essa resistência.

Articulações inter-regionais, como o BRICS, são expressões desse novo esforço mudancista e reforçam a transição pela multipolaridade em escala mundial. A resultante é uma tensa e perigosa ambiência geopolítica.

O quadro político mais recente em nossa região latino-americana e caribenha também reforça a luta contra o hegemonismo imperialista.

A ascensão de governos progressistas a partir de 1998, juntando-se à histórica resistência cubana, criou novas possibilidades para nossos povos. No geral, suas orientações não estão identificadas com a agenda estadunidense e essas diretrizes nunca foram admitidas pelo império.

A derrota da ALCA há dez anos, a constituição da ALBA, a UNASUL e a CELAC são expressões desse novo tempo. No entanto, essas vitórias são partes de um processo ainda não consolidado. Uma construção com permanentes disputas e, por isso, contêm idas e vindas.

Atualmente, essas experiências sofrem ameaças e intervenções, chegando inclusive a já produzir derrotas no nosso campo político. Os resultados eleitorais na Argentina e na Venezuela, como também a tentativa de golpe no Brasil, são reveladores dessa contraofensiva direitista na região.

Não por coincidência, no marco dos dez anos do fracasso da ALCA, os EUA lançam o Acordo Trans-Pacífico (ATP) e ensaiam o acordo de comércio e serviços (TISA). São novas tentativas para anexar os países da região.

Esse conjunto articulado de ações imperialistas exigem uma reação também organizada e, sobretudo, unitária daqueles que se contrapõem ao poder dos EUA e de seus aliados em nosso continente.

Nessa perspectiva cresce ainda mais o papel do nosso sindicalismo classista. As suas organizações e articulações sociais devem assumir um novo protagonismo político, superar as querelas existentes e com um eixo político unitário, enfrentar com amplitude essas novas ameaças. A nossa omissão ou estreiteza política poderá provocar retrocessos e pôr em riscos os destinos de nossa pátria grande.

Entre o final de março e os primeiros dias de abril deste ano ocorrerão dois grandes encontros sócio-político em Montevidéu, Uruguai: O VIII Encontro Sindical Nossa América – articulação política-sindical que aglutina o sindicalismo classista de nossa região – e o Foro de Participação Cidadã da UNASUL.

Penso que devemos aproveitar a intersecção dessas agendas e lançarmos, através de um ato político, as pontes para a realização de uma grande manifestação continental unitária.  A defesa da democracia, dos direitos sociais e contra os tratados do pacífico e do TISA podem ser as bandeiras unificadoras.

É uma tarefa imprescindível e de enorme relevância estratégica.

Mãos à obra!

*Divanilton Pereira é Secretário de Relações Internacionais da CTB e Coordenador da FSM Cone Sul